Tá chovendo aí? Aqui tá chovendo!

O grande volume de chuvas registrado em maio desse ano foi um dos maiores já registrados, trazendo inúmeros prejuízos.

Maio de 2017 entrou para a história. Segundo o INMET (Instituto Nacional de Meteorologia), o acumulado de chuvas no mês totalizou 372mm em Passo Fundo, o que corresponde a um volume 225% maior do que a média histórica do mês (114 mm). Esse é o segundo maior índice para um mês de maio no município, abaixo somente do ano de 1992 (quando o mês registrou um acumulado de 387mm). Na região da fronteira do RS com a Argentina, algumas cidades registraram mais de 500mm de chuva nesse mês.

Segundo o observador meteorológico da Embrapa Trigo, Ivegdonei Sampaio, esse alto volume concentrado num único mês não é normal para essa época do ano, sendo mais frequente entre setembro e novembro. Isso se deve as constantes frentes frias que passaram pelo estado. Para se ter uma ideia da influência deste fenômeno, a última frente fria deste ano, chegou na região no dia 26 de maio e permaneceu estacionada até o dia 1º de junho. Resultado: 200mm de chuva em apenas 06 dias. “Esse fenômeno é tão atípico que, ao final do mês, chegamos a um volume de 1.244 mm acumulados em 2017. Esse valor corresponde a 70% do esperado para o ano todo”, afirma Sampaio.

Esse grande volume de chuva foi provocado por frentes frias que tiveram dificuldades para avançar em direção a região Sudeste por causa de um bloqueio atmosférico. “É comum a formação de frentes frias, que são sistemas com grande índice de umidade, que provocam queda de temperatura. Elas se formam na região do Uruguai, e geralmente atravessam a região Sul, passam por São Paulo e vão para o oceano”, explica o meteorologista Celso Oliveira, da Somar Meteorologia. “O que ocorre agora é que os ventos no Rio Grande do Sul estão a uma grande altitude, fazendo com que as frentes frias se desloquem mais lentamente e fiquem mais tempo atuando sobre o estado, aumentando a quantidade de chuva na região”.

Todo esse volume de chuva trouxe inúmeros prejuízos. Segundo o boletim da Defesa Civil, até o dia 04 de junho, o número de municípios no estado em situação de emergência era de 52. Mais de cinco mil pessoas estavam fora de suas casas, sendo 1.395 desabrigadas (levadas a abrigos fornecidos pelo estado) e 3.751 pessoas desalojadas (instaladas em casas de parentes ou amigos). O drama aumenta para as comunidades que vivem próximas aos grandes rios do RS (como o Rio Uruguai, o Jacuí e o Caí), pois mesmo com o cessar das chuvas, esses rios recebem todo o grande volume de águas dos rios menores, tendo elevação de seus níveis durante os dias seguintes as chuvas.

A atividade agropecuária foi muito comprometida. Segundo a EMATER-RS (Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural), 75 mil hectares cultivados foram afetados (quase 10% do total cultivado no RS), resultando numa perda aproximada de 110 mil toneladas de grãos. Na produção de frutas, o prejuízo é de quase 3 mil toneladas de produtos perdidos. Na atividade leiteira, o levantamento da EMATER mostra que 13,8 milhões de litros de leite não foram coletados (14% da produção mensal), pois o grande volume de chuvas inviabilizou o acesso do gado ao pasto, além de ter comprometido as pastagens. A produção de hortaliças também sofreu com imensas perdas, destacando-se as produções de alface e beterraba, que tiveram perdas de 40% da produção. Nas lavouras de trigo, as chuvas atrasarão o desenvolvimento do grão. Em anos anteriores, no fim do mês de maio 30% da chamada área cultivada já estaria semeada. Em 2017, esse índice é de 3%. “A produção agropecuária do estado está muito comprometida. Esse período chuvoso comprometeu a qualidade e a fertilidade do solo”, explica o Técnico da EMATER, Adelar Naressi.

E a previsão para o mês de junho não é das mais animadoras. Segundo Ivegdonei Sampaio, o alerta para grandes volumes de chuva continua para junho, pois novas frentes frias vem despontando, e o bloqueio atmosférico na região Sudeste vem se desfazendo de maneira lenta, mantendo ativo esse ciclo úmido. Nos quatro primeiros dias de junho, o volume de chuva foi de 78 mm, sendo que a média mensal é de 134 mm, praticamente a metade da chuva prevista para o mês.