“Não somos educados e formados a entender o outro”

Uma conversa sobre  sociologia e suas transformações na sociedade

Para o sociólogo Thiago Ingrassia Pereira, não basta apenas vivermos, mas sim, entendermos o mundo que se vive. Professor da área de fundamentos da educação na Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS), no Campus Erechim, Ingrassia participou da aula inaugural da especialização em Ciências Sociais, da Universidade de Passo Fundo, onde discutiu com os alunos sobre os desafios e tensões na sociologia brasileira.

Em conversa com o Nexjor, o professor comentou alguns desses desafios e, também, sobre a educação no Brasil e as nossas atuais interações sociais. Confira a entrevista:

 

NEXJOR: Quais seriam as principais questões sociológicas que o Brasil precisa superar?

“É uma ciência que é bastante polêmica, para muitos sequer a sociologia é uma ciência. Claro, ela tem toda uma tradição já de 200 anos de pesquisas, mas fundamentalmente ainda hoje as pessoas confundem o posicionamento do sociólogo como uma mera opinião. Uma primeira tensão que eu identifico é essa própria validade da sociologia como ciência. Acho que ainda no século XXI a gente precisa reafirmar isso. Por exemplo, qual a diferença da fala de um sociólogo que analisa o fenômeno de um cidadão bem informado sobre o fenômeno? Claro que há diferença, o sociólogo é aquele profissional capaz de usar um aporte teórico para criar um argumento, enfim ele busca a compreensão dos fenômenos sociais.

Uma segunda tensão é a ideia da profissionalização da profissão na área de ciências sociais. Hoje, basicamente, a gente tem formações de licenciatura e de bacharelado nessa área, então o professor da área de ciências sociais geralmente ministra a disciplina de sociologia. Por outro lado também vivemos em um ambiente bastante desafiador de reformas do ensino médio onde nossa área está mais uma vez ameaçada. E temos o bacharel que é aquele profissional com ênfase em antropologia, ciência política ou sociologia. Claro que ela é mais nítida na pós-graduação, nos cursos de mestrado e doutorado. Então sintetizando, os dois grandes desafios e tensões que nós temos hoje são da legitimidade da sociologia como um pensamento científico, racional e válido sobre a realidade, e o desdobramento disto é a questão da profissão. Nós ainda precisamos avançar muito em espaços profissionais, seja na pesquisa, em órgãos públicos, privados onde, inclusive, há uma lei dos anos 80 que regulamenta a profissão.”

 

“O estado brasileiro historicamente tem um discurso de valorização da educação, mas na prática isto não se efetiva”

 

NEXJOR: Uma das principais questões sociais do Brasil é a desigualdade social. Nesse sentido, você comentou sobre a reforma do ensino médio, mas muitos pesquisadores afirmam que a reforma pode agravar mais ainda a desigualdade do país. Esse impacto pode ser causado principalmente pelos itinerários formativos, que permitem os estudantes escolherem uma área para dedicar-se. Entretanto, não necessariamente as instituições de ensino irão oferecer todas as áreas. O resultado dessa dinâmica pode ser a variação de infraestrutura e qualidade do que vai ser oferecido pelas escolas devido às condições financeiras. Como o senhor vê essa questão da desigualdade e da reforma?

“Há uma perspectiva no estudo da sociologia da educação, acho que é uma tradição dos anos 70, ainda mais da sociologia francesa, que consegue identificar claramente as relações entre as desigualdades sociais que repercutem na desigualdade escolar. Então as escolas, as universidades não são ilhas, elas são instituições que estão dialogando com as desigualdades na sociedade. Assim, de forma objetiva, eu acho que o ensino médio no Brasil, a escola como um todo, tinha que ser mudada já que ela vem com um conjunto de problemas e contradições.

O problema que eu identifico é que o remédio que o governo atual está acenando está matando o paciente. É necessário que haja mudanças, uma nova perspectiva, principalmente se tratando de ensino médio, que tem históricos problemas de evasão e retenção. Mas, o remédio, a solução encontrada, é uma solução que, na minha opinião, não contribui para melhorar o cenário. Quando se fala em percursos formativos no Brasil, nós temos uma educação básica minimamente adequada. Então você imagina um projeto que coloca diferentes propostas que a escola tem que ofertar? Quem vai dar aula disso? Quais são os profissionais? Como que você constrói um currículo e vai ter dinheiro para isso? Então imagina uma escola que diz que você pode ter três ou quatro percursos formativos e tem um custo para isto. O estado brasileiro historicamente tem um discurso de valorização da educação, mas na prática isto não se efetiva.

Acredito que outro problema dos percursos formativos é o fato de um adolescente de 14 anos ter que decidir o que quer da vida. Muitas vezes, quando a gente tem 17 ,18 anos e está prestes a entrar na faculdade, estamos cheios de dúvidas, então imagina transferir isso para mais cedo. Daqui a pouco você, com 14, 15 anos, terá que dizer “eu quero estudar engenharia, eu quero ser jornalista, ser sociólogo”.      Isso vai de encontro à proposta da educação básica, que é uma generalista para a cidadania e para o mundo do trabalho. Sintetizando, eu acho que essa reforma não resolve [o problema], mas vai aprofundar a desigualdades no interior da escola, e isso não interessa para um projeto de país.”

