Reflexos de uma paralisação

Uma paralisação, em seu conceito, define o ato de interromper uma atividade, suspender a produção de um serviço com um único intuito: a mudança. Essa ação geralmente acontece quando as pessoas demonstram insatisfação com algo.

O caso

Entre o fim de fevereiro e o início de março de 2015, centenas de caminhoneiros paralisaram as estradas brasileiras para reivindicar melhorias na profissão. Os protestantes buscavam a redução do preço do combustível, o combate à queda do preço do frete, exigiam exames toxicológicos na admissão e desligamento de funcionários, pontos de paradas mais ampliados e a solicitação de 12 horas por dia para trabalhar, em oposição às atuais oito horas que determina a Lei dos Caminhoneiros, que regulamenta os direitos da classe . Além disso, reivindicavam pedágio gratuito para o caminhão que tivesse eixo suspenso e estivesse vazio e o perdão das multas nos últimos dois anos por excesso de peso. Os pedidos atendidos foram enquadrados na nova Lei dos Caminhoneiros, que foram os requisitos para desbloquear as rodovias, após a legislação ser sancionada pela presidente Dilma Rousseff, no dia 02/03.

Para atingir o objetivo, os motoristas pararam os caminhões no meio das rodovias e bloqueavam o acesso de veículos nas vias. Os automóveis, porém, tinham passe livre. O protesto foi de caminhoneiros, mas agricultores também participaram, pelo menos no Rio Grande do Sul . A ideia era interferir no funcionamento do Brasil no momento em que o freio de mão de cada motorista fosse puxado. E a rotina do brasileiro, aos poucos, foi mudando.

A população, como um todo, sofreu com o manifesto

Em Passo Fundo, no noroeste do Rio Grande do Sul, em poucos dias, filas enormes foram formadas em frente a postos na procura por combustível, que sofreram escassez em virtude da parada dos caminhoneiros. Nos mercados, balcões de frutas e verduras ficaram vazios sem ter o que oferecer ao cliente. No trânsito, a lentidão estava no mesmo nível de dias de fluxo elevado. Nas lojas do comércio, mercadorias em falta. Não era esse o foco da manifestação, mas foi a consequência do ato imprevisível dos caminhoneiros.

As únicas quatro laranjas da Fruteira Cimarosti nos dias de paralisação. Foto: Matheus Moraes – Nexjor FAC/UPF.

No centro do município, onde o comércio toma conta da principal avenida, lojistas sofreram com o bloqueio das estradas. A loja Pompéia chegou a ficar dez dias sem receber mercadorias. De acordo com a sub-gerente, Juliana Souza da Silva, o estabelecimento ficou devendo roupas para o cliente que esperava pelas confecções de inverno. ”A liquidação de verão não nos prejudicou. Já sobre as roupas de inverno não recebemos nada, o consumidor procurava e não tínhamos’’, explica.

Enquanto isso, nas Lojas Schumann, a situação não foi diferente. Como a matriz é situada em Chapecó/SC, a empresa foi atingida diretamente com a paralisação. Sem alternativa de rodovias, a loja não recebeu produtos por uma semana e meia. E quem perdeu com isso foi o consumidor. Na parte interna da loja, espaços vazios tomavam conta. Havia ausência de box nas camas, sofás em falta, entre outros itens. A compreensão dos clientes foi fundamental para o entendimento da situação. ”O consumidor foi tolerante quanto ao caso, pois sabia que a culpa não é da Schumann, nem do comércio local”, relata o gerente.

As dificuldades dos consumidores em encontrar o que procuram é uma preocupação de Luis Ronaldo Lopes dos Santos Júnior, gerente do Posto Caju, na Av. Brasil. O proprietário diz ter sofrido na pele a tensão das pessoas em garantir mercadoria para dias futuros. ”Em virtude do medo das pessoas ficarem sem gasolina, abasteceram com antecedência. Na segunda-feira (02/03), por exemplo, foi a minha venda recorde desde 2014”, comenta o gerente.

