Caminhos da Fé: A mãe de Passo Fundo

O território de Passo Fundo recebeu no séc. XIX alguns tropeiros que trouxeram, além do seu espírito explorador, a fé e a devoção a Nossa Senhora Aparecida. A virgem, mãe de Jesus, trazia aos viajantes amparo nos momentos difíceis e força para continuar sua caminhada. Anos mais tarde o então designado Comandante do território passofundense, o cabo Manuel José das Neves, doou metade das terras que ganhou do Império para a Igreja em devoção a Santa.

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Professor e historiador Welci Nascimento/Foto: Lindemar Ramos – Nexjor

Em 1835, fixando a fé do povoado e a tradição ligada aos portugueses, foi erguida a capela Nossa Senhora Aparecida onde hoje se localiza a Catedral Nossa Senhora Aparecida. Segundo o professor, escritor e membro da Academia Passo-Fundense de Letras, Welci Nascimento, em meados do século 19 a estrutura da igreja se rompeu e devido ao crescimento da cidade para o bairro Boqueirão foi construída mais uma igreja, desta vez na Rua Uruguai, a Matriz Nossa Senhora da Conceição. Para o professor, existe um imenso contexto histórico relacionando a cidade com a Igreja, que é considerada a mais antiga do norte do Rio Grande do Sul. Dez anos mais velha que Passo Fundo, a Paroquia de Nossa Senhora da Conceição, carrega seu titulo de matriz e padroeira do município.

“A cidade cresceu e se desenvolveu sob a proteção de Nossa Senhora”, afirma Welci. Dentro da Igreja Matriz foi fundada a Sociedade São Vicente de Paulo, chamados de vicentinos, que fazem até hoje um trabalho significativo aos pobres. Dois anos mais tarde, surge o Hospital São Vicente de Paulo.

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Padre Ivanir Rodighero/Foto: Lindemar Ramos – Nexjor

Matriz e padroeira
Trazida pela colonização portuguesa, a importância da Santa para Passo Fundo é notória. O Pe. Ivanir Rodighero explica que a devoção da cidade é pela proteção, tendo como marca ser a Matriz, aquela que protege e se doa. “Quase todo o centro aqui de Passo Fundo era um terreno dedicado a ela, e atualmente ela está exprimida entre os prédios, pois doou tudo aos seus filhos”.

As duas imagens que temos da Santa fazem referência a momentos históricos diferentes. Em uma delas, vinda do período barroco, temos três crianças: duas brancas e uma negra. Na imagem, as crianças brancas estão com os pés em cima da criança negra, remetendo ao conflito da escravidão. Neste sentido, segundo o Pe. Ivanir  “é a presença da Santa que ajuda os negros a superar a escravidão, o sofrimento, e que mostra o caminho de libertação”.

Já na outra imagem encontramos a Santa pisando em uma cobra. Neste caso trata-se de um resgate dos textos bíblicos, onde a Santa aparece como aquela que enfrenta e vence o mal.

8 de dezembro, feriado religioso
Em 1967 a Câmara dos Vereadores de Passo Fundo declarou o dia 8 de dezembro como feriado religioso de Nossa Senhora da Conceição. Para o padre Ivanir a festa da padroeira de Passo Fundo deveria ter maior destaque público, ao ponto de se tornar um momento de celebração e também de reflexão sobre a vida neste município. A missa, celebrada na sede da matriz, traz fiéis de todos os cantos da cidade que se acumulam em entre os bancos da Igreja e carregam em seu rosto as marcas da vida e da passagem do tempo.

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Padre Fábio de Morais, atual pároco da Igreja Matriz Nossa Senhora da Conceição/Foto: Lindemar Ramos – Nexjor

O Tempo
Os poucos “jovens adultos” que se reúnem com a velha guarda paroquiana, foram carregados ali pela história de sua família. “A paróquia se alegra em ser a mais procurada quando se trata de casamentos e batizados”, conta o padre Fábio de Morais que trabalha ali há sete anos. O sacerdote lembra das famílias que tradicionalmente estão ligadas a igreja e se orgulha disso. “A paróquia tem esse vinculo afetivo com as pessoas, que depois vai repassaram para os demais familiares.”, afirma.

Com as diversas mudanças sociais as igrejas sentiram aos poucos as mudanças dos seus fiéis. Um reflexo disso é a idade avançada dos seus participantes, muitos já estão cheios de rugas no rosto e a expectativa de renovação dos seus participantes parece distante. A tradição é um dos fatores mais significativos para a dificuldade de renovação, apesar das diversas lideranças que fazem parte da paróquia. Fábio ainda destaca o grande desafio de evangelizar nos dias de hoje: “tornar o nome de Jesus, não apenas conhecido, mas fazer com que os fies se tornem discípulos, que se encantem e abracem essa causa”.

Montagem a seguir mostra as igrejas Matriz e Catedral antes e depois. Veja!

Trabalhando pela mãe

Foto: Lindemar Ramos - Nexjor

Antoli Fauth Melo, devoto da Santa/Foto: Lindemar Ramos – Nexjor

A igreja tem a sua base cheia de experiências, diversos idosos se unem na comemoração do dia 8 de dezembro. Antoli Fauth Melo, faz parte da equipe que prepara o almoço no feriado, mostrando em seus olhos e no seu sorriso a alegria de fazer parte deste trabalho, é paroquiano a mais de 30 anos. “Nos sentimos muito honrados em poder estar trabalhando no dia de hoje”, relata. Também estão entre as atividades do dia a venda de cucas, bolos e pastel: “O almoço não tem a finalidade de arrecadação, é muito mais confraternização paroquiana e com a cidade e sempre é um motivo de muita alegria” esclarece Antoli.

Além de buscar unir a comunidade com as vendas de cucas e outras atividades como o trabalho da Caritas, a paróquia tenta trazer o jovem para a sua morada através das famílias. A criação de um grupo de jovens vem sendo citada para dar um rosto novo a igreja. Padre Fábio relata ainda a busca incansável para que os jovens participem da vida cristã, afirmando o compromisso feito pelo atual Papa Francisco em que a igreja deve ir atrás e estar junto a comunidade ao invés de ficar esperando pela procura dos seus fiéis.

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Com 88 anos, Berenice Lima não perde a fé/Foto: Lindemar Ramos – Nexjor

Aos 88 anos, Berenice Mendes Lima espera sentada no banco na igreja vazia. No inicio da missa o Padre Fábio propõe uma caminhada pelas ruas próximas a paróquia, ao redor da Praça Tamandaré. Berenice já não consegue mais acompanhar este ritual, então fica no aguardo da volta da procissão. Ela é devota de Nossa Senhora da Conceição desde que chegou em Passo Fundo, há oitenta anos atrás. Ela vem acompanhando o crescimento da cidade ao redor da paróquia, morando sempre próxima a igreja desde sua chegada na cidade. “Tinha aqui na frente um corredor de bambu, que as festas eram feitas ali na frente, cansei de ser garçonete, de ajudar lá dentro, depois para fazer pastel”, lembra Berenice.

Passo fundo e seus habitantes evoluíram e cresceram ao redor da Matriz. Aos poucos, casas e prédios foram tomando conta do espaço, e a igreja tornou-se um pontinho no meio deles. Da mesma forma, passou a ser pouco lembrada, como contam os entrevistados desta reportagem. Para eles a falta de renovação torna o seu futuro incerto.