A história musical do país através da MPB

Tom Jobim, Elis Regina, Gilberto Gil. Parte da memória musical dos brasileiros, esses artistas são conhecidos por terem se tornado grandes nomes de um dos gêneros que exala a essência do Brasil, a MPB.

A década de 1960 foi um período que apresentou diversos marcos, acontecimento que fizeram história e transformaram o Brasil e o mundo. Estamos falando da chegada do primeiro homem à Lua, da construção do Muro de Berlim, do bicampeonato mundial do Brasil, e também, de estabelecimento da ditadura como regime do governo no país. Também foi durante esse período que presenciamos uma grande mudança em seu cenário musical. A televisão começou a se popularizar, e antes da “era das novelas”, o  destaque das programações eram os festivais de música brasileira, o primeiro sendo transmitido pela TV Excelsior em 1965.

Com o sucesso do festival, logo surgiram novas edições. Em 1966, temos o segundo deles que lançou artistas como Elis Regina, Chico Buarque, Jair Rodrigues e Milton Nascimento e consolidou seus nomes na história da música nacional. A partir da expansão desses eventos, a música popular brasileira passou a ser conhecida pela abreviação MPB, que surgiu a partir da utilização das técnicas da bossa nova, atendendo uma demanda  dos jovens do centro de cultura da União Nacional dos Estudantes (UNE) por músicas mais brasileiras. As músicas Disparada, interpretada por Jair Rodrigues e A Banda de Chico Buarque, vencedoras do II Festival de Música Brasileira, são consideradas marcos da ruptura da bossa nova para a música popular brasileira.

Mas, apesar da expressão MPB ter nascido apenas a cerca de 50 anos atrás, o estilo musical já é bem mais antigo. Uma das marcas do nosso país é a miscigenação, e na música isso não seria diferente, um dos primeiros ritmos surge quando a produção musical  deixa o campo religioso, nasce então o lundu, de origem africana. Para o professor Alexandre Saggiorato, do curso de Música da Universidade de Passo Fundo, o termo MPB pode ser considerado um rótulo que foi criado para “encaixar” alguns estilos musicais. “Esse é um rótulo comercial, porque música popular brasileira sempre existiu. Se a gente for pensar o que é, ela não é só da bossa nova à Tropicália, ela é realmente um movimento que se desenvolveu no Brasil durante muitos anos, desde a produção de sambas, de modinha, de lundu, de choro, tudo acaba sendo música popular brasileira”, explica o professor.

gabi-nexjor_2

Professor Alexandre é coordenador do curso de Música da UPF

Se há controvérsias quanto a data do surgimento da MPB, não se pode negar que durante os anos 60 é aonde o cenário musical brasileiro despertou de forma mais impactante para o estilo. Isso porque com a promulgação do AI-5, em 1968, as letras de músicas deviam ser analisadas pela Divisão de Censura de Diversões Públicas (DCDP), que avaliam quais podiam ou não serem veiculadas em meios públicos. Nesta época, a censura se tornou algo comum e os artistas tinham que encontrar maneiras para preservar sua opinião em suas próprias obras. Muitos encontraram nas metáforas a forma de transmitir suas mensagens sem serem censuradas, neste ponto as músicas deste período adotaram uma forte conotação nacionalista, quase como uma identidade brasileira contra à ditadura. Uma das vertentes da MPB que mais reflete essa fase é a Tropicália, ritmo conhecido pelo excesso e suas mensagens em forma de poesia, seus principais  representantes foram Caetano Veloso e Gilberto Gil, que chegaram a serem exilados pelo “incidente da bandeira”. Para o professor Alexandre “foi uma forma de renovar a maneira de se escrever canções, de traduzir os anseios da população em forma de música, de poesia, de duplo sentido, usando metáforas”.