Após alavancar as vendas de combustível, o resultado chegou à sua porta: a escassez de combustível. O Posto Caju ficou dois dias sem reforçar suas bombas e, consequentemente, sem movimento algum. Conforme o gerente, a ‘fidelização’ depende de cada pessoa, mas ele admite o medo de perder fregueses para a concorrência que teve gasolina para ser consumida.

Funcionários sentados e bombas sem combustível: o reflexo da paralisação no Posto Caju. Foto: Matheus Moraes – Nexjor FAC/UPF

Alimentação: o ponto mais crítico

O passo-fundense que foi à Fruteira Cimarosti, no centro, em busca de verduras e frutas, também não obteve sucesso no período de 27/02 a 08/03. Cebola, tomate, laranjas, chuchu, pimentão entre outros alimentos estavam escassos das prateleiras do local. A situação atingiu o ápice da precariedade quando havia somente quatro laranjas à venda. A solução para o empecilho foi buscar mercadorias de carro, enquanto os caminhões continuavam estagnados nas rodovias gaúchas. ”A tentativa de comprar produtos em outras cidades foi o que salvou a nossa substituição de alimentos, assim vamos retomando e atendendo às demandas”, explica Marisa Tessaro, gerente da Cimarosti.

O supermercado Bourbon voltou a ter suas prateleiras cheias após o dia 05/03. Foto: Matheus Moraes – Nexjor FAC/UPF

A falta de alimentos também chegou aos mercados de Passo Fundo. No principal, o Bourbon, no bairro Petrópolis, era evidente a influência da paralisação dos caminhoneiros a cada corredor que o consumidor transitava. O supermercado foi um dos pontos com maiores reclamações entre os moradores. O seu funcionamento só voltou ao normal depois do dia 05/03.

Apesar de todo o alvoroço causado nos estabelecimentos da cidade, os clientes da loja Doce Mania saíram satisfeitos nas últimas semanas, pelo menos é o que garante a proprietária da doceria. ”A paralisação não afetou o rendimento de vendas da loja, conseguimos dar continuidade no trabalho”, relata Marialda Antunes, a proprietária. A loja, no entanto, contou com uma pitada de sorte. Uma semana antes das manifestações começarem, a loja conseguiu um abastecimento de produtos considerável. De acordo com Antunes, o recebimento foi fundamental para não faltar nada aos seus clientes. ”Talvez não conseguíssemos atender todos sem o abastecimento, já que depois ficamos cinco dias sem receber nada”, comenta.

Movimentação na economia

Sob o ponto de vista da economia, a paralisação envolveu um ciclo de capital. Com o preço do diesel em alta – devido os tributos que incidem sobre

O economista Julcemar Zilli acredita no aumento da inflação no mês de março. Foto: Arquivo Pessoal

ele -, naturalmente o custo do frete alavancou. E isso retratou a indignação da categoria, pelo menos para o coordenador do curso de Ciências Econômicas, Julcemar Zilli. ”Os caminhoneiros não recebem o valor integral do frete, porque estão diminuindo a margem de lucro, assim aumentando o prejuízo da classe”, explica.

O economista também alerta sobre os efeitos que o protesto trouxe ao consumidor. De acordo com Zilli, o aumento do diesel e, consequentemente, do frete, transformam a economia num grande jogo. E ninguém quer perder. Se o produtor paga caro pelo serviço dos caminhoneiros, ele deve recuperar o seu dinheiro na hora de colocar à venda o produto final. ”No fim, o consumidor acaba pagando os prejuízos desse aumento que acontece no preço dos combustíveis”, argumenta. A consequência disso, segundo o economista, é subir o percentual de inflação regional e nacional no mês de março.

Com tantas mudanças em poucos dias, a cidade aderiu a uma nova rotina. E para você? Como foi conviver durante os dias de paralisação em uma das cidades que mais sofreu com o fato? Para saber o que a população pensa sobre o tema, o Nexjor foi às ruas descobrir a opinião das pessoas. Confira: