Jovens idosos?

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Lembranças de momentos vividos por Elenita estão gravados em fotos que ela guarda com carinho.

Idoso. Se essa palavra faz você lembrar-se de senhoras de chinelo macio bordando na varanda e senhores de pijamas assistindo televisão saiba que são definições que para muitos não se aplicam mais. Que o diga Elenita Machado da Silva. Com calça de ginástica e tênis confortável ela aguarda ansiosa o relógio marcar quatro e meia da tarde, hora da sua aula de dança. Aos 70 anos de idade a professora aposentada de história e geografia, com expressão de satisfação, conta que problemas de saúde são quase inexistentes na sua vida.

Ela, que não gosta de ser chamada de idosa, mas de experiente, acha péssimo o uso das definições clichês sobre essa fase da vida. Sente que as pessoas que passaram dos 60 anos já fizeram sua parte, dedicaram-se a família e devem pensar, também, em si mesmas, se divertir, aproveitar o tempo. Participar de oficinas que promovam o envelhecimento saudável é uma das formas que Elenita encontrou de superar os obstáculos físicos impostos pelo tempo. Dança livre, bailes da terceira idade, alongamentos são as atividades escolhidas por ela. Saudosa relembra dos momentos que marcam sua trajetória e que construíram a mulher que é hoje:

– Fui criada na colônia, sem condições de estudo, e quando cheguei em uma certa idade na minha vida melhoraram as condições e eu fui fazer uma faculdade. Aos 11 anos eu queria ser professora. Aos 42 eu colei grau na faculdade e fui para sala de aula.

Nada mais justo que a responsável por apresentar a história do mundo para as crianças partisse então para conhecê-lo de perto. As viagens, outra paixão, a levaram ao México, Peru, Amazonas e Brasília. Nessas aventuras superou o medo de água, visitou tribos indígenas, conheceu diferentes culturas. Para registrar todas essas histórias e mostrar suas experiências para os amigos a ferramenta das redes sociais é uma facilitadora. Então, surge a meta, aprender a usar esse novo jeito de se comunicar.

Os desafios da tecnologia

Em uma sociedade cada dia mais tecnológica os idosos enfrentam o dilema de ficar de fora dos novos métodos de comunicação, de relação que a evolução digital proporcionou, ou buscar o aprendizado e se conectar com o mundo. Elenita adepta do facebook fala sobre como é encarar o desafio e navegar nas redes:

– É um pouco complicado, quando a gente tem mais idade. Mas nada que impeça a gente de mergulhar numa rede social, ler o noticiário no computador ou numa televisão a cabo. Nada impede, é treinar e aprender.

Outro método eficaz de aprendizagem são os cursos de informática. A amiga de Elenita, Zaida Maria de Oliveira, 65 anos, fez um curso que a ajudou manusear as ferramentas de comunicação.

-Me deu mais segurança para mexer no computador. – revela.

Uma vez conectados ao universo de informações disponíveis na internet, os idosos podem usá-la não apenas para interagir socialmente, mas para buscar maneiras de cuidar da saúde sem esquecer, no entanto, da orientação de um profissional da área. O exercício físico, por exemplo, é necessário quando se quer manter as funções do corpo equilibradas e com energia para desenvolver atividades.

A essencial atividade física

A professora e fisioterapeuta Lia Mara Wibelinger explica a relevância dos benefícios que a movimentação contínua do corpo proporciona aos idosos.

Ouça:

Alongamentos são feitos antes e depois da aula de dança.

Alongamentos são feitos antes e depois da aula de dança.

Por saber da necessidade de movimentação na terceira idade Elenita faz parte do CREATI/UPF um centro de apoio que promove a qualidade de vida, a longevidade por meio de serviços e atividades educacionais, físicas, técnicas, mentais, culturais, sociais e afetivas. É lá o lugar da espera ansiosa pelas coreografias e pelas risadas com as amigas. Daniela Bertol, a coordenadora, explica quem participa do projeto que em 2015 completa 25 anos:

-Pessoas com 55 anos de idade completos ou mais. Sendo que para ingressar nas oficinas é realizada uma avaliação física e/ou de conhecimentos, conforme o teor da oficina pretendida, para alocarmos o indivíduo na atividade mais adequada para o seu benefício.

A procura é grande o que mostra a preocupação dos idosos em procurar alternativas para cuidar da saúde.

– Felizmente muitas oficinas estão sem vagas. O adulto “maduro” e o idoso da atualidade está sempre em busca de oportunidades e novidades para cuidar do seu bem-estar. Comenta Daniela.

Praticante das oficinas de dança e pilates do CREATI Zaida garante:

-Melhora a saúde, qualidade de vida, nos afazeres do dia-a-dia. Além de contribuir para se sentir feliz, elegante, bonita.

 

Nem todo idoso é igual

Apesar do fato de alguns idosos aderirem a propostas e programas da UPF de convivência para terceira idade a coordenadora de Mestrado em Envelhecimento Humano, professora Marilene Rodrigues Portella aponta que essa é uma questão que envolve preferências e oportunidades. No Brasil há idosos jovens, mas nem todos preservam a juventude do corpo. Na atualidade as tecnologias em saúde, na medicina avançam, mas aumentam as doenças crônicas. Marilene explica:

– Os estudos indicam tendências positivas nas condições de saúde da população idosa brasileira em várias dimensões, mas não em todas. O uso de serviços de saúde ocorre em vários contextos, mas se observa que o cuidado dos idosos é atribuído às famílias, as quais cuidam dos seus, muitas vezes, sem apoio.

Na perspectiva de que o Brasil se torne um país da terceira idade (ver o infográfico) e que há a dualidade de pessoas que envelhecem com saúde e cada dia mais ativas e pessoas que não se preocupam ou não têm acesso ao envelhecer saudável gera uma dúvida. Qual o perfil do idoso do futuro, indivíduos ativos ou inativos? A professora Marilene defende o crescimento da permanente atividade dos idosos na vida social, mas releva a necessidade de oportunidades para que isso ocorra:

– Com certeza vamos ter idosos ativos, participativos reivindicando seus direitos e com boas condições de saúde. Por outro lado, não podemos ser ingênuos ao ponto de pensar que o desenvolvimento tecnológico e as oportunidades são para todos. A desigualdade existe a nível mundial, no Brasil não é diferente. As questões de educação, saúde e segurança, bem como o próprio comportamento das pessoas são fundamentais na garantia de um envelhecimento bem sucedido.

Chegar a uma idade avançada com saúde depende muito das atitudes que tomamos ao longo da vida, com o acesso aos serviços de atendimento salutar, a vontade própria, oportunidades de contato com grupo de acompanhamento do idoso que oferecem atividades e, inclusive, com a própria herança genética. Os hábitos de hoje projetam consequências no amanhã. É sempre benéfico o cuidado com o corpo em com a mente.

Um passo à frente, outro atrás, gira e repete… De passo em passo, de dança em dança Elenita e Zaida vão sorrindo e vivendo. Aproveitam as oportunidades que têm para se exercitar. Com a vontade de se sentir bem e a alegria de viver estampadas no rosto elas não poupam esforços nas atividades. Incentivam que outras pessoas façam como elas e participem de grupos que promovam o bem-estar. Elas não poupam energia para buscar o que é fundamental para todos, seja criança, jovem, adulto ou idoso: ser feliz. Elenita deixa uma mensagem…