Cultura de passagem

Foto: Divulgação

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O Festival Internacional de Folclore de Nova Prata, em doze edições, proporcionou
aos moradores da cidade uma experiência única e que deixou saudades

Os 25 mil habitantes de Nova Prata se orgulham de muitas coisas. A tranquilidade da pequena cidade do interior, o cuidado dos moradores em manter as ruas limpas sem a preocupação de trancar a porta da frente, a qualidade da educação pública. E especialmente, uma vez por ano, a população do município se orgulhava de abrigar um evento cultural de grande porte e mais de 200 pessoas do exterior.

O Festival Internacional de Folclore de Nova Prata realizou sua primeira edição em novembro de 1998. A escadaria em frente à Prefeitura Municipal abrigou o público que acompanhou a apresentação de cinco grupos gaúchos interpretando danças de cinco etnias presentes no estado. Era um teste para o que viria a ser o principal evento da cidade. Reagendado no ano seguinte para agosto, a data acabou fixa e os moradores da cidade se acostumaram com a ideia do evento anualmente. Outra mudança importante que surgiu a partir da segunda edição do evento, em 1999, foi  a definição do Ginásio de Esportes Santa Cruz como local fixo do evento.

Com o passar dos anos, a quantidade de grupos estrangeiros participantes do Festival foi aumentando. Porém a falta de financiamento acabou colocando hiatos no caminho do grande evento cultural da cidade. Primeiro em 2008, quando o Festival deixou de acontecer por três anos. De volta, em 2011, a alegria pelo retorno foi logo substituída pela angústia de mais uma espera, dessa vez de dois anos, voltando a acontecer em 2014 – sua edição mais recente.

Do começo ao fim
A professora de dança Karla Casanova conhece como ninguém a história por trás do Festival Internacional de Folclore de Nova Prata. Desde muito cedo ela esteve envolvida em grupos de dança da cidade, primeiro no Conjunto de Folclore Regional do CTG Querência do Prata, que em 1992 se tornou o Bailado Gaúcho, Folclore, Arte e Dança, entidade artística que ficou encarregada da realização do evento durante suas 12 edições. “No começo a gente vinha de ônibus até Nova Prata com os grupos estrangeiros de outros festivais que o Bailado se apresentava. Hoje a gente olha pra trás e pensa como era possível, por que hoje você precisa estar aqui pra poder organizar tudo”.

Karla Casanova atuou junto ao Bailado Gaúcho por mais de 20 anos. Foto: Marcell Marchioro

Karla Casanova atuou junto ao Bailado Gaúcho por mais de 20 anos. Foto: Marcell Marchioro

Visitando o VIII Festival Internacional de Folclore do Brasil, na cidade de Praia Grande, em São Paulo, o grupo teve contato com um evento cultural de grande porte, que indiretamente viria a moldar o Festival de Nova Prata. Como recorda Karla “estávamos sentados em um barzinho e o Marcelo [diretor artístico do grupo] disse ‘vamos fazer um festival em Nova Prata’. Eu olhei pra ele e disse que ele estava viajando, na época eu tinha 15 ou 16 anos e não acreditava que era possível.”

Foi em 1998 que a primeira edição do Festival Internacional de Folclore de Nova Prata aconteceu. Com o apoio da ABrasOFFA – Associação Brasileira dos Organizadores de Festivais de Folclore e Artes Populares – e outros tantos voluntários, meio que de improviso, um palco foi montado em frente à prefeitura, com dois caminhões de uma empresa de transportes local fazendo a barreira entre o espaço do evento e a rua. Os artistas convidados ficaram hospedados em um hotel e em dois dias trouxeram um pouco do folclore dos grupos étnicos que ajudaram a montar o mosaico que é a cultura brasileira.

O sucesso da primeira edição garantiu fôlego para o Festival. No ano seguinte, o Ginásio Municipal de Esportes Santa Cruz, local da cidade com a acústica mais próxima do ideal para abrigar um evento daquele porte, recebeu melhorias e sediou a segunda edição. Cinco grupos estrangeiros e outros locais completaram a programação daquele Festival.  Em 2001, uma grande verba recebida pela organização do evento garantiu uma grande edição, que exigiu medidas de logística para garantir a realização dele, agora em maior tamanho. E assim foram as demais edições do Festival durante os anos 2000, garantindo muita cultura e alegria para os moradores de Nova Prata no mês de agosto.

