Meningite: a informação é a melhor solução

A meningite tem tirado o sono de muitos pais e médicos em Passo Fundo nos últimos dias. O Núcleo de Vigilância Epidemiológica do Hospital São Vicente de Paulo, informou recentemente, que os últimos números sobre a meningite viral são preocupantes. Transmitida pelo ar, a meningite viral é de fácil contágio. No mês de outubro foram 33 casos superando a média mensal registrada até o momento, de 9,4 casos.  Ainda no final do mês de outubro, uma menina de 1 ano e 8 meses, morreu por conta da meningite bacteriana, que é mais grave e pode ser transmitida a partir do contato.

Os pais se preocupam com os filhos pequenos, temem que eles possam pegar a doença – que é rápida e pode levar a morte. Os médicos, por outro lado, tentam lidar com pessoas desesperadas que espalham informações sobre a doença de maneira equivocada.

Para esclarecer as dúvidas sobre as diversas informações que se espalham pela a cidade acerca da doença, conversamos com dois médicos, os pediatras neonatologistas Rui Locatelli Wolf e Jaqueline Cabeda, além do Secretario Municipal de Saúde, o médico sanitarista e mestre em epidemiologia Luiz Artur Rosa Filho. Os médicos dedicaram-se a nos explicar um pouco mais sobre a doença, já o secretário nos informou como Passo Fundo está lidando com a meningite.

O que é a meningite?
É uma inflamação da capa da meninge que circunda o cérebro e todo o canal vertebral, afetando diretamente o liquido cefalorraquidiano. Dividindo-se em diferentes tipos. Os mais comuns são:

Meningite Viral: A forma viral é benigna, sem a necessidade de antibiótico. Para o seu tratamento é utilizado antivirais. Muito confundida com uma gripe.

Meningite Bacteriana: É a infecção por bactéria (meningococo ou pneumococo), é mais grave, agindo de maneira muito agressiva e rápida, deve ser tratada imediatamente. A bactéria mais comum é o pneumococo que é responsável por infecções como pneumonia e meningite. Até os seis anos de idade 80% das infecções são ocasionadas por ele.

Sintomas
Os sintomas, em ambos os tipos, são os mesmos de uma infecção e podem variar em sua apresentação. Os pais devem fazer a observação do comportamento da criança, pois ela fica mal, prostrada e irritada. Essa variação é determinada pelo agente causal: vírus ou bactéria

Na viral, no intervalo da febre, normalmente a criança não fica tão mal e na bacteriana o quadro continua evoluindo.

Na bacteriana, a meningocócica, é muito agressiva, em poucas horas ela altera toda a cascata respiratória do organismo. Neste caso, geralmente os sintomas são bem mais rápidos e violentos, sendo combatido com medicação. Entretanto, há um grande risco de que a doença deixe algum tipo de dano cerebral que podem ser o mais variado e transmuta conforme o local atingido. A evolução do quadro pode acontecer em poucas horas. A criança pode ter crise convulsiva e entrar em coma, chegando ao óbito em 24 ou 36 horas.

Foto: Matheus Colombo

Foto: Matheus Colombo

 “Não existe meningite sem febre” destaca o pediatra Rui Wolf

Contágio
Viral: A pediatra Jaqueline Cabeda destaca que “a viral é mais comum em bebês, antes de um ano, e tem que ter uma pré-disposição da criança.” Ela pode ser transmitida no ambiente, em contato com objetos contaminados, ou quando crianças ficam expostas a aglomerações. Além da pré-disposição, essas crianças também podem ser atingidas se estiverem com a imunidade baixa.

Bacteriana: Acontece a partir do contato direto com secreções da boca, urina e fezes, mas geralmente pela boca e saliva, pelo beijo e troca de objeto (como o uso do mesmo bico, comer do mesmo alimento). Geralmente o contágio é transmitido por um adulto, pois ele é colonizador da bactéria. A bactéria pode não atingir seu colonizador, mas pode infectar quem tiver contato direto com suas secreções, gotículas respiratórias ou contato intimo.

Foto: Juliana Zanatta

Foto: Juliana Zanatta

“A principal armar para combater qualquer doença infecciosa é lavar as mãos”. Orienta Luiz Artur Rosa Filho, Secretario de saúde de Passo Fundo.

Vacinas
Atualmente o calendário público realiza, nos postos de saúde, a vacina para meningococo C, aos três e aos cinco meses de vida da criança e repetida com um ano. Já na rede privada ainda existem vacinas para os tipos A, C, Y e W, e este ano chegou ao Brasil à vacina para o meningococo B.

A eficácia da vacina não garante 100% de proteção contra a doença. “É uma vacina cara e precisa ser feita em duas doses, para garantir alguma proteção, depende da conduta de cada médico”, como explica Jaqueline Cabeda.

No Brasil, em geral, a maioria dos casos de contágio são ocasionados pelo meningococo C, mas no sul do país há também uma grande incidência do meningococo B.

Informações
A morte de uma criança em Passo Fundo, fez com que os pais corressem até os pediatras com os filhos em busca de mais informações. O caso também gerou uma corrida as clínicas de vacina. O resultado? Consultórios lotados e o término, em Passo Fundo e região, das doses das vacinas para o tipo B.

Diversas informações se espalharam sobre a doença nas redes sociais e, de acordo com os pediatras, acabam preocupando os pais. Para estes especialistas, em geral esses pais acreditam em informações disseminadas de maneira errada e equivocada, sem procurar saber a opinião de um profissional para entender o que realmente está acontecendo.

Como o pediatra Rui Wolf destaca: “A descrença em profissionais de saúde é muito grande, muitas vezes os pais preferem acreditar em vizinhos, amigos ou até mesmo no que se fala na internet, ao invés de seguir as indicações passadas pelo pediatra de seus filhos. A morte que aconteceu em Passo Fundo foi uma fatalidade.” A incidência abaixo dos seis anos do meningococo é muito baixa, então teoricamente não precisaria vacinar as crianças antes desta idade, e só fazer quando tiver um ou mais casos na região ou quando houver surto.

De acordo com o com o pediatra, a corrida para a vacina em outras cidades não é necessária, porque Passo Fundo não está sofrendo de surto da doença. “É muito melhor que os pais mantenham o cuidado com os filhos para a prevenção do que buscar a vacina em outros municípios”, diz Wolf.

O secretário de Saúde, Luiz Artur Rosa Filho explica que houve uma preocupação com os familiares e pessoas que tiveram contato com a menina que morreu de meningite: um total de 40 pessoas. Como prevenção, elas fizeram uma profilaxia, que é o tratamento com antibiótico, ficando em observação no período de dois á 10 dias. Este período corresponde ao tempo que a doença leva para se manifestar.

Segundo o secretario de saúde, Passo Fundo tem cerca de 100 casos de meningite por ano, e a maior parte deles é viral. Cerca de 30% deste total são casos de meningite bacteriana, que variam em seus tipos. Conforme os especialistas, os principais grupos de riscos são os extremos da vida (crianças e idosos), mas também devemos observar as populações com 20 e 4o anos.

Foto: Matheus Colombo

Foto: Matheus Colombo

  “Todas as pessoas em qualquer faixa etária,  podem ser contaminadas, mas com a vigência da vacina os casos em jovens e adultos não aparecem tanto”, alerta a pediatra Jaqueline Cabeda.

No que diz respeito ao que está acontecendo em Passo Fundo, Luiz Artur Rosa Filho afirma que é um momento de calma e que a situação está controlada.