NEXJOR: E essa questão da reforma recebeu como crítica, principalmente, a falta de abertura de debates ao público…

“Exatamente. Foi uma das primeiras medidas tomadas quando o Presidente Michel Temer assumiu o poder. Foi uma medida provisória, de cima para baixo. Ela é legal, mas não é interessante do ponto de vista democrático porque simplesmente resultou de um decreto. Depois essa medida provisória, acabou tramitando na Câmara e no Senado, mas numa velocidade muito grande. Ou seja, num espaço entre setembro de 2016 e, fevereiro deste ano, se definiram e se redefiniram discussões de 20 anos, porque a LDB (Lei de Diretrizes e Bases) é de 1996. Além disso, as discussões que foram travadas antes da LDB, já no final dos anos 80, na abertura democrática, e durante os anos 90 com lei complementares, foram ignoradas.  Era toda uma discussão, que tinha seus problemas, mas estava posta. E, simplesmente, em um curtíssimo espaço de tempo, durante as férias, no final de ano, foi a primeira matéria a ser aprovada no Senado. Ou seja, não houve debate com o público, com as comunidades científicas e nem com especialistas. É uma reforma que foi produzida por legisladores, que é verdade, tem a legitimidade do voto, mas não tem o conhecimento adequado para tomar decisões.”

 

“Nosso grande desafio como educadores hoje é tentar preparar as pessoas para fazerem um bom uso disto (a internet), para não compartilharem informações sem serem verdades”

 

NEXJOR: Como esse debate da reforma não foi aberto oficialmente para discussões, as pessoas foram debater o assunto nas redes sociais, e nós não podemos negar que a internet se tornou um grande palco de reivindicações sociais. Até que ponto a discussão na internet pode beneficiar ou prejudicar uma causa?

“Eu acredito que nós não podemos idealizar e demonizar nada. Acho que a internet nos oferece ferramentas, as redes sociais são espaços de manifestações que eu acredito serem importantes. Nós tivemos uma conquista tecnológica, um desdobramento social e político. Mas, claro, o que me preocupa hoje, como sociólogo e professor, é que muitas vezes as pessoas estão formando opiniões com pouca base, ou baseados em boatos e meros posicionamentos. Então, o mundo virtual cria, também, um desafio muito interessante: ás vezes o seu posicionamento numa rede social não é o mesmo que o da vida real, ou seja, aquele cara muito militante de Facebook, como se diz, é o cara que não comparece em uma manifestação pública, é aquele que não lembra em que votou na última eleição. Junto a isso outro problema que eu identifico é uma certa caça às bruxas, à política. Associar a política à corrupção, não deixa de ser verdade – a corrupção é um problema histórico, endêmico do Brasil -, mas a corrupção não começou agora. Talvez, agora ela tenha mais visibilidade do que já teve, inclusive, pelo uso dá internet. Hoje, com o celular a gente tira uma foto e ela é publicada instantaneamente, e as pessoas já começam a compartilhar, formar opinião, ou seja, a coisa tem uma velocidade muito grande. Acredito que a internet é um espaço muito importante, não vamos voltar à trás e deixar de usá-la, o nosso grande desafio como educadores hoje é tentar preparar as pessoas para fazerem um bom uso disto, para não compartilharem informações sem serem verdades, para pesquisarem boas fontes, já que não é tudo que está na internet que serve. Acho que os sociólogos, os cientistas sociais, tem o que dizer sobre isso para formar pessoas mais conscientes, que tenham autonomia de entender de fato o mundo que vivem, não simplesmente vivê-lo.”

NEXJOR: Quando se fala em “preparar as pessoas para usar a internet” temos que ter em mente os próprios algoritmos das redes que costumam a pautar as interações nela, e podem consequentemente levar à polarização de ideias. Já que estamos sendo bombardeados constantemente com o que eles consideram adequados e que, em teoria, iriamos gostar mais.

“Claro, mas é que nós não aprendemos – ninguém nasce sabendo – a dialogar, a debater: Nós batemos boca, estamos absolutamente certos da nossa visão de mundo, e acreditamos que o nossa percepção, ou o que o grupo a que pertencemos pensa é  melhor do que os demais pensam. Não somos educados e formados a entender o outro, a fazer aquilo que nas ciências sociais se chama de alteridade: o altero é o outro. É importante saber conviver com o outro e entender que a sua verdade é uma verdade sempre relativa, porque se você pensa que tem uma verdade absoluta você cai em um sistema autoritário, ou seja, quem pensa como eu tem razão, é o inteligente, o certo, o cidadão de bem e quem discorda de mim não serve, inclusive, tendo que ser combatido. E aí, contraditoriamente, no momento em que a internet poderia ser o canal para avançar na democratização dos espaços de debates, a gente vê uma coisa extremamente preocupante que é a emergência de cenários autoritários, fascistas e com baixíssima qualidade de convivência. Então, eu acredito que como educadores, cientistas sociais sabendo disto temos que criar mecanismo para interferir e eu acredito muito na educação.”

NEXJOR: Então o papel de explorar mais afundo estes debates seriam as universidades e as próprias escolas?

“As escolas têm muitos problemas, as universidades também, mas ainda são os espaços da crítica, do contraditório e de avançarmos. São espaços que a gente aprende mesmo, de onde saímos de uma mera opinião e construímos um argumento. Na filosofia se diz que você sai da doxa para o epistêmico, ou seja, da opinião para o conhecimento e esse é um processo formativo.”