Criadores compulsivos: Kleiton & Kledir na UPF

Irmãos ministram a oficina Letra e Música

Músicos criaram projeto “Letra & Música” que ensina a arte de compor

Irmãos de sangue, parceiros na música, Kleiton e Kledir Ramil criaram em 2015 o projeto “Letra & Música”, que percorreu diversas cidades. Gaúchos nascidos em Pelotas, vindos de uma família onde a música se faz presente, Kleiton e Kledir têm na mala 45 anos de trajetória musical e, através do projeto, ensina a música popular brasileira e realiza oficinas de composição musical.

Autores de músicas como “Deu pra ti”, “Paixão” e “Vira Virou”, os irmãos levaram para o resto do país expressões gaúchas como “tri legal”, e ganharam do Governo do Estado o de Embaixadores da Cultura do Rio Grande do Sul. Em 2011 lançaram um CD voltado para o público infantil, “Par ou ímpar”.

Sob uma forte chuva, os músicos chegaram na Universidade de Passo Fundo (UPF) para ministrar a oficina de composição, que em 3 anos mais de 600 pessoas já participaram, e aproximadamente 4.300 pessoas estiveram presentes nos shows gratuitos em Porto Alegre, Canoas e São Leopoldo. Com os sorrisos invadindo seus rostos e os olhares atentos a cada pergunta, Kleiton e Kledir conversaram com o Nexjor.

NEXJOR: O projeto fez grande sucesso desde seu início, em 2015. Qual a motivação inicial?

Kleiton Ramil na oficina sobre composição musical

Kleiton: Foi exatamente o fato de a gente dividir com as pessoas, com os compositores mais jovens sobretudo – e também vem pessoas de todas as idades no workshop – dividir com eles um pouco do que é o nosso barato, de criar e fazer gravações, fazer música. Então, esse foi o motivo principal de dividir com as pessoas essa nossa experiência. Já faz muito tempo que estamos na estrada e isso nos ensinou muitas coisas, como a música erudita, que nós dois estudamos. Nós dois somos formados em faculdades de música, eu fiz mestrado na França. A gente estudou muito a música erudita, a gente tem muitos modelos de escolas europeias para estudar música clássica, mas a música popular é sempre menos privilegiada. Poucos cursos existem no Brasil, quase nenhum. Então, o nosso desejo foi fazer isso. Como somos formados também em engenharia, e em música, temos essa visão também mais organizada da música, a família ligada à educação, nós resolvemos participar um pouco, dar a nossa contribuição no aspecto de ter um curso de música popular, mesmo que seja intenso, uma oficina. Não existe quase no Brasil, e acredito que no mundo também.

“Então esse foi o motivo principal de dividir com as pessoas essa nossa experiência, já faz muito tempo que estamos na estrada e isso nos ensinou muitas coisas”

NEXJOR: A oficina apresenta os segredos da arte de compor. E vocês seguem uma determinada técnica para compor ou se inspiram em acontecimentos do cotidiano?

Kledir: É um pouco variado, existem várias maneiras de compor. Aqui na oficina a gente estuda uma parte teórica, onde a gente divide as canções em quatro partes que são: ritmo, harmonia, melodia e letra. A gente estuda cada uma dessas partes em cima de exemplos do nosso cancioneiro brasileiro. Depois disso, a gente parte para uma prática, onde os alunos compõem uma canção e a gente sugere um método de composição, e eles compõem, não só compõecanção, mas gravam. A gente tem o estúdio móvel instalado na sala e no final do dia cada um vai com o seu CD para casa. E no dia seguinte todos voltam para cantar, participar do show cantando a música que fizeram. Ou seja, a realidade é que nós estamos fazendo um espetáculo de risco no dia seguinte, porque a gente está prometendo que vai ter uma canção que ainda não foi feita.

NEXJOR: Um CD que fala sobre bruxas, mágicos e bichos, chama a atenção por ter sido feito por uma dupla que fez sucesso entre os adultos. Como foi realizar a gravação de “Par ou ímpar”? E qual é a importância de dedicar atenção ao público infantil?

Kledir Ramil fala sobre a letra no processo de composição musical.

Kledir: Era uma coisa que estava fazendo falta na nossa carreira, fizemos tantos discos. E um dia o Kleiton virou para mim e disse: “Cara, vamos ter que fazer um disco para criança”. Uma tradição da música brasileira, os nossos grandes compositores em algum momento fizeram música para criança, era uma falta que tinha no nosso currículo que a gente cumpriu. E não só cumpriu como a gente se divertiu muito, e junto com Tholl (grupo circense que montou um espetáculo para o DVD “Par ou Ímpar”), emos um espetáculo, um DVD que é maravilhoso, que é exuberante visualmente como todas as coisas que o Tholl faz. Ganhamos prêmios de melhor disco infantil do ano, prêmio da música brasileira, enfim, trabalho que até hoje a gente repete sempre que é possível.

NEXJOR: Qual é a diferença, para vocês, em compor para o público infantil?

Kleiton: Foi uma coisa bem difícil. Primeiro e a gente teve que “desenvelhecer” algumas décadas. E a gente se perguntava muito “qual a diferença que existe das crianças de hoje com as da nossa infância?”. Percebemos que hoje as crianças são muito envolvidas com os jogos eletrônicos, existe uma outra realidade que não existia na nossa infância. Bem no início dessa pesquisa, a gente se deu conta que há alguns valores que são eternos. Por exemplo, criança gosta dos mágicos, então criou-se um tema que fala de mágica. Todas as crianças brincam de par ou ímpar, mesmo quando vão fazer algo eletrônico eles tiram no par ou ímpar para ver quem começa. Então fomos pegando elementos da cultura do mundo infantil; a gente percebeu que daqui a 100 anos vão continuar as brincadeiras de roda. E foi por aí que nós decidimos compor. Não foi fácil, foi difícil tomar essa decisão para ficar com clareza e fazer algo que a gente considerava importante. E para nós, a parte de criação, nós somos criadores compulsivos, é mais simples colocar a mão na massa e fazer. É m gostoso, mas até chegar o momento de compor demorou bastante.

“Nós somos criadores compulsivos”