Após o regime militar, a MPB passa por uma nova fase incorporando outros estilos ao seu já conhecido repertório musical. O rock nacional passa a ganhar popularidade durante os anos 80, refletindo a própria hibridez da música popular brasileira. Um dos impulsionadores para músicas do gênero, foi o Rock In Rio de 1985. Nesse período surgem grupos famosos como Paralamas do Sucesso, Legião Urbana, Titãs, RPM, Ultraje a Rigor. Outro estilo que efervescia na época era o sertanejo trazendo nomes como Chitãozinho e Xororó e Zezé di Camargo e Luciano.

A MPB em Passo Fundo

Uma iniciativa que surgiu em 2013, o duo instrumental Cordas que Choram faz parte da música popular da cidade. Formado por Rafael Terres e Edinelson Rocha, conhecido como Guedi do Bandolim, o projeto trabalha apenas com a musica brasileira, com a intenção de difundir mais esse gênero e valorizar as produções do país. Apesar do nome estar ligado ao choro, um dos primeiros ritmos musicais brasileiros, as suas apresentações integram diversos estilos de música, o que segundo Rafael representa o que é a MPB, com suas diferentes caras. “Nosso país  é um país diferente, é um país muito rico, e pelo fato da miscigenação a gente tem muitos privilégios culturais, de você poder tocar de tudo, porque o Brasil é uma mistura”, comenta Rafael.

gabi-nexjor_4

Entre as influências de Rafael na MPB estão Jacob do Bandolim e Pixinguinha

Além do duo, eles também mantém um projeto junto as escolas municipais o “Música Brasileira nas Escolas”, com a intenção de realizar apresentações nas instituições em forma de show didático, aonde a música possa ser usada para entender o contexto histórico musical brasileiro. Para Rafael, é preciso abrir mais espaços na mídia para MPB possa alcançar novos públicos, e iniciativas como o seu projeto são uma forma de evidenciar a presença do gênero para quem não teve a oportunidade de conhece-lo. “A ideia do projeto é isso ai, a gente levar o que nós tocamos de música brasileira não sendo apenas como uma apresentação, mas sim uma forma deles conhecerem e deixar essa mensagem”, explica Rafael.

Dia Nacional da MPB

chiquinhaDesde de 2013, a data de 17 de outubro passou a ser conhecida como o Dia Nacional da Música Popular Brasileira, em homenagem à Chiquinha Gonzaga, conhecida por ser um dos principais nomes da música do país. Durante o século XIX, Chiquinha chamou atenção pela sua ousadia, ao largar a vida planejada à ela em meio a elite do Rio de Janeiro, e dedicar-se a sua música. Na época não havia a profissionalização de mulheres como músicos, então sua postura foi vista de forma radical na sociedade. Iniciou sua carreira com a polca “Atraente”, mas o grande sucesso venho com marchinha carnavalesca “Ô abre alas”, que a eternizou na história musical do país e tornou-a símbolo de inspiração para outros músicos.

“Eu admiro muito o que ela fez, não apenas musicalmente, mas a força daquela mulher de sair da elite para tocar o piano dela do jeito que ela queria, para tocar maxixe, fazer as marchinhas, foi ela que iniciou e deu o pontá pé nas marchinhas de carnaval.” – Rafael Terres

Cenário Atual

Uma pesquisa divulgada pela Kantar Ibope Media no ano de 2014, apontou que 90% da população brasileira consomem rádio, sendo a MPB o segundo gênero mais ouvido. O rádio foi e continua sendo um dos principais difusores deste tipo de música, mas foi com a internet que  diversos artistas pouco conhecidos no meio puderam expôr seu trabalho. Para o professor Alexandre, apesar da internet e das mídias sociais ainda falta um maior reconhecimento dos novos artistas em outros meios. “Tem artistas novos, o problema é que eles não tem acesso a grande mídia, eles vão sempre ficar com um público um pouco mais restrito comparado à essa música de massa, diferente daquela dos anos 60 onde quem era a estrela da época era o próprio Chico Buarque, Gilberto Gil e Caetano”, explica Alexandre. Em sua visão, a MPB tem muito o que mostrar para o público de hoje, mas falta um incentivo maior para esse gênero que deve ser trabalhado na cultura e nas escolas da sociedade brasileira.

Confira a nossa playlist com alguns dos principais artistas da MPB: