A conturbada vida de Charles Bukowski

Na última sexta-feira, 07/04, o grupo Depósito de Teatro apresentou o espetáculo “BUKOWSKI – Histórias da Vida Subterrânea”, na VII Mostra Sesc de Teatro, em Passo Fundo. O grupo apresenta a peça desde agosto de 2014, lotando plateias por onde quer que passem. O espetáculo já recebeu mais de mil depoimentos espontâneos da audiência pelo Facebook, na página do Depósito de Teatro.

Roberto Oliveira – diretor e ator que interpreta Charles Bukowski – vai longe nas referências quando cita os caminhos que o grupo percorreu até chegar ao espetáculo exibido no SESC: “A história do Depósito de Teatro é permeada a partir de histórias do teatro nacional. Porém, já fizemos Italo Calvino e agora nos debruçamos sobre as obras de Charles Bukowski.” Ele conta também que no Brasil, as obras do escritor fizeram o caminho contrário do que nos Estados Unidos e na Europa. Aqui, os primeiros livros que chegaram foram os de contos e prosas, como Cartas na Rua e Misto Quente, enquanto no exterior, a poesia foi lançada antes. E, com base nelas que o roteiro foi composto: Pegamos o máximo de livros e obras que conseguimos reunir e dividimos entre os atores. Cada um leu e destacou os trechos que mais gostaram, assim criamos a dramaturgia fragmentada e meio desconexa que no final, faz sentido, pois todas as cenas se completam.”

Para contar as principais partes da vida de Bukowski, os atores utilizaram várias obras. As principais foram Bukowski – vidas e loucuras de um velho safado, escrito pelo jornalista Howard Sounes e as próprias obras do autor, como: Mulheres, Cartas na Rua, Misto Quente, Amor é o Cão dos Diabos, Ao Sul de Lugar Nenhum, Fabulário Geral do Delírio Cotidiano, entre outros.

Mas por que fazer uma peça sobre a vida de um homem tão emblemático como foi Bukowski? O diretor tem a resposta:

“Bukowski é um cara que é lido desde as pessoas mais intelectuais, até alguém com um livro de bolso sentado no metrô em algum lugar. É uma leitura para todos compreenderem, com uma linguagem direta.

Ele também diz que, por existir uma diferença muito grande entre o Bukowski poeta e o Bukowski na prosa, o próprio personagem durante a peça muda muito de personalidade: “Nos contos, o autor tem um personagem dele mesmo, que é Henry Chinaski, onde retrata situações cômicas e grosseiras. Nos poemas, a linha é mais profunda e dramática. Eu gosto deste desafio na interpretação”.

Roberto também comenta sobre uma das partes que mais gostou durante sua pesquisa, quando estava adaptando os trechos dos livros no roteiro. É sobre o livro Pulp, a última obra da vida de Bukowski. Na história, um detetive é procurado pela Dona Morte e ela pede para ele descobrir o paradeiro de certa pessoa. Quando o detetive está quase concluindo o caso, pede mais um tempo para a mulher, que aceita. Para o ator, esta é uma comparação do próprio Bukowski em seu estado terminal:

“Enquanto Bukowski escrevia a última obra de sua vida, Pulp, foi intenado no hospital. Lá, ele ditava o livro para as enfermeiras, que iam escrevendo. Passado este momento, Charles recebeu alta, foi para casa e quando terminou o livro, morreu. Para nós, parece que o Bukowski, no hospital, pediu um tempo para morte para terminar de escrever seu próprio livro, como ele conta na história”.

A peça “BUKOWSKI – Histórias da Vida Subterrânea” foi apresentada em Passo Fundo na noite de 07/04, no Teatro do Sesc por meio da VII Mostra Sesc de Teatro. Fique por dentro das próximas apresentações através do facebook do grupo.