H. P. Lovecraft, o autor do inominável

“A emoção mais forte e mais antiga do homem é o medo, e a espécie mais forte e mais antiga de medo é o medo do desconhecido”

Essa é uma das frases mais famosas do americano Howard Phillips Lovecraft e que pode sintetizar todo seu trabalho. Em 2017, completam-se 80 anos de sua morte, e mesmo sendo considerado um dos fundadores da literatura de horror moderno, seu nome não é conhecido por um vasto público. Apesar disto, é bem provável que você já tenha cruzado com alguma referência ao mundo lovecraftiano, mesmo sem saber. Já que não é incomum que artistas busquem inspiração em seus contos para criarem músicas, narrativas e, principalmente, monstros usando o chamado horror cósmico de Lovecraft.

Segundo o escritor gaúcho de ficção, Duda Falcão, conhecido por suas obras “Treze” e “Mausoléu”, que trazem temas do sobrenatural e criaturas bizarras, foi esse horror cósmico o maior legado deixado por Lovecraft. “O horror cósmico coloca o ser humano como um ser insignificante diante da imensidão do cosmos. As estranhezas, o inexplicável, os mistérios insondáveis e o encontro esporádico com criaturas alienígenas geram o esfacelamento da razão, um medo capaz de enlouquecer até mesmo os mais fortes”, explica Falcão.

Mas quem foi H. P. Lovecraft?

H. P Lovecraft em 1934.

Nascido no dia 20 de agosto de 1890, em Providence, cidade no estado de Rhode Island (EUA), Lovecraft era filho único de um vendedor de joias e metais, Winfield Scott Lovecraft e de Sarah Susan Phillips Lovecraft.  A sua trajetória familiar um tanto quanto trágica teve grande peso em suas histórias, e desde pequeno Lovecraft via na escrita uma forma de fugir da realidade. Logo nos primeiros anos de sua vida, o autor sofreria sua primeira perda, já que aos três anos de idade seu pai sofreu um colapso nervoso, sendo internado no Butler Hospital, onde ficou por cinco anos até falecer em 1898.

Após a morte de seu pai, Lovecraft e sua mãe acabaram indo morar junto com seu avô, o empresário industrial Whipple Van Buren Phillips. Nesse período, o menino começa as descobrir sua paixão por literatura graças à biblioteca na casa do avô.

Casa do avô de Lovecraft na Angell Street, 454, em Providence.

Lovecraft que já lia desde os três anos e aos sete começou a escrever, teve grande impacto pelos contos de “As Mil e Uma Noites” e a “Odisséia”, de Homero. Além disso, o próprio avô introduz Lovecraft aos clássicos da literatura de horror, tais como Edgar Allan Poe, que viriam a se tornar inspiração para a construção de seu próprio universo literário.

Diferentemente do caminho tomado pelo intelecto do garoto, sua saúde se mostrava cada vez mais frágil. Desde pequeno, Lovecraft foi diagnosticado com Poiquilotermia, uma rara complicação que não permite uma regulagem de temperatura corporal normal, nela seu corpo sempre era frio ao toque. Devido a essa condição, dificilmente ia à escola, preferindo aprender de forma autodidata.

Mais tarde, em 1904 Howard perde seu avô, que mantinha o sustento da casa e por isso ele e sua mãe se mudaram e deixaram para trás a grande biblioteca. Esse não seria o único ponto baixo em sua vida, já que mais à frente o próprio Lovecraft sofre um colapso nervoso que o impede de cursar a Brown University, e o deixa em uma profunda depressão que tira seu convívio social durantes cinco anos.

As Revistas Pulps e o Retorno de Lovecraft

O curioso fato que o levou a sair dos seus anos de reclusão foi uma história de romance publicada em uma pulp magazine, revistas de ficção da época feitas em papel de baixa qualidade. Nessa época, Lovecraft tinha o hábito de ler essas revistas em busca de contos de horror, fantasia, mistério e ficção científica, e após ler na pulp magazine, “Argosy”, uma história com enredo de romance baseado no estilo boy-meets-girl do autor Fred Jackson, decidiu mandar uma carta à publicação atacando Jackson e apontando seu descontentamento pela narrativa.

