A moda é o que sai de moda

“Moda: uma interface com o mundo exterior, que revela quem somos e como queremos parecer”.

 

Entre desfiles, semanas de moda, catálogos e capas de revistas, a cada temporada (outono/inverno e primavera/verão) a moda apresenta a seus expectadores novidades, ou até mesmo releituras, apontando o que será tendência. Seus estilistas, sempre procurando inovar, “brincam” com cores, formas, cortes e tecidos, mas o que estamos percebendo é que cada vez, o que já foi tendência ou até mesmo marcou uma época, tem voltado para as passarelas. Estaria a moda se tornando um ciclo? Ou ela sempre foi assim?

Para começar a falar de moda, temos de voltar alguns bons séculos na história e ir, por exemplo, para a idade média. Nesse período, as roupas eram usadas para diferenciar as pessoas e suas classes sociais. Cada classe possuía uma vestimenta e o imperador chegou a ser o único autorizado a usar a cor púrpura, para se destacar no meio dos súditos. Mas com a falência da nobreza e ascensão da burguesia, na chamada idade das luzes, essa ideia foi extinguida.

No mundo contemporâneo, as coisas mudaram. Com o fim da Segunda Guerra Mundial, a moda passa a ser influenciada por diversos canais, como a música, o cinema, as artes e principalmente, o contexto histórico. A moda torna-se um produto, dando origem ao prêt-à-porter, responsável pela difusão da moda em grande escala, possibilitando maior qualidade, praticidade, além de diferentes estilos. Roupas que possuíam assinatura de estilistas, se tornaram mais acessíveis ao público, dando sofisticação, ao que agora era produzido em grande escala. Era o início promissor do que hoje podemos associar as grandes marcas, que tomam conta do mercado.

O século XX é marcado por décadas pontuais, cada qual com seus acontecimentos históricos, que puderam dar destaques a períodos de diferentes influências. Você pode conferir essas diferenças, no infográfico abaixo:

A chegada do século XXI apresenta uma moda acessível. Com a criação de estilos e sua produção em massa, as tendências da estação passaram a estar em revistas e blogs de moda, e as coleções dos grandes desfiles a preços acessíveis em “fastfashions” ou em sites da internet. Além da própria indústria, buscar suas referências no que as pessoas usam nas ruas, o chamado “street style”. Atualmente, diversas modas coexistem, afinal são muitos canais de influência.

Para Carolina Leal Lima, formada em Design de Moda e Mestre em Fashion Management pela Domus Academy (Italiana), a comunicação é um pilar chave do sucesso e da disseminação da moda: “Sem a comunicação, ou seja, a forma de expor o produto (seu editorial, styling e ponto de venda), seria difícil expressar um estilo e posicionamento de uma coleção, esses itens são essenciais para apresentar a ideia da marca”.

Boutique Versace em Paris

Boutique Versace, em Paris

Ela acredita que existem três formas de sermos impactados por uma marca: “A relação social, a visão que meus amigos e conhecidos tem da marca, a influência em comunicação e o acesso que tenho ao ponto de venda, além da minha experiência pessoal de compras.”

No caso das mulheres, a moda expressou durante anos a realidade em que viviam, e a luta diária por reconhecimento e autonomia. Nos anos 80, por exemplo, as mulheres precisavam manifestar um visual forte, masculinizado, no meio dominado por homens, enquanto hoje buscam encontrar um meio termo entre profissionalismo e vaidade, no espaço conquistado.

Quanto aos ciclos da moda, Flávia Rodriguez, formada em Design de Moda pela Universidade de Passo Fundo, destaca: “Cores e formas ganham vida nova através de outros nomes, pequenas mudanças e a divulgação correta, mas tendências se repetem a todo o momento e durante toda a história. Um exemplo é a moda boho, inspirada nos anos 70, que traz muitas influências da década, mas ganhou novo nome”.

Existe o cansaço de um estilo, o que o faz sair de moda, e também o resgate de outros, como por exemplo, a nostalgia de uma época e de um comportamento de certo período, como vimos acontecer com a volta dos anos 70 e 90, no último ano. Mas não significa que isto seja obrigatório e que será sempre assim, afirma Carolina. “Este fenômeno se destacou na mudança de século XX para XXI e é fruto das inseguranças que temos hoje em relação ao futuro. Olhar para trás traz mais segurança ”, ainda destaca.

Desfile Burberry, inverno 2016

Desfile Burberry, inverno 2016

A moda ainda inova no que se refere a químicas têxteis, sustentabilidade, materiais com melhor performance e nos processos de produção e logística. Não se trata mais de uma inovação de estilo, mas na forma como a moda é feita, produzida.

Ela é tudo que faz uma pessoa querer algo, está por todos os lados, afirma Bianca Huppes, também formada em Design de Moda pela Universidade de Passo Fundo e com Pós-graduação em Modelagem. “Ela permite que as pessoas se libertem de seus medos e encontrem uma forma de se expressar”. Os desfiles, as grifes, e os catálogos de moda proporcionam linhas de inspiração, mas o que se veste é o espelho de sua personalidade.

Carolina ainda destaca, que o Brasil veio crescendo em ritmo lento, quando as formas de acessar a moda e que faltam críticos de moda, para avaliar e não apenas promover as marcas. “O que temos aqui, no país, é mais publicidade, seguidores de marcas que trabalham para informar e vender o que é produzido, sem desenvolver um senso critico sobre a mesma. Acredito que quando isso acontece, a moda perde seu caráter de arte e torna-se apenas mercadoria”.

Diferentes opiniões estão presentes no mundo da moda, mas o que ninguém pode negar é a influência que ela tem. Em ciclos, ou em linhas inovadoras e lineares, o que é importante destacar é que não se pode criar ou inventar, sem compreender o passado e sua evolução. A moda tem a ver com ideias, a maneira como vivemos e o que está acontecendo. E qual será sua próxima faceta?

As semanas de Fashion Week são marca registrada no mundo da moda, nelas os principais nomes da moda reúnem suas coleções e indicações de tendências para as temporadas de Primeira/Verão e o Outono/ Inverno.  As semanas de moda mais conhecidas acontecem em Nova Iorque, Londres, Milão e Paris. Mas o Fashion Week ganha cada vez mais espaço por todo o mundo, com as semanas de moda de Tóquio, Lisboa, Estocolmo e Bangkok, por exemplo. No Brasil, os principais eventos acontecem entre Rio de Janeiro, Brasília e São Paulo, mas outros estados como Goiás e Minas Gerais vêm conquistando seu público.