O leitor no comando

Para o jornalista Rodrigo Müzell do Zero Hora, entender quem consome a notícia é a saída para um jornalismo sustentável e de qualidade

Entender o leitor parece ser o segredo para o bom jornalismo nos dias atuais. Pelo menos é o que diz o editor digital de notícias de Zero Hora, Rodrigo Müzell. Para ele, estamos em um período de forte transformação no jornalismo, e parte dessa transformação requer compreender como as notícias chegam ao leitor e, principalmente, o que eles querem ler, para assim construir um produto que irá agradá-lo.

Onipresente
Produtos direcionados assim, aliás, Müzell explica que Zero Hora já pensou. Após uma reformulação em 2014, o principal impresso do sul do país se dividiu em três plataformas: impresso, site e produtos digitais. Algumas novidades foram integradas ao gigante do jornalismo gaúcho, como um aplicativo e uma edição em formato PDF, veiculada duas vezes por dia. Outras conhecidas plataformas de informação, que pareciam em desuso voltaram a ser exploradas por ZH, como o newsletter, que apesar de ser “mais velho que andar para trás”, como diz o próprio Müzell, mostra ter potencial.

 “Percebeu-se que o e-mail está vivo e sendo usado especialmente em ambientes mais ‘sérios’, como empresas, etc. Ele pode ser uma forma de entrar na vida do leitor, então os jornais em geral estão fazendo iniciativas nesse tipo de condensar noticias e mandar às pessoas todos os dias. Em ZH é o “Destaques da Manhã”, enviado também para não assinantes, como isca. Ele também traz leitores ao site, pois possui links.”

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Müzell se encontrou com estudantes de jornalismo da Universidade de Passo Fundo. Foto: Marcell Marchioro

Entre erros e acertos,  Zero Hora “está tentando se encontrar no digital”. Müzell ainda lembra que o jornal está realizando melhorias no site, no aplicativo e no newsletter, numa constante procura em ouvir o leitor. “A gente está fazendo uma transformação muito forte no jornalismo, acontece em veículos, agências de conteúdo, todo mundo está tendo que entender seu leitor. Se a gente não os entender, não vamos sobreviver.”

Entendendo o leitor
Iniciativas como essa surgiram a partir do momento em que o jornal começou a ouvir seus leitores. Durante todo o encontro que teve na manhã dessa quarta-feira (01/06) com estudantes de jornalismo da UPF, Rodrigo exaltou um gráfico utilizado no Zero Hora que ajuda a entender quem lê o jornal e o que esses leitores procuram, para assim adotar métodos de atender da melhor maneira esse público.

Com a internet surgiu uma maior quantidade de informações disponíveis para o público, porém isso não dispensou a necessidade de alguém que filtre essas informações, analise-as e identifique, em meio a tantos dados, o que é relevante ou não. “Com a internet e meios digitais, tu podes construir teu consumo de notícias, sem depender de ninguém, buscando apenas as fontes que tu queira. Porém, ainda existem aqueles que querem pegar na mão algo já filtrado pra ele”.

Gráfico que mostra o comportamento dos leitores e ajuda a equipe do ZH a entender melhor quem consome suas notícais. Foto: Reprodução

Gráfico que mostra o comportamento dos leitores e ajuda a equipe do ZH a entender melhor quem consome suas notícais. Foto: Reprodução

Os leitores possuem graus diferentes de necessidade de informação, e o meio de comunicação precisa estar atento para atender essas demandas de maneira específica. “Quando só havia o jornal, a gente vivia numa escuridão, não sabia como a matéria era lida, quem lia, e formamos uma geração de jornalistas com a ilusão que todo mundo lia sua matéria. Agora existem dados concretos, e percebemos que a atenção das pessoas é divida. Vamos procurar entregar o melhor para o publico que nos interessa. Não é só uma lógica comercial, tem a ver também com a realização profissional, porque ninguém faz reportagem pra não ser lido”.

E o jornalista?
Nesse cenário, o jornalista se insere como alguém que precisa dominar esse processo. Entender o leitor é apenas uma etapa do desafio, que é realizar jornalismo na atualidade.  O tamanho de um jornal, como o Zero Hora, exige equipes específicas cuidando das plataformas digitais e do impresso. Editores que estejam sempre atentos a novas formas de abordar suas notícias, explorando os espaços tecnológicos e procurando atender todo o tipo de leitor. “Cada vez mais os editores têm responsabilidades para empacotar o conteúdo. Antes ele só pensava pro papel, agora precisa pensar pra todas as mídias”.

Num mercado onde as vagas de emprego aparecem cada vez em menor número e os grandes meios procuram enxugar suas redações, o profissional do jornalismo sofre uma cobrança maior, não somente por resultados, mas também para o acúmulo de funções, o chamado “jornalista multimídia”. Porém isso nem sempre garante um produto melhor, como Müzell explica: “No inicio do multimídia criou-se a ideia de que todos [jornalistas] tinham que ser bons em tudo. Se viu que isso era impossível, não dá pra ser bom em tudo, mas é preciso saber fazer de tudo”.

“Nunca se leu tanta notícia, nunca se precisou tanto do jornalista e nunca se fez tanto jornalismo. Porém o jornalista nunca ganhou tão pouco.”

Audiência vs. Qualidade
Em meio a tantas novidades, o cuidado em não deixar que a preocupação com a audiência atinja a qualidade do jornalismo produzido continua presente. No meio digital, é preciso estar sempre de olho na opinião dos leitores, algo que prende a atenção de Rodrigo e se apresenta como um indicador para medir onde a equipe acertou ou errou. O problema, para ele, surge quando a preocupação com a audiência afeta as decisões do jornalista, então é preciso que na equipe alguém apresente o contraponto “É preciso ter sempre alguém “do contra”, que mostre que aquilo que queremos fazer talvez não dê certo”.

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O cuidado com a qualidade do que se é publicado permanece vinculada ao jornalismo ético. Foto: Marcell Marchioro

Esse cuidado não deve ser apenas com o produto apresentado pelo meio, mas também com a imagem do próprio jornalista. Müzell vê com preocupação a crescente divulgação das opiniões de jornalistas, profissionais que tradicionalmente gostam de compartilhar seus pontos de vista. “Estamos muito expostos, então temos que ficar mais calmos e buscar o equilíbrio”.

Dos indicadores para os aplicativos
Há 15 anos em Zero Hora, Rodrigo começou sua carreira no extinto Gazeta Mercantil. Após entrar para o time do jornal de maior circulação no estado, inicialmente na editoria de economia, logo migrou para o digital e atualmente cuida da principal editoria do ZH, a de notícias, no multimídia. Com uma experiência no exterior,  no Philadelphia Inquirer, Müzell deixa um recado para os futuros jornalistas: “Se interessem ao máximo pelo caminho da informação que vocês produzem até o leitor”.