Na carta publicada em 1913, Lovecraft descreve que:

“Embora não deseje indevidamente censurar qualquer autor, devo admitir que o estilo Jacksonesco de narrativa inspira-me muito menos interesse do que de desgosto, e devo expressar minha admiração pelo favor extraordinário concedido ao autor pelas editoras”

A palavras de Lovecraft geraram uma discussão em torno de quem apreciava os contos e estilo literário de Jackson. Muitos usaram a complexa narrativa cheia de adjetivos de Lovecraft para o criticar, como descreve uma das publicações em resposta ao autor:

“Se ele (Lovecraft) usasse alguns menos adjetivos e mais palavras que o público em geral estão mais familiarizados do que “labiríntico”, “laureado”, “luminar”, “elucubração” e muitos outros… Sou um admirador das histórias de Jackson, mas esta carta do senhor Lovecraft me encheu de desgosto por nosso amigo da Providence.”

O conflito chegou aos ouvidos de Edward F. Dass, então presidente da United Amateur Press Association (Associação Unida de Imprensa Amadora, UAPA), um grupo de escritores amadores que produziam seus próprios magazines, e este convidou Lovecraft para se juntar à associação.

A revista “Weird Tales” que publicou os contos de Lovecraft. Na imagem está a edição de maio de 1942, com o conto “A Sombra Sobre Innsmouth”.

Foram nessas publicações amadoras que Lovecraft voltou a escrever sua ficção, mais tarde se tornando um contista profissional na famosa revista Weird Tales, fundada em 1923 pelo ex-jornalista J.C. Henneberger, uma publicação especializada em contos “incomuns”, de fantasia e terror. Nessa época, após perder sua mãe, o autor acabou conhecendo sua esposa, a designer de chapéus Sonia Green, e foi morar com ela em Nova York. Durante esse período de transição é que começam a surgir os contos que o levariam a ser conhecido pelo Cthulhu Mythos. Como explica o escritor Duda Falcão, a presença de um panteão de divindades cósmicas foi o que deu origem ao termo Mitos de Cthulhu, mas esta denominação não foi dada pelo próprio Lovecraft, e sim, por seu amigo August Derleth, que posteriormente organizou e publicou as obras do autor pela editora Arkham House.

 

O Panteão de Lovecraft

Baseado muitas vezes em seus terríveis pesadelos, Lovecraft ficou conhecido por criar seres tão grotescos e perturbadores que a apenas a sua visão poderia levar alguém à loucura. Por esse fato, Lovecraft é constantemente identificado como o autor do inominável. A primeira dessas criaturas a serem apresentadas foi o deus-peixe Dagon, pertencente à raça dos Great Old Ones, ou dos Grandes Antigos, que apareceu pela primeira vez na publicação de mesmo nome, em 1919.

Na literatura de Lovecraft, suas principais divindades são divididas em três categorias. Os Grandes Antigos são seres de tamanhos colossais, que dominam as tecnologias, conhecimentos esotéricos, magias ou mesmo a combinação de todos esses elementos. Embora, tenham esses poderes à sua disposição eles são limitados, pois ao contrário dos Deuses Exteriores, essas criaturas não conseguem alterar os preceitos cósmicos da realidade, apenas se adequar aos conceitos já existentes. De longe, o mais conhecido dos Grandes Antigos é o poderoso Cthulhu que foi apresentado em 1926 no conto “O Chamado de Cthulhu”, sendo descrito como um monstro com traços antropoides, com cabeça de polvo em um amontado de tentáculos e com longas asas nas costas. Uma de suas criações mais famosas, o Cthulhu foi a divindade de Lovecraft com mais referências na cultura pop.

Nas histórias de Cthulhu existe uma seita tenta despertá-lo de seu estado adormecido com o cântico “Ph’nglui mglw’nafh Cthulhu R’lyeh wgah’nagl fhtagn” que significa “Em sua casa em R’lyeh, Cthulhu morto espera sonhando”.

O Deus Exterior Azathoth representado pelo artista americano Richard Luong.

Um degrau acima dos Grandes Antigos, se encontram os Outer Gods, também conhecidos como Deuses Exteriores. Estes, são forças sobrenaturais com imensuráveis poderes que controlam os cosmos e tudo que nele existe. Foram eles que criam o próprio Cosmo, e sem eles nosso universo entraria em colapso. O mais importante e poderoso deles é Azathoth, referenciado como “Sultão Demoníaco” ou “Caos Primordial”, pois no universo mítico de Lovecraft acredita-se que seja esta divindade a criadora do início de tudo. Descrito como uma “massa gigantesca e amorfa de caos nuclear em plena existência consumindo a si mesmo em poder”, Azathoth é tanto poderoso como louco, já que é representado como sendo desprovido qualquer forma de lógica ou coerência mesmo para os Grandes Antigos. Essa deidade tomou forma pela primeira vez no conto “A Busca Onírica Por Kadath” publicado em 1926. Nessa mesma história outros Deuses Exterior, talvez o mais conhecido do universo lovecraftiano, Nyarlathotep, volta a aparecer. O Caos Rastejante”, como também é chamado, é o único dos Outer Gods que está ativo na Terra, e não isolado no Cosmo. Ele é tido como a alma e a consciência desses deuses e trabalha como mensageiro deles para regular seus desejos e caprichos. Diferentemente dos outros, Nyarlathotep é uma das entidades mais temidas pelos humanos justamente pelo prazer que sente em provocar o caos e a loucura na humanidade.

