Danças Tradicionais Gaúchas: a arte que encanta gerações

Uma paixão que une a família Rigo e mantém viva a chama do tradicionalismo

Por Francieli de Assis e Maiara Bresolin*

É terça-feira e a prendinha Isadora Falabrette Rigo de 06 anos, chega para mais um ensaio no CTG Felipe Portinho, de Marau. Com sua saia rosa na mão e acompanhada do irmão João Vitor Falabrette Rigo, de 10 anos, da mãe Ana Amélia Falabrette Rigo, de 35 anos, e do pai Eder André Ballardin Rigo, 37 anos, a menina, que adora dançar, se dirige para o salão de ensaio, onde os colegas e o professor da invernada pré-mirim a aguardam sorridentes.

“Eu gosto muito de dançar porque é divertido, gosto de vim pro CTG. Eu comecei a dançar no CTG porque eu queria, fala com muito orgulho a prendinha.

Enquanto Isadora ensaia as danças tradicionais gaúchas, seu irmão João, que já participa há seis anos do CTG, sobe para o andar superior, onde acontece o ensaio de chula. Seus pais o acompanham e depois seguem para o outro lado da entidade, onde acontece mais uma reunião da patronagem, da qual participam atualmente, sendo que Eder é 3º Capataz e Ana 3ª Sotacapataz, ou seja, são os terceiros patrões da entidade.

Assim é a rotina da família pelo menos três vezes por semana. Tudo começou quando João tinha 04 anos de idade. Uma amiga do casal convidou a família para assistir a um ensaio da escolinha do CTG Felipe Portinho, onde uma amiguinha de João já dançava. O menino gostou tanto que desde então participa efetivamente do mundo tradicionalista, não só como dançarino, mas também em concursos culturais. Atualmente, João é o 1º Piá Farroupilha da 7ª Região Tradicionalista.

“Eu gosto bastante de dançar. Eu acho importante porque a invernada, educa, faz a gente conviver com outras pessoas, conhecer e aprender a trabalhar em grupo. Quando a gente vai pra outras regiões do estado é muito bom para conhecer novas pessoas e pra aprender mais sobre o tradicionalismo.” Destaca João.

O tradicionalismo e a paixão pela dança é o que une a família RigoApós alguns anos acompanhando o menino nos ensaios, Ana e Eder foram convidados a participar, no ano de 2013, da Ronda Fandangueira do CTG Felipe Portinho, um dos eventos mais tradicionais do município de Marau, onde casais trabalham durante um ano para se apresentar na grande noite da Ronda. O casal gostou tanto da experiência que resolveu ingressar na invernada Xiru da entidade, também conhecida como invernada veterana.

“Eu vejo no tradicionalismo uma preservação de valores que é muito importante, não só de valores tradicionais, mas também a questão de valores comportamentais e sociais, além da questão de disciplina, de compromisso, de comprometimento. Além disso, dançar não deixa de ser um hobby, uma diversão, uma distração, uma atividade física que faz bem tanto para o corpo quanto para a cabeça. Vejo também a questão da importância cultural de poder trabalhar, se dedicar, e poder manter viva essa tradição que a gente tem no nosso estado, que a gente percebe que em outros locais não se tem tão forte esse cultuar a tradição.” Comenta Ana.

No ano passado, quando a prendinha Isadora completou seus 05 anos, resolveu começar a dançar na invernada pré-mirim. A influência veio da família, que estava sempre envolvida com as atividades do CTG. Hoje, além de dançar na invernada, Isadora também é Prenda Dente de Leite do CTG Felipe Portinho, e exibe com muito orgulho a sua faixa.

“Ser prenda e faixa é legal. Quando eu crescer eu quero continuar sendo prenda de faixa.” Declara Isadora.

O casal se envolveu tão intensamente com o CTG e com o mundo tradicionalista, que se tornaram referência no município de Marau quando se trata do assunto. O casal é responsável pela organização dos maiores próximos eventos tradicionalistas que acontecerão na cidade. Ana é a coordenadora e Eder o secretário da Comissão de Organização da Inter Regional do Enart, que acontece 22 e 23 de outubro. Além disso, Eder é o presidente e Ana a coordenadora do 4º Rodeio Internacional de Marau, que acontece em fevereiro de 2017.

“O tradicionalismo é importante primeiro pela questão das crianças, questão de disciplina, de estarem indo em um caminho diferenciado, de mais responsabilidade. Isso não quer dizer que não possam sair fora dos trilhos um dia, mas acho que a chance é bem menor. O CTG traz uma diretriz na vida deles. Estar envolvido com isso faz a gente se sentir útil, poder fazer alguma coisa pra alguém sem ser por dinheiro, mas por satisfação. Além disso, é um questão de paixão pelo tradicionalismo, o bairrismo. Eu especialmente sou muito bairrista, afirma Eder.

O tradicionalismo e a paixão pela dança é o que une a família Rigo.

Há dezoito anos, Luiz Carlos Vasconcelos, que é instrutor de danças, começou sua trajetória tradicionalista no CTG Sinuelo do Pago em Uruguaiana. “Ensinar é uma atividade prazerosa já que faço porque me identifico e tenho amor pelo trabalho e pela tradição, e com isso, busco transmitir aos alunos que o primeiro momento é o querer se entregar com alma, coração e é claro, aliando estes fatores à responsabilidade, afirma o professor. Escolher um tema e definir as coreografias são um desafio para Luiz, mas considera a melhor parte, pelo envolvimento com a história da tradição gaúcha e a troca que tem com os alunos. Hoje ele é professor de dança tradicional  e viver disso é uma entrega total. “A vida de um instrutor de danças é estar sempre na estrada arriscando a vida, deixando de lado a família, não tendo vida social, porém a dedicação constante resulta em objetivos alcançados e supre todo o esforço e faz valer a pena, afirma Luiz.

O movimento tradicionalista no Rio Grande do Sul é dividido em 30 regiões e aproximadamente 400 mil jovens participam das entidades tradicionalistas.  Segundo a coordenadora da 7ª Região Tradicionalista Gaúcha, Gilda Galeazzi, o Movimento Tradicionalista do estado é uma das poucas culturas mais disseminadas nos estados brasileiros e em outros países. “Isso é pela cultura ter uma identidade própria, através da indumentária, usos e costumes e até mesmo pelo linguajar e a preservação dos nossos valores morais e éticos, comenta ela. Gilda que é uma das 4 coordenadoras de região do Rio Grande do Sul, está exercendo seu 15º mandato em duas etapas. Para ela, a dança é a forma como compõe a cultura de um povo, já que quando se adquire uma função de preservação folclórica e tradicional, ganham-se características que transcendem ela própria. O CTGS são uma forma de inclusão social, atraindo os jovens a permanecerem nas entidades e atraindo com eles, seus familiares.

A 7ª Região Tradicionalista coordenada por Gilda, possui 102 entidades filiadas da região, que concentram-se na região norte do RS. A região tornou-se a mais organizada do estado e referência em todo o Brasil, pela cobrança e atuação das entidades e patronagens. “Tenho o tradicionalismo como filosofia de vida, vivo intensamente às 24 horas do dia, conquistei respeito e influência através do trabalho de organização da 7ª Região, dedicando todo o tempo disponível nas diversas áreas, administrativa, cultural, campeira, artística e esportiva, liderando crianças, jovens, adultos e pessoas mais experientes, afirma a coordenadora.

*Alunas do Curso de Jornalismo UPF