O clássico e a dúvida atemporal: os mistérios de Dom Casmurro

Quando o assunto são os clássicos brasileiros, esse é um livro que não pode ficar de fora, por isso começamos com ele nossa série de análises e críticas sobre a literatura brasileira

Foto por Bruna Scheifler

“Capitu traiu ou não Bentinho?”. Há mais de 100 anos Machado de Assis deixou o país e o mundo com essa dúvida. Dom Casmurro é narrado em primeira pessoa por Bentinho (ou Dom Casmurro, como foi apelidado) que, já em idade avançada, relembra sua vida, especialmente seu romance com Capitu, esposa que ele acredita tê-lo traído.

Ao falar sobre Dom Casmurro, a professora do Ensino Médio Integrado UPF e doutora em literatura, Nara Rubert, não destaca o duvidoso narrador e personagem principal, Bentinho, mas sim a mulher por quem ele se apaixonou, Capitu. “É bastante difícil que um leitor, mesmo que iniciante, não tenha ouvido falar desta personagem. […] Talvez nem tenha lido Dom Casmurro ou desconheça o enredo, mas possivelmente já ouviu falar do enigma da moça dos “olhos de cigana oblíqua e dissimulada”. E não é difícil de perceber a imortalidade da personagem: inúmeras postagens em redes sociais e até camisetas já foram feitas em homenagem a Capitu e seus olhos.

“[…] Talvez nem tenha lido Dom Casmurro ou desconheça o enredo, mas possivelmente já ouviu falar do enigma da moça dos “olhos de cigana oblíqua e dissimulada”.

Capitu (Fonte: Foca Cruz Ilustrações)

Dom Casmurro é a obra prima de Machado de Assis e uma obra inovadora para seu tempo. O triângulo amoroso – uma personagem feminina “voluntariosa, articulada, capaz de se expressar, decidir e seguir seus planos”, em pleno século XIX, com um par amoroso contrastante, com personalidade fraca – são exemplos destacados pela professora Nara. Além disso, o livro é atemporal por ter “todos os típicos elementos necessários a uma história de amor: paixão, obstáculos, dificuldades, vitórias e um casamento com início e fim”.

Ao contrário da maioria de novelas, filmes e outras histórias a que estamos acostumados, essa não tem o “final feliz” e muito menos a resposta que esperamos. Ninguém terá certeza da “verdade”, mesmo que muitos acreditem que tenham. A resposta na verdade não é importante: o que interessa em Dom Casmurro é a trajetória, é apreciar a história e a genialidade da escrita de Machado, “uma linguagem plena de ironia e pessimismo”, como diz a professora. Ao recomendá-la ela afirma que é “claro que esta obra tem um peso de tradição difícil de ser vencido”, mas dá a dica para a leitura: “desfrutar de outros elementos que se apresentam desde o início da leitura”.