O ensino de hoje requer inovação e renovação

Segundo o professor Dr. Miguel Zabalza Beraza é preciso adotar métodos mais inovadores nas salas de aulas

“Não adianta de nada ter professores muito bem formados, que dão classes maravilhosas, se seus estudantes não entendem o que é explicado e no final não aprendem”

Ao falarmos em educação, estamos falando de um assunto de alta complexidade.  Em cada país, cada estado, cada cidade, a demanda é diferente – justificando a ampla discussão do assunto mundialmente.

O professor Miguel Zabalza Beraza, da Faculdade de Ciências da Educação na Universidade de Santiago de Compostela, é reconhecido por suas pesquisas na área da educação. Em sua visão, uma melhora na educação se dá através da inovação na sala de aula. Mas, para isso, é preciso haver uma reorientação na profissão da docência, além de outros fatores que podem causar um baixo rendimento com relação ao nível de qualidade no ensino. Nós conversamos com o professor sobre educação e sua carreira, durante sua participação na Aula Magna de formação docente da Universidade de Passo Fundo, no dia 08/03. Confira a entrevista:

Nexjor: Quando olhamos há cerca de dez anos atrás, podemos perceber que muita coisa mudou na sociedade. Principalmente falando em tecnologia e na forma que de nos comunicarmos. Consequentemente essas mudanças vão impactar na educação, então, atualmente quais seriam as principais competências que um professor deve adotar na forma de ensino?

“No ensino superior o que aconteceu foi que mudou um pouco o enfoque. Antes a informação estava disponível em locais onde só os intelectuais e professores dominavam, e sabiam onde procurá-la. Agora a informação está por toda parte, o que significa que o professor no mundo universitário, a gente pode dizer que não é a fonte de informação para os estudantes e ele tem que mudar a sua perspectiva, o seu enfoque do ensino. Portanto, o que temos que fazer é encontrar ferramentas e organizar ambientes para que os estudantes estejam num contexto onde eles mesmos possam aprender, e também, recuperar essa informação e reinterpretá-la em sua mente para que isso signifique a formação dos seus próprios estudantes. Do ponto das competências isso significa que se antes um bom professor(a) é aquela pessoa que conhecia muito bem um campo científico e sabia explicar bem aos seus alunos, hoje isso não bastaria. Porque não é que o professor tenha que explicar bem, agora o que se pede é que seus estudantes aprendam e para conseguir isso, eu diria, que o problema principal é saber como seus alunos aprendem. Portanto, não adianta de nada ter professores muito bem formados, que dão classes maravilhosas, se seus estudantes não entendem o que é explicado e no final não aprendem. Esse é um pouco do dilema que no mundo das competências interessa aos professores, eles têm que conhecer melhor seus estudantes e saber como eles aprendem.”

Nexjor: Em questão de qualidade de educação, ela não depende apenas do professor, certo?

“Isso é um pouco da minha mensagem. Os professores podem fazer apenas aquilo que fazem, não podem ir mais além do que está dentro do seu campo de ação, que é muito limitado e de algum jeito está muito vinculado à sua turma. Então se as novidades que queira incorporar, as inovações que deseje fazer saírem muito desse espaço limitado do professor, ai já não está em suas mãos para fazê-lo. Portando, uma coisa muito importante para o conhecimento seria a internacionalização, se os estudantes vão fazer intercâmbios em outros países, conhecer outras mentalidades e culturas, isso não depende do professor individualmente. Se o enfoque das matérias será mais multidisciplinar, se elas irão ser vinculadas umas com as outras para criar projetos mais práticos, isso não depende apenas do professor, mas sim, também da visão própria instituição em como pode haver isso. Então, são muitas coisas que não estão nas mãos do professor, é por isso que a inovação é importante e tem que vir da própria instituição.”

“O mundo é muito complexo, e às vezes o querer fechar demais não é tão positivo”

Nexjor: No Brasil, é muito comum que cursos de ensino superior sejam muitos fechados em sua própria área. Você acredita que a interdisciplinaridade é uma das alternativas para um superar esse modelo pedagógico?

“O mundo é muito complexo, e às vezes o querer fechar demais não é tão positivo. Mas, sim muitas universidades estão buscando não só sistemas mais interdisciplinares dentro de uma própria área, e também pensando, por exemplo, que as humanidades são importantes para todos, para aqueles que vão ser engenheiros, aqueles que vão ser médicos, manter certo nível de cultura será positivo para todos. Na Inglaterra, as Engenharias tem sempre um departamento para as humanidades para que todo engenheiro tenha uma mentalidade também mais humanística não apenas técnica. Do mesmo jeito das pessoas que estudam Letras, para que tenham também alguma parte de ciências, já que o mundo tem muitas tecnologias no âmbito das ciências hoje em dia, por isso é preciso que os professores de humanidades também tenham uma base científica. Vivemos nessa perspectiva mais global, mais holística de tudo que pode ser o mundo moderno.”

Nexjor: Além da interdisciplinaridade, quais os novos modelos pedagógicos que estão surgindo e que você acredita que terão bons resultados no futuro?

“Há muitas estruturas curriculares em que neste momento se estão trabalhando. O trabalho por módulos, por competências, podemos dizer vários trabalhos com modalidades muito práticas. Por exemplo, na Enfermagem existem universidades onde parte do tempo os estudantes passam no hospital, e a parte universitária é muito mais leve. Também, há algumas outras profissões que tem uma formação mais prática, com um conteúdo teórico menor. Portanto, a universidade entende que a profissão necessita de muita experiência, assim vão aparecendo novas tecnologias e novos modelos de formação como a mista e a distância, onde se está explorando várias modalidades de conhecimento.”

Nexjor: Você já recebeu o título de doctor honoris causa pelo Instituto Multidisciplinar de Oaxaca, no México. Ano que vem, irá ser o homenageado com o mesmo título pela PUCRS. O que isso representa para você?

“Isso representa muitas experiências e muitos anos caminhando por essas universidades. Representa um reconhecimento quer sempre vem muito bem para nós. Eu sempre digo que nós professores universitários temos muito narcisismo, e que precisamos que alguém nos reconheça e diga como somos bons, e está ideia de satisfação pessoal é sempre positiva também, pelo reconhecimento de nossa profissão e porque estamos constantemente trabalhando e temos, também, que vencer o estresse e esse tipo de reconhecimento sempre é muito gratificante.”