Uma proposta de Esperança

Na esquina do Bairro Pedregulho entre as ruas Tupinambás e a Caramurus em Guaratinguetá-SP, jovens se reuniam para traficar e consumir drogas. O jovem Nelson Giovanelli Rosendo dos Santos, comovido com a situação e dominado pelo desejo de viver o evangelho no meio deles, aproximou-se de um dos usuários, pedindo para que o ensinasse a fazer pulseiras, depois de escutar as histórias e ganhar a amizade de um dos frequentadores daquele cruzamento, foi apresentado para a “turma da esquina”, conhecida como ponto de venda e consumo de drogas. Movido pela animação de praticar a Palavra de Deus por Franciscano Hans Stapel, de origem alemã e pároco da capela do bairro Nossa Senhora da Glória, Nelson começou a frequentar diariamente aquele ambiente, sem qualquer pretensão.

A convivência entre eles estava cada dia melhor. Até que um jovem em especial, Antônio Eleutério, despertou em Nelson a oportunidade de realizar o desejo que tanto o envolvia com aquelas pessoas. “Nelson, não aguento mais essa vida! Não quero mais fazer minha família pobre e ver minha mãe chorar. Preciso de alguém 24 horas junto comigo”. A partir desse pedido, foi orientado a participar da missa e depois ficar para o grupo de jovens que se reuniam após a celebração. Assim começou a viver concretamente o evangelho para se recuperar.

Ao tomar conhecimento da nova vida que os companheiros da esquina estavam levando, outros jovens foram atraídos para a recuperação. O companheirismo, o amor, e principalmente a alegria em satisfazer a felicidade do próximo era o que alimentava e preenchia todos esses jovens, tornando a convivência tão intensa que decidiram morar juntos em uma pequena casa alugada na cidade, onde o primeiro voluntário da Fazenda da Esperança, Nelson Rosendo, se dedicava inteiramente aos novos dependentes que queriam mudar o rumo de suas vidas.

Para mulheres
Iraci Leite e Lucilene Rosendo, conhecida por Luci, iniciaram o trabalho de recuperação feminina em 1989, na cidade de Guaratinguetá / SP.

O Frei Franciscano alemão acompanhou e orientou os envolvidos em todas as experiências iniciais da Fazenda e pediu a toda a população da cidade de Guaratinguetá doações para os jovens que queriam se aprofundar nessa recuperação. Ganhou a primeira fazenda, e com o tempo chegavam doações até do exterior. Com a visita do papa emérito Bento XVI, em 2007, a unidade na cidade paulista popularizou a comunidade, que recebeu pedidos do mundo inteiro para abrir novas Fazendas.

Das drogas para a recuperação
Maria Aparecida, formada em Educação Física, começou bebendo com amigos mais velhos e acabou nas drogas aos 13 anos. Hoje com 46, Cida, como é conhecida, vem de família católica e estabilizada financeiramente, tem cinco irmãos e que segundo ela só conseguiu conhecer aos 27 anos. Passou do álcool para a maconha, e dali usou drogas mais fortes como crack e cocaína.

Na sua formação acadêmica passava dias frequentando aulas sob efeito das drogas. Com o diploma na mão passou a ganhar mais dinheiro, o que segundo ela facilitou para que se afundasse mais nesse mundo ilícito. “Todo dinheiro que vinha era pra droga!”, afirmou. No período dos 20 aos 25 anos teve três overdoses, a maior delas em um quarto de motel na noite em que saiu para ir a uma festa e acabou desviando o caminho. “Quando acabou a droga ele foi comprar mais, demorou pra voltar e eu na abstinência coloquei fogo na cortina do quarto. O dono do motel acordou e viu a fumaça saindo pelas frestas da porta, arrombou e me socorreu. Cheguei no hospital no colo do meu pai, praticamente morta”. Depois disso Cida foi internada em uma clínica particular, onde passava maior parte do tempo dopada pelos medicamentos.