Karla participou do festival dançando com o Bailado Gaúcho, responsável pela apresentação da equipe juvenil do grupo, como guia e mais tarde como coordenadora dos guias. Várias funções para a professora que nem durante a faculdade deixou a paixão de lado “eu fazia faculdade em Porto Alegre e muitos do grupo moravam lá também, então alguns ensaios aconteciam lá mesmo nos finais de semana”. Daqueles que participaram dos eventos que antecederam o festival, ela é a única que continua envolvida com o Festival. Os outros viraram dentistas, agrônomos, funcionários de estatais e alguns até morando fora do país.

Ajuda necessária
Olhando para trás, Karla ressalta a importância da participação dos pais dos integrantes do Bailado Gaúcho na realização das edições do Festival: “Eles ajudavam em tudo. Enquanto a gente ensaiava, a mãe de alguém fazia o almoço. Minha mãe ajudava a costurar o figurino, era um grupo bastante unido”. Pais como Geraldo e Ana Roseli Agostini, casados há 35 anos. Durante cinco, eles participaram do grupo de voluntários do Festival Internacional. O trabalho começou por causa do filho deles, Cassiano, que fazia parte da banda de apoio do Bailado Gaúcho. “Quem tinha filhos no grupo era convidado a ser voluntário, mas outras pessoas também podiam participar” conta Ana.

A sede do Bailado Gaúcho guarda figurinos e adereços utilizados nas apresentações na cidade e em festivais pelo mundo. Foto: Marcell Marchioro

A sede do Bailado Gaúcho guarda figurinos e adereços utilizados nas apresentações na cidade e em festivais pelo mundo. Foto: Marcell Marchioro

Dentro do evento, cada um tinha uma função, de acordo com suas habilidades. Geraldo era pedreiro aposentado na época e ajudava em reparos na estrutura do Ginásio e na Casa Pastoral São José, conhecida em Nova Prata como “seminário”, que servia como hostel para os artistas internacionais que se apresentavam no evento. Ana Roseli trabalhava nas noites de apresentação no bar Ginásio da Santa Cruz, ela era responsável pelas pipocas que eram vendidas no local. Mesmo com todo o trabalho, ela afirma que era possível acompanhar as apresentações do filho. “Tinha uma televisão no bar que transmitia o festival. E também quando o filho de algum voluntário se apresentava a gente intercalava, um saia pra assistir à apresentação e os outros ficavam cuidando”.

A Casa Pastoral também era um símbolo da união da cidade em torno da confraternização. Para a edição de 2002, ano em que os grupos passaram a se hospedar no local, um mutirão foi realizado para adequar o espaço à necessidade de alojamento. Naquele ano um caminhão passou pela cidade coletando móveis e objetos da comunidade para equipar o local. Entre sofás, cadeiras e talheres a organização conseguiu adequar o seminário. Nos anos seguintes, algumas reformas também se fizeram necessárias para acolher melhor quem vinha de fora.

Unindo pessoas dentro e fora do país
As quase duas semanas que o Festival ocupava no calendário da cidade abriram espaço para diversos eventos que aconteciam paralelamente às apresentações dos grupos no Ginásio da Santa Cruz. Uma feira de artesanato era realizada no Salão Paroquial de Nova Prata, com quiosques vendendo produtos culturais dos países visitantes e também de grupos locais. Apresentações eram realizadas nas escolas do município, levando para perto de crianças e adolescentes a cultura dos quatro cantos do mundo. Uma missa realizada na Catedral da cidade também era tradição, unindo a comunidade católica do município com as mais diferentes religiões dos estrangeiros que visitavam o município.

