Escola pequena, coragem grande

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Alguns dos 380 alunos da Escola Estadual Eulina Braga ocupam o colégio desde a segunda-feira
na busca por melhorias na estrutura e na educação como um todo

Por Marcell Marchioro e Matheus Colombo
Médico veterinário, nutricionista, carreira militar: são muitas as carreiras que povoam os sonhos dos 40 alunos que ocupam a Escola Estadual de Ensino Médio Professora Eulina Braga desde a última segunda-feira (16/05).  A frente dos estudantes está o presidente do Grêmio Estudantil, Leonardo Menezes, aluno do segundo ano do ensino médio. Ele conta, em conversa com outros dez estudantes que ocupavam o colégio na manhã dessa sexta-feira, que o movimento começou em resposta aos dirigentes da 7ª Coordenadoria Regional de Educação (CRE), que após uma conversa sobre os movimentos de ocupação, teriam dito que estes não teriam “força”.

As reinvindicações são inúmeras: melhoras na estrutura, contra o parcelamento dos salários dos professores e o projeto de lei que tramita na Assembleia Legislativa procurando parcerias privadas para a gestão das escolas públicas. A estudante Fernanda Morais, do 7º ano do ensino fundamental, denuncia a existência de vidros quebrados no espaço escolar que colocam em risco a segurança dos colegas. A falta de estrutura do laboratório de informática e da abrangência da internet é citada por Gabriel, do 2º ano do ensino médio: “falta uma escola nova praticamente”.

Problemas na estrutura da escola são visíveis e motivo de reclamação dos alunos. Foto: Matheus Colombo

Problemas na estrutura da escola são visíveis e motivo de reclamação dos alunos. Foto: Matheus Colombo

Quanto ao apoio da comunidade, Leonardo Menezes relata contente: “a comunidade apoia muito. Têm pais que ajudam, por exemplo, trazendo comida”. Apesar disso, lembra o aluno, meios de comunicação da cidade têm questionado a organização do movimento após serem recebidos pelos estudantes que ocupam a escola.

Mantendo a ordem
Divisões de tarefas com equipes limpando os banheiros, cuidando da comida e do salão em que colchões e cobertores são postos ao chão durante a noite. Essa é a rotina presente no Eulina, de acordo com o vice-presidente do Grêmio Estudantil, Clairton de Araújo. “Nós restauramos a pintura do pátio e da quadra, nós não estamos destruindo o patrimônio, procuramos melhorar ele. Alguns falam que fazemos baderna aqui, mas isso não é verdade. Somos uma ocupação organizada, porque sem organização não existe ensino e respeito”, acrescenta ele.

Divididos em equipes, os alunos procuram manter a organização da escola durante a ocupação. Foto: Matheus Colombo

Divididos em equipes, os alunos procuram manter a organização da escola durante a ocupação.
Foto: Matheus Colombo

Apoio contagiante
E os estudantes não estão sozinhos. Na manhã em que visitamos o colégio Eulina Braga, os professores Nei Alberto Pies e Daniela Weber estavam ajudando os estudantes e conversando com apoiadores do projeto Observatório da Juventude da Universidade de Passo Fundo, que também estavam acompanhando o movimento durante nossa visita. Nei ensina matérias das áreas humanas e elogia a atitude dos alunos. “Penso que isso é bem importante. Claro que nem todos os professores e a sociedade concordam com esses movimentos, mas pessoalmente me sinto muito realizado quando vejo a juventude, que é protagonista das manifestações recentes no país, reagindo e querendo ser ouvida,  porque ele [o jovem] se cansou dos entulhos da política, ele gostaria de ser protagonista e estar também participando”, conta ele, que sempre se considerou um “professor grevista”.

Daniela se disse emocionada ao receber a notícia de que a escola estava ocupada na última segunda-feira. “Pensei: como eu, enquanto professora, vendo os meus alunos aqui da escola ocupando em defesa da educação, em nossa defesa, vou ficar de braços cruzados? E foi então que eu decidi aderir à greve”, justificou, aproveitando a oportunidade para relatar o bom diálogo existente com a direção e outros professores que preferiram não participar do movimento de ocupação.

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Os professores Nei Alberto Pies e Daniela Weber conversaram com a equipe do Nexjor na manhã de hoje (20/05). Foto: Marcell Marchioro

Reivindicações de ambos os lados
Os professores também denunciam o descaso com a categoria e a educação pública como um todo. “A nossa categoria nem exige aumento, estamos lutando pra receber nosso salário integral. Estamos à espera de um pronunciamento do estado, que ainda não aconteceu”, conta Daniela. “A gente corre risco hoje de nem ter piso salarial para professores. É uma questão que está preocupando muito os professores, porque o piso é uma referência de luta para que se resguardem as condições de salário”, completa Nei.

Confiança e determinação
A repressão da polícia, vista em outros estados com movimentos de ocupação de escolas, aqui parece não preocupar os alunos. “Me sinto seguro aqui dentro. O governador falou que não ia reprimir o movimento, então acho que tá tudo tranquilo por enquanto. Caso houver reintegração de posse não entraremos em confronto com a polícia, será uma saída pacífica”, afirma o presidente do Grêmio Estudantil, Leonardo Menezes. Apesar da confiança do estudante, alguns pais de alunos que agora ocupam o Eulina ficaram relutantes em deixar seus filhos dormindo na escola, porém os que permanecem lá insistem na luta, como conta Gean, estudante do 2º ano. “Eu não saí porque eu falei desde o início que não ia voltar, mesmo a mãe brigando um pouco”.

E os estudantes podem continuar tranquilos, pois a Secretaria Estadual de Educação (Secom) reiterou que não irá tratar as ocupações como caso de polícia, procurando o diálogo com os movimentos que, para a Secom, são decentralizados. Atualmente, 11 escolas estão ocupadas em Passo Fundo, e talvez com essa política de não repressão do Estado o número possa aumentar.