Iniciou a sua recuperação na Fazenda, na unidade de Guaratinguetá, onde ficou por alguns meses e após se afastou, voltando a trabalhar em uma pequena academia que o pai havia montado. Foi voluntária na Alemanha, e também em Marau, o que interrompeu todos os seus negócios. Depois de seis meses retornou pra casa, reconstruiu a vida e passou 18 anos desligada da recuperação. Tinha um namoro de 13 anos, ótimo emprego, família, estava bem, porém ainda existia o vazio, que foi completado com mundo das drogas usando cocaína.

Quando percebeu já tinha perdido tudo novamente.

Cabeça cheia
Acolhida outra vez, voltou pra reabilitação, mas se preocupava e tinha uma imensa vontade de retomar as suas atividades profissionais como Personal Trainer. Retornou a sua casa, mas a dependência química falou mais alto. Não tinha mais prazer no trabalho e nem em se relacionar, se afundando completamente nas drogas. Em mais uma chance, a Fazenda da Esperança a acolheu e lá ela conheceu uma voluntária com a qual decidiu ir pra Belo Horizonte morar junta. Com o passar do tempo teve uma desilusão amorosa que a entregou ao crack. Até um dos maiores viciados da região afirmar que ali não era o seu lugar, foram dois meses morando em uma favela, na rua. Maria Aparecida tinha duas opções: morar na favela ou aceitar a recuperação. Basta visitar a Fazenda da Esperança em Passo Fundo para saber a opção que ela escolheu.

Cida deixa claro que não se preocupa com mais nada além do seu tratamento. “Dessa vez está nas mãos de Deus, se for pra me deixar aqui na fazenda de vez eu vou ficar, tudo depende dele agora!”. A droga lhe tirou tudo dela, e acha importante que hoje as pessoas saibam que ela é aquela que teve a coragem de recomeçar inúmeras vezes.

Créditos: Lindemar Ramos - Nexjor FAC/UPF

Créditos: Lindemar Ramos – Nexjor FAC/UPF

Maria Assunção, madrinha da Fazenda
A Fazenda da Esperança é feita de muitas Marias, algumas em recuperação e outras responsáveis pelo bem estar das pessoas que estão em tratamento, sendo essas, voluntárias, e na sua maioria, já passaram pela recuperação. Maria Assunção foi internada em 2004 por problemas alcoólicos, e hoje é Madrinha na Fazenda em Passo Fundo. “É uma transformação de vida, uma proposta de mudança muito grande” afirma à voluntária quanto ao tratamento.

Maria trabalha há muito tempo com dependentes químicos e na Fazenda os índices de recuperação são grandes, a dependência tem que ser tratada para o ser humano, resgatando os princípios e os valores da vida baseado no tripé: espiritualidade, trabalho e convivência. Para o tratamento espiritual, todo dia é lida uma passagem bíblica, que dela é retirada uma palavra que desafia aos que estão em recuperação que a vivenciem entre si. Segundo a Madrinha, a proposta de caminhada só se torna sólida depois de três meses, principalmente pela presença da família que é permitida, só depois desse período, visitar a Fazenda um domingo por mês.

A Fazenda da Esperança é um projeto amplo e abrange inúmeros países. Hoje em dia consegue ter altos índices de recuperação, e além de tratar o dependente ajuda também aos que querem passar uma experiência diferente, desligado do mundo. Em Passo Fundo o projeto acolhe apenas mulheres, e se sustenta com a padaria, que vendem seus produtos nas igrejas e eventos da fazenda, produzido pelas próprias meninas em recuperação.

Créditos: Lindemar Ramos - Nexjor FAC/UPF

Créditos: Lindemar Ramos – Nexjor FAC/UPF

A recuperação com base em medicamentos muitas vezes pode piorar. A proposta de acolhimento da comunidade Esperança, que hoje se espalha por mais de 57 cidades brasileiras, é apoiada pela palavra de Deus, um grupo de pessoas que vive dia após dia o Evangelho, ajudando uns aos outros independente de suas convicções religiosas, em busca apenas da recuperação. O exemplo de Nelson hoje atrai pessoas diariamente, todos com o desejo de retomar seu caráter, sua família, dignidade e principalmente suas vidas.