Os mistérios do caminho da gasolina

por Gillian Krein e Monalise Canalle

A gasolina em Passo Fundo, já nas distribuidoras, tem preço maior do que o preço final de outras cidades do estado

A frota de veículos na cidade de Passo Fundo aumenta mais a cada ano. Em 2014, por exemplo, os dados do IBGE exibiam um total de um carro por habitante – contando apenas os maiores de idade. Com isso, cerca de 380 mil litros de gasolina são vendidos por mês, em média, em apenas um posto de combustível, mesmo com o elevado preço do produto na cidade. Durante quatro meses nossa equipe realizou uma pesquisa sobre o preço da gasolina e seus tributos na cidade de Passo Fundo, desde o mês de maio, quando o valor da gasolina estava em seu ápice.

Em comparação com outros municípios do Rio Grande do Sul que tem distribuidora de gasolina, Passo Fundo tem a segunda mais cara, perdendo apenas para Caxias do Sul. Em uma análise sobre os preços médios destas cidades, Esteio tem a gasolina mais barata, seguido de Santa Maria e Canoas, como mostra o gráfico abaixo. Mas porque isto acontece?

Um dos mais importantes e utilizados derivados do petróleo ultrapassava, no final de maio, o valor de R$ 3,80 por litro em Passo Fundo. Quais são, afinal, as taxas que incidem sobre este valor e o deixam tão caro?

Em nosso município, os postos de combustíveis são pouco acessíveis para fornecer informações sobre a formação do preço da gasolina. Uma das fontes – que preferiu não ser identificada – falou um pouco sobre o assunto.

O posto, que tem a bandeira da Petrobrás, afirma que o valor pago para a distribuidora durante o mês de maio, pelo litro da gasolina, era de R$ 3,35. Este preço bruto já era maior que o preço final das outras cidades do estado. O motivo, segundo o dono, é que as distribuidoras pegam a gasolina da refinaria de Imbé e o frete de uma cidade para outra é mais caro que nas cidades mais próximas, como Esteio.

Cabe ressaltar que este valor é pago antecipadamente, pois caso for pago no dia da entrega, ele pode sofrer um reajuste de até R$ 0,10 por litro. Além deste valor principal, ainda incidem frete, luz, água, funcionários, contador, alvará anual, INMETRO e ANP. Estes valores, segundo o dono do posto consultado, não têm uma porcentagem fixa.  Em 10 de janeiro de 1989 foi criada a Lei Municipal Nº 2502 que previa uma taxa de 3% sobre cada litro de gasolina vendido pelos postos. Porém, uma nova lei derrubou a inicial, fazendo com que este imposto não seja mais cobrado.

Segundo o gerente deste posto, o lucro sobre o preço da gasolina não passa de 3% do valor final. O que mantém o estabelecimento é a loja de conveniência. “A gasolina é o produto que atrai e mantem os clientes, mas o que gera o nosso lucro, pelo menos 80% dele é a loja de conveniência”, diz ele.

“A gasolina é o produto que atrai e mantem os clientes, mas o que gera o nosso lucro, pelo menos 80% dele é a loja de conveniência”

Em agosto deste ano, a pesquisa foi realizada novamente, em estabelecimentos diferentes. A mudança constante no valor pôde ser notada durante os quatro meses de realização da reportagem, que foi explicada pela troca de distribuidoras e pela nova cobrança de tributos.

Em Passo Fundo, os postos desde o último mês passaram a adquirir gasolina de uma distribuidora localizada em Esteio, o que já reduziu o custo bruto do produto. Porém, a tributação federal foi alterada, fazendo com que o ICMS subisse 7,5 centavos por litro e o anidro 1 centavo por litro, devido a safra da cana, que este ano foi prejudicada. Além disso, a Petrobrás passou a cobrar um imposto variável, conforme a cotação do petróleo, podendo aumentar o preço do combustível sem aviso prévio aos postos.

Em nosso país, a gasolina distribuída nos postos é previamente misturada com álcool anidro, nas distribuidoras. Esta mistura é conhecida por blend, que forma a gasolina tipo C. Cada litro deste produto leva 27,5% de etanol, que é a porcentagem máxima permitida no Brasil e 73% de gasolina tipo A. O valor do litro da gasolina comum é uma soma da gasolina tipo A, que custa R$ 2,51 e do álcool anidro, com o preço de R$ 0,46, resultando em um total de R$ 2,97, que é somado com os tributos dos postos, chegando ao preço final repassado ao cliente.

 

Tentamos entrar em contato novamente com distribuidoras de Passo Fundo, porém, não tivemos sucesso de novo. Muitas se recusavam a responder e desligavam o telefone.  Assim como diversos postos de combustíveis que ou não queriam falar sobre o assunto ou davam o mínimo de informações.

Composição da gasolina no Brasil

Precisamos também entender a composição da gasolina brasileira. O professor de Engenharia Química da Universidade de Passo Fundo, Edesnei Brião, explica. Formada por uma cadeia de carbonos e hidrogênios, a gasolina produzida no Brasil comporta uma porcentagem de 27,5% de álcool, para provocar a reação de combustão em seu tempo correto. Antigamente, o chumbo era adicionado na composição, porém a substância foi proibida por conta das contaminações da atmosfera.

Alguns países utilizam outro derivado do petróleo, chamado de MTBE, composto pelos elementos metil, terc, butil e éter. “A grande briga que existe em nosso país é sobre a porcentagem de álcool presente na mistura: nos Estados Unidos, por exemplo, a quantidade máxima é de 10%, já que equipes que trabalham com motores dizem que a substância libera mais água, corroendo o motor”, explica o professor.