Para repensar a crise ambiental

Autor do Livro do Mês acredita que é preciso pautar assuntos técnicos no dia-a-dia

Autodeclarado um otimista por natureza, Rodrigo Lacerda mostra disposição em falar sobre sua prosa humorada ao tratar de um assunto sério no livro “Todo dia é dia de apocalipse”. Duas vezes vencedor do Prêmio Jabuti, dos prêmios da Academia Brasileira de Letras, Portugal Telecom, FNLIJ e Biblioteca Nacional, Lacerda participou na noite desta quarta-feira (29/03) do seminário do Projeto Livro do mês, uma parceria entre o Mundo da Leitura da UPF e da Prefeitura Municipal de Passo Fundo.

Autor de “O mistério do leão rampante” e “O fazedor de velhos”, entre outros, Lacerda é escritor, tradutor, professor e editor. No livro “Todo dia é dia de apocalipse”, o autor apresenta um mundo em meio a um apocalipse eminente, e traz como protagonista da história um jornalista que, cansado de trabalhar com o jornalismo cultural, inicia sua carreira em uma revista científica. E é enviado para cobrir um evento convocado pela Organização das Nações Unidas (ONU), com cientistas do mundo para debater sobre o apocalipse eminente causado pelos problemas ambientais. Ao longo o evento, o jornalista leva um choque ao perceber que não eram trazidas soluções para os problemas e sim, formas de conviver com eles.

O autor Rodrigo Lacerda participou do seminário do Projeto do Livro do Mês da UPF, sobre a obra “Todo dia é dia de apocalipse”

Rodrigo Lacerda conversou com a gente sobre o livro, confira:

NEXJOR: No livro você traz um assunto que faz o leitor pensar e até questionar as próprias atitudes. O que te inspirou a escrever sobre esse tema? E por que é voltado para o público infanto-juvenil?

Rodrigo: Bom o que me inspirou a escrever foi o medo, medo do que pode acontecer com o planeta se a gente não mudar os rumos da nossa civilização. E a ideia de levar para o público juvenil é porque eu acho que mais do que para a minha geração os problemas ecológicos são problemas para as gerações futuras. Que eu vou durar o que? Mais 30, 40 anos? O mundo vai aguentar. Agora mais 70, 100, 150? Aí depende, a gente não sabe o que vai acontecer se tudo continuar igual. Então eu acho que é um problema para as gerações futuras, muito mais do que para minha. Então, esse é o meu primeiro livro para o público juvenil. A minha experiência com o público juvenil é que ele gosta quando fala sério com ele, quando você fala de assuntos sérios. E ele, ao contrário do que muitos escritores e do que muitas editoras imaginam, o público juvenil não gosta de ser tratado como um público que só gosta de videogame, skate e Facebook. E quando você leva eles a sério, eles respondem, são perfeitamente capazes de elaborar as questões que você aborda. Então não tem porque não direcionar para um público como esse.

“Ao contrário do que muitos escritores e do que muitas editoras imaginam, o público juvenil não gosta de ser tratado como um público que só gosta de videogame, skate e Facebook

NEXJOR: Você usa o humor para atrair a atenção do leitor. Abordar esse assunto de forma séria demais poderia afastar esse público juvenil de hoje? Como você define esse público que é tão cercado todos os dias por informação, vídeo, mídias, redes, etc. O que é preciso para tocar e prender esse leitor?

Rodrigo: Eu uso o humor sempre, é o meu jeito de ser. Então muitos livros meus, mesmo que não sejam para o público juvenil, as vezes são marcados pelo humor. O que eu acho é que sempre dá para falar de coisas sérias com um pouco de humor, as duas coisas não são excludentes, assim como dá para falar de assuntos humorísticos seriamente, sempre dá para fazer essa combinação, a vida é uma combinação dessas duas coisas. Basta ver aqui no Brasil, por exemplo, nós somos mestres de fazer piada de tragédias. Basta acontecer uma tragédia que 5 minutos depois você começa a receber piada sobre ela. Então isso faz parte da vida, essa mistura do humor com coisa séria é uma mistura natural. Eu acho que o leitor de hoje, seja ele juvenil ou adulto, ele é resistente, ele é um cara que não se deixa dispersar inteiramente por todos os outros chamativos da atenção dele, o Facebook, o vídeo, a Netflix, os passatempos outros. O livro exige tempo, exige concentração, e isso, a nossa vida tão corrida dos dias de hoje dificulta, agora as recompensas também são maiores, porque o nível de profundidade, de interiorização do que você tá lendo, é muito maior do que o que você tem quando você tá no Facebook, no Twitter, e escrevendo no seu diário ao mesmo tempo, então, essa concentração, esse foco, é um mergulho para dentro de si mesmo que os outros meios de comunicação e os outros meios de entretenimento, na minha opinião, não oferecem o mesmo nível. Então eu acho que ele é um sobrevivente, um resistente, mas que tem suas recompensas, que outros não tem.

