Discutindo um “futuro sustentável” com André Trigueiro

“Não é possível resolver os problemas ambientais deste século, com soluções do século passado”

 

Passo Fundo recebeu na última semana o jornalista, escritor, professor e criador do curso de Jornalismo Ambiental na PUC-RJ, André Trigueiro. Sua estada no município foi articulada para sua participação da IV Semana do Conhecimento da Universidade de Passo Fundo, bem como, na 31ª Feira do Livro do município.

Atencioso, Trigueiro, aproveitou a oportunidade para ir um pouco além do principal motivo de sua estada no município. Explica que não considera-se parado no Jornalismo Ambiental, salienta, inclusive, que este não é o melhor termo a ser utilizado, pois o coloca em uma espécie de ‘gueto’. “Não sou um jornalista ambiental, sou um jornalista” ressalta. Porém, deixa clara sua admiração pelo assunto: “Isto me fisgou”. Diz ainda que “a questão ambiental perpassa todas as editorias, todas as áreas do saber e do conhecimento, é como um coringa em um baralho”.

O jornalista traz o exemplo da conferência do clima que acontece em Bonn, na Alemanha, para ilustrar o diálogo do meio ambiente com qualquer outra editoria: “Este evento é assunto de quê? Qual editoria? De internacional? É. Ciência e tecnologia? Também. Economia? Com certeza”.

A criação do curso de Jornalismo Ambiental, foi algo pensado e planejado. O professor explica que diversas vezes havia sido convidado para ministrar aulas que estavam na grade curricular, porém em nenhuma pôde comparecer. Sentindo-se culpado por não poder ministrar as aulas, fez a seguinte proposta: “Só aceito se eu puder dar o curso que eu queira dar”. Foi aí que o curso surgiu.

A grade curricular do curso, segundo o professor, tem a intenção se alfabetizar ambientalmente o jornalista, afinal, este profissional é muito desatualizado com relação aos problemas ambientais. “Minha expectativa é que este pessoal saia da universidade menos cru e mais à vontade para entender as pautas, que mesmo que de cima não apareçam para cobrir, tenham competência de sugerir e batalhar por elas” comenta Trigueiro.

CENÁRIO NACIONAL NA SUSTENTABILIDADE E DESENVOLVIMENTO
Um assunto muito importante, que recentemente entrou em discussão e surgiu na conversa com o jornalista, foi o decreto criado pelo atual presidente Michel Temer, para extinção da Reserva Nacional de Cobre e Seus Associados, a Renca, localizada a nordeste da Amazônia, entre os estados do Pará e do Amapá. Este decreto permitia a exploração da área por empresas privadas de mineração.

Mas afinal o que é a Renca? É uma área de preservação mineral com 46.450 km², criada em 1984 por um decreto do general João Baptista Figueiredo. Trigueiro explica que lá existem 7 áreas protegidas, 2 territórios indígenas e 5 reservas ambientais, além disto, nesta área existe o Parque Ambiental de Tumucumaque. A Renca funciona como uma espécie de “blindagem”, para que as unidades de conservação desta área não fossem devastadas. O jornalista explica que é cretinice do governo falar que não estariam entrando em áreas protegidas, afinal, a mineração causaria diversos impactos no solo e na vida terrestre, pelo fato de utilizar químicos extremamente tóxico, principalmente na mineração de ouro. “É algo muito pior do que os rejeitos de minérios da Samarco” enfatiza Trigueiro.

“A história do Brasil, infelizmente é aquela em que marco regulatório é frouxo, licenciamento é para inglês ver e fiscalização é ausente”, ressalta o professor.

Além disto, explica que se o decreto não fosse revogado, haveria impacto sobre a comunidade indígena, sobre a área de conservação, bem como, no aumento do desmatamento.

O Brasil encontra-se em um cenário de desenvolvimento e sustentabilidade muito dinâmico. Segundo o jornalista “hoje não estamos bem, afinal, o Presidente priorizou salvar o próprio pescoço no Congresso”. Porém, comenta, que neste caso, precisa reconhecer e dar crédito ao Presidente, pois ele soube ouvir e de alguma forma percebeu que estava afrontando o interesses de muitos brasileiros.

“Quando a gente fala em desenvolvimento sustentável, estamos falando de um desenvolvimento de longo prazo, de interesses produtivos. Não vejo assim a tônica deste atual governo federal”, comenta Trigueiro. O jornalista ressalta que utiliza-se muito o pretexto de maus projetos para se dizer “isto é o que temos para hoje, pois não temos dinheiro”.

Para finalizar, Trigueiro deixa uma dica para todos os prefeitos, com relação ao lixo: “Utilize uma forma mais ‘pobrinha’ de reciclagem. Para o seco, faça um galpão, armazene-o lá e doe para qualquer empresa que queira ganhar dinheiro com reciclagem. Para o orgânico, faça leiras de compostagem, ali você fará o manejo para a transformação em adubo. Venda ou utilize nos jardins e canteiros da cidade”.