Nodens, o único Deus Ancião criado por Lovecraft. A imagem faz parte do “Bestiaire Call of Cthulhu” publicado em 2014 pela editora Chaosium Inc.

 

Ainda acima dos Deuses Exteriores, existem os Elders Gods, ou Deuses Anciões, que são tidos como contrários aos Grandes Antigos, visto que entraram em guerra com o Cthulhu quando este decidiu fazer da Terra seu lar. Mas, essa briga com os Antigos não significa que sejam bondosos ou a favor da humanidade, mas sim que eles adotam uma postura de neutralidade sobre os humanos, ou seja não dão importância alguma para eles já que no mundo de Lovecraft os deuses não são salvadores, mas em sua maioria aqueles que podem nos destruir. O mais conhecido e único Ancião criado por Lovecraft é a entidade Nodens, tendo sido citado pela primeira vez no conto “The Strange High House in the Mist”, de 1931. Em sua lenda essa divindade está na Terra dos Sonhos de onde é seu guardião, zelando para que os demais deuses retornem quando os Grandes Antigos despertarem.

A Herança Lovecraftiana

Essas divindades e suas histórias são apenas uma ponta do que é o mundo criado por H. P. Lovecraft. É tido que entre poesias, novelas e contos o autor tenha escrito quase duzentas obras. Sem contar suas diversas cartas, já que estima-se que ele tenha redigido ao longo de sua vida cerca de 100 mil cartas, sendo preservadas atualmente em torno de 20% delas.  É possível ver seus originais e as cartas na Biblioteca John Hay da Universidade Brown na cidade de nascimento de Lovecraft, Providence.

Escritor gaúcho Duda Falcão

Suas obras inspiram diversos autores que, inclusive depois de sua morte, em 1937, continuaram ampliando o Cthulhu Mhytos. Para o escritor de ficção Duda Falcão, Lovecraft foi a sua principal inspiração.

“Eu comecei a ler a obra do H. P. Lovecraft no início da década de 90. O primeiro livro que comprei foi A tumba e outras histórias publicado pela Francisco Alves Editora, pertencente a coleção Mestres do Horror e da Fantasia. Na época eu não sabia quem era Lovecraft. Adquiri o livro, pois já tinha gostado de outros livros da coleção – como O País de Outubro de Ray Bradbury e Sombras da Noite de Stephen King”, comenta o escritor.

Para ele, o interesse no mundo fictício de Lovecraft foi imediato, se tornando fã logo nos primeiros contos lidos, o que o levaria a trazer elementos do autor americano para suas próprias obras. “Acho genial a discursividade presente no horror cósmico. A finitude do ser humano, suas limitações e o medo que pode sentir ao se deparar com algo inexplicável ou horrível é algo que gosto de explorar em meus textos”, explica Duda. Em seu próximo livro, “Comboio de Espectros”, previsto para o segundo semestre de 2017, a influência de Lovecraft vai estar ainda mais forte. A história narra “a pesquisa de um estudante da Universidade de Miskatonic – cenário criado por Lovecraft – que visita o Brasil em busca de uma prova consistente da presença dos Grandes Antigos na Terra”.

Autores como o próprio Stephen King já utilizaram os mitos criados por Lovecraft em suas próprias obras, inclusive o abordando em uma de suas últimas publicações, “Revival”. Neil Gaiman, conhecido pela obra “Deuses Americanos”, dedica algumas curtas histórias para homenagear as criaturas de Lovecraft. E os elementos lovecraftianos não estão presentes apenas na literatura, diretores como Guilhermo Del Toro e John Carpenter são grandes fãs de H. P. e tem histórias baseadas na narrativa e mitologia criada pelo autor. Bandas como Metallica e Black Sabbath dedicaram músicas para Lovecraft e seus monstros.

Conheça mais sobra o universo criado por H. P. Lovecraft e por onde seu legado se espalhou em nosso infográfico.

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