NEXJOR: Por que a escolha de um jornalista para protagonizara história? É uma relação pessoal com o jornalismo ou a escolha dessa profissão é o que define o personagem como um todo?

Rodrigo: Pessoalmente foi importante porque eu sempre fui uma pessoa voltada para a área das ciências humanas, história, literatura, e quando eu era adolescente odiava física, química e matemática, e com o passar dos anos – hoje eu tenho 48 – passei a adorar, sobretudo biologia e química, e a respeitar muito matemática e física, embora sejam matérias difíceis para mim hoje. Então houve uma certa inversão das minhas preferências. E eu queria que o personagem refletisse isso de alguma forma, então os problemas ambientais exigem de nós um certo conhecimento das coisas, para que eles sejam atacados corretamente, assim como, desde os anos 80 todo o brasileiro é obrigado a entender um pouco de economia e de repente todos nós viramos possíveis ministros da fazenda, somos um pouco técnicos da seleção. São assuntos que caíram nas atenções gerias e que todos nós temos uma opinião sobre o assunto. Eu acho que a melhor maneira de a gente trabalhar os problemas ecológicos, é a gente também ter uma opinião sobre essas coisas, sobre biologia, sobre química, esses assuntos têm que cair na pauta cotidiana, a gente tem que discutir essas coisas no botequim, assim que vai se criar uma base boa na sociedade para que as decisões importantes sejam tomadas. O Brasil é um país que, para o que ele representa em matéria de manusear de natureza para a humanidade, nós somos extremamente atrasados na questão ecológica, para quem é dono de, sei lá, 5 sextos da Amazônia, as nossas políticas são muito canhestras, muito antigas. Mesmo os nossos governos progressistas desses aspectos, como por exemplo os governos do PT recentes, para questões ecológicas foram um atraso, não por acaso a Marina saiu do governo, não por acaso o Gabera saiu do governo, pessoas de grande vínculo com a causa ecológica, abandonaram os governos que eram progressistas em alguns aspectos, mas que nesse aspecto eram muito atrasados, quem dirá então outros governos, outros partidos, aí é pior ainda. É importante que esses assuntos caiam na ordem do dia. O fato do personagem ser jornalista me dava a possibilidade de revalorizar essas disciplinas, essas áreas científicas que não conhecia, porque aí ele vira repórter científico e tem que aprender sobre elas, e justamente me dava a possibilidade de falar dessas coisas como alguém que estava aprendendo e não como alguém que já sabe tudo. Eu sou como a população brasileira em geral, que não sabe dessas coisas e está tendo que aprender para ver se vislumbra alguma solução. Então esse personagem é muito um reflexo do que quase todos nós somos.

“Eu acho que a melhor maneira de a gente trabalhar os problemas ecológicos, é a gente também ter uma opinião sobre essas coisas, sobre biologia, sobre química, esses assuntos têm que cair na pauta cotidiana, a gente tem que discutir essas coisas no botequim”

NEXJOR: De que maneira a atuação como jornalista ou o jornalismo em si contribui para uma visão mais humanista de assuntos como o aquecimento global, por exemplo?

Rodrigo: Eu acho que esse é o drama do personagem. Ele vai para a área científica e se sente sufocado por uma visão cientificista do mundo, tecnicista, apenas tecnológica e científica, sem humanidade, em que a questão humana fica tão rarefeita que ele não se reconhece mais ali. Então eu acho que a gente tem que ter as duas coisas, quem é de humanas tem que saber um pouco de uma parte cientifica e quem é cientista tem que contemplar a questão humana também, o fator humano de tudo, não é apenas fazer uma projeção no computador, porque a humanidade não funciona assim. Vide o retrocesso ontem nos Estados Unidos, com o país abandonando todos os esforços ecológicos, o que aconteceu ontem foi uma tragédia, então as pessoas votaram nesse líder, as pessoas em alguma medida apoiam o que ele está fazendo. Então, o fator humano tem que entrar em campo, porque não adianta fazer cálculo no laboratório e depois não ter repercussão na sociedade, esse balanço de que está de um lado entrar no outro e vice-versa, se não, não vai dar certo.

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