Você tem tempo para doar?

Parece ser uma tarde como todas as outras. A verdade é que para esse grupo de guerreiros, é um dia a mais de luta contra o câncer.

Com a cabeça baixa, olhos fixados em algum lugar da sala, Mateus, 21 anos, luta contra um sarcoma. A sala tem pouco mais que 12 pessoas. Amanda, psicóloga, é quem conduz o encontro. “O que é felicidade para vocês?”. O silêncio, que parece ser eterno no pequeno grupo, se quebra quando dona Amália afirma: “Felicidade é estar bem de saúde”. Igor, de nove anos constata: “Felicidade é brincar”. E assim, muitas outras respostas são manifestadas, definindo o que é felicidade. “Vocês são felizes?”, questiona Amanda. “Eu não sou feliz. Não sempre”. “Mas nós não somos felizes sempre. Nem podemos”, responde Amanda. Mateus, que estava de cabeça baixa, ergue-a e responde: “É verdade”.

Em cada olhar, é possível notar  o tanto de esperança que é encontrada. Foto: Juliana Zanatta

Em cada olhar, é possível notar o tanto de esperança que é encontrada. Foto: Juliana Zanatta

Assim funciona o Núcleo de Apoio ao Paciente Oncológico (NAPON), um grupo voluntário, formado por residentes dos cursos de Farmácia, Enfermagem, Psicologia, Fisioterapia, Nutrição, Serviço Social e Medicina. Uma equipe que estimula a autoestima de pessoas que estão em tratamento ou que já venceram a doença. A cada encontro, um tema diferente é trabalhado, mas sempre com o mesmo propósito.

Todas as dinâmicas feitas tem o intuito de fazer os pacientes refletirem sobre a importância de valorizar cada momento, motivá-los a terem um olhar mais convicto para o tempo que ainda não viveram. E é o que acontece. Desde que começaram a fazerem parte do Napon, toda essa galera passou a enxergar em cada dia uma nova chance de serem felizes. Melhor que isso, são felizes sem tempo para pausa.

Quem recebe esse amparo só tem a agradecer, assim como dona Ieda. Ela já passou por todo o processo de quimioterapia, mas insiste em permanecer com o grupo. “A gente batalha junto e se hoje eu puder dar um sorriso que seja para alguém, já é uma forma de contribuir para que o dia dessa pessoa seja melhor.”

O trabalho de cada voluntário é um diamante na vida dessas pessoas que necessitam de uma atenção maior. Para Amanda, poder sair um pouco da rotina é fundamental. “O trabalho com o paciente ambulatorial é normalmente mais voltado para a doença e aqui no grupo se trabalha muito a vida. Isso aqui me faz feliz”, completa ela, emocionada.

A equipe estimula a autoestima de quem está em tratamento ou que já venceu a doença. Foto: Juliana Zanatta

A equipe estimula a autoestima de quem está em tratamento ou que já venceu a doença. Foto: Juliana Zanatta

Em uma época onde o tempo é escasso, fazer trabalho voluntário se tornou algo incomum. Ainda assim, existem diversas organizações que prezam pelo voluntariado das mais variadas formas. Mas em uma era onde o tempo vale muito tempo e ninguém o tem sobrando, como conseguir ser voluntário? O que lhe motivaria a ser um? É complicado gastar do seu tempo sem receber um centavo em troca, afinal, você não tem tempo nem para você mesmo. Mas por que é tão difícil ajudar quando não se ganha nada em troca?

Quem faz o bem sem olhar a quem
No Hospital São Vicente de Paulo, um grupo formado por voluntários de diferentes áreas, vem Desenhando Sorrisos nos rostos das crianças com câncer. Em pouco mais de uma hora, acompanhando o trabalho com as crianças, foi muito fácil de perceber que o momento de dificuldade, não é mais forte do que a força de vontade quem essas crianças têm de viver. As “visitas” ao hospital tornam-se menos cansativas e mais divertidas para as 40 crianças que estão em tratamento oncológico.

O trabalho social desenvolvido pelo grupo Desenhando Sorrisos tem pouco mais de um ano. Formado inicialmente por seis pessoas, hoje chega a 30. A inciativa foi dada pela Farmacêutica e Bioquímica Melina Rodrigues, que em sua graduação, ao entrar em contato com pacientes, sentiu a necessidade que essas pessoas têm de um cuidado mais humanizado, que ultrapassasse o profissionalismo.

“Você modifica toda estrutura de um tratamento. O que poderia ser extremamente traumático para elas, acaba ficando mais leve“, Melina Rodrigues sobre os benefícios do projeto para as crianças.

Igor tem dois anos. Está com anemia muito forte. Seus pais temem que seu quadro mude para leucemia. Igor, não tem ideia do que está acontecendo, ou do que ainda está por acontecer. Mas uma coisa ele tem certeza: brincar é a melhor coisa existe. Seu pai afirma que vê-lo feliz é o que o deixa feliz. Sempre com um sorriso sadio, ele é quem acaba dando força a seus pais. Nesse caso, o trabalho do grupo é ainda mais amplo, pois precisa levar amparo também os pais.

Hoje essas crianças vem ao hospital para brincar. A quimioterapia é só um pedacinho da tarde. Foto: Juliana Zanatta

Hoje essas crianças vem ao hospital para brincar. A quimioterapia é só um pedacinho da tarde. Foto: Juliana Zanatta

Aquela viagem cansativa e de espera, não existe mais. Hoje, o dia de quimioterapia é um dia fabuloso. A sala onde é realizada a medicação está cheia de conversas e sorrisos. Como conta Melina, essas crianças vêm ao hospital para brincar, dão pausa para fazer a medicação, e voltam a brincar. A quimioterapia é só um pedacinho da tarde. “Esse tipo de resultado é que vale a pena. Você modifica toda estrutura de um tratamento. O que poderia ser extremamente traumático para elas, acaba ficando mais leve. Os próprios pais nos retornam contando que as crianças ficam melhor humoradas e menos resistentes aos outros profissionais do ambulatório”.

A voluntária, quando questionada sobre o que significa a palavra voluntariado, responde: “Ser voluntário, não é doar aquilo que você tem de sobra, mas sim aquilo que você tem de melhor”. Graças a esse trabalho de pessoas como Melina, que se doam para o bem do próximo, muitos rostos que antes eram tristes, agora estão radiantes. A necessidade em ajudar, em estender a mão, sem receber nada em troca, definitivamente, é o combustível para essas pessoas.

 

"Estender a mão, sem receber nada em troca, definitivamente, é o combustível para essas pessoas." Foto: Juliana Zanatta

“Estender a mão, sem receber nada em troca, definitivamente é o combustível para essas pessoas.” Foto: Juliana Zanatta