No “seminário”, local que abrigava os artistas tanto de fora quanto do município, a integração era visível. Toda noite, após as apresentações no Ginásio, os componentes dos grupos guardavam energia para participar das festas temáticas que aconteciam no salão da Casa Pastoral. Como explica Karla, “a gente chamava de ‘intercâmbio cultural’. Cada dia um grupo tinha que organizar a festa pra mostrar um pouco da cultura do país deles e, ao mesmo tempo, também servia pra a gente se entrosar e se conhecer. A gente deixava claro que não precisava ter comida típica, mas todos faziam. Havia também uma troca de presentes entre os diretores dos grupos. As festas geralmente iam até duas da manhã, por que no outro dia tinha mais festival”.

Um dos eventos paralelos ao festival era uma missa realizada na Catedral de Nova Prata. Foto: divulgação

Um dos eventos paralelos ao festival era uma missa realizada na Catedral de Nova Prata. Foto: divulgação

Também participavam da confraternização os voluntários do Festival, como Ana e Geraldo, que guardam boas memórias daqueles momentos de integração. “Era divertido acompanhar os países, conhecer a cultura deles. Com os espanhóis era mais fácil se comunicar, mas a gente se entendia com todo mundo”.

Incêndios
Porém nem tudo são flores quando se trabalha com mais de 300 pessoas envolvidas na organização e realização de um evento. Karla e o casal Agostini recontam um episódio, envolvendo um grupo de danças da Turquia que veio à Nova Prata em 2004. Chegando na cidade, em pleno inverno, o grupo reclamou do frio e das condições do alojamento, que, apesar de humilde, encontrava-se em boas condições. Ameaçando boicotar as apresentações, o grupo conseguiu se realocar em um hotel e se apresentou normalmente. Segundo Karla, eram comuns imprevistos num evento de grande porte como era o Festival. “Ás vezes era preciso apagar alguns ‘incêndios’”.

Porém o grande problema do Festival surgiu quando os financiamentos públicos e privados que garantiam a realização do evento começaram a desaparecer. O montante de dinheiro que era angariado anualmente para a realização do Festival foi ficando cada vez mais longe do necessário, o que levou à não realização do evento nos anos de 2008, 2009, 2010, 2012, 2013, 2015 e 2016.

Apesar da dificuldade, Karla que agora não faz mais parte do Bailado Gaúcho porém continua a apoiar o evento, garante que o esforço para a realização da confraternização internacional em terras pratenses continua anualmente. “O festival tem um custo, se angariando fundos através de patrocínios, leis de incentivo, etc não foi possível alcançar o valor o Festival não sai. Porém a gente tenta todos os anos.

Saudade que permanece
Agora mãe, Karla, que antes se dividia entre dançar pelo Bailado durante as apresentações do Festival e coordenar os guias que acompanhavam os grupos estrangeiros pretende acompanhar o Festival da plateia. “Me dividindo entre me apresentar no palco e ajudar na organização como guia sobrava pouco tempo, então aquela experiência de assistir o Festival eu não tive. Na ultima edição eu consegui ficar um pouco do outro lado e viver um pouco mais do Festival. Minha ideia é voltar a dançar e a organizar”.

Mesmo sentimento do casal Agostini, que guarda na memória bons momentos vividos nos bastidores do evento, porém não se vê participando da organização das próximas edições. “Já fizemos nossa parte durante cinco anos. Vamos deixar espaço para os outros” conta Ana.

O sentimento é compartilhado por outros moradores da cidade, pois o Festival não era somente uma maneira de entrar em contato com culturas de longe, era também uma forma de conhecer mais a cultura da própria terra. Cada edição do evento carregava consigo um tema, geralmente relacionado à cidade. Como aconteceu em 2005, quando o tópico que o Festival abordou foi a influência dos mascates – vendedores ambulantes que trabalhavam em pequenas vilas do interior – na construção da cidade. Em outra edição, em 2003, o tema da revolução federalista foi abordado através da influência do acontecimento na cidade, que foi visitada por grupos de maragatos no final do século XIX.

Resta agora esperar pela realização da próxima edição, que é um objetivo do grupo responsável pela organização do evento. Quem sabe em 2017 não poderemos ver Nova Prata novamente no centro da cultura internacional, com gente dos mais variados cantos do planeta deixando a cidade serrana mais bonita com sua diversidade.

 

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