O Jeitinho Brasileiro na Literatura: uma análise de O Cortiço

O Cortiço é um retrato da sociedade carioca da época, mostrando como o ambiente, entre outros fatores, afetam a sociedade

Foto: Bruna Scheifler

Em “O Cortiço” os cenários onde vivem os personagens determinam suas vidas, assim como fazem suas situações financeiras e suas etnias. Sendo assim, os locais e os personagens são os focos da história. Por isso mesmo, o livro tem um começo lento e com longas descrições que podem causar estranhamento, mas assim que as histórias começam a se desenvolver podemos contemplar o porquê deste ser um dos maiores clássicos da Literatura Brasileira e símbolo máximo do Naturalismo.

“Estamos diante da obra que melhor representa o Naturalismo no Brasil” afirma a Professora Nara Rubert. “Está tudo ali: desde as mais representativas (características), como a – “comportamento humano como de um animal” – e personagens agindo pelo instinto, até o determinismo e a coletividade. O espaço físico e as características exteriores preponderam frente à análise psicológica e as personagens beiram à caricatura”, explica a Professora.

“Estamos diante da obra que melhor representa o Naturalismo no Brasil”

O enredo da obra de Aluísio Azevedo não tem nada de simples: trata-se das histórias dos moradores de um Cortiço localizado no Rio de Janeiro e dos ricos e ambiciosos moradores de um sobrado que fica ao lado. Entre as personagens destacam-se João Romão, o ganancioso proprietário do Cortiço, Bertoleza, escrava fugida a qual Romão explora, Rita Baiana a “típica” brasileira e os imigrantes portugueses Jerônimo e Piedade, “que vêm para trabalhar na pedreira de João Romão, morar no Cortiço e abrasileirarem-se bem ao gosto do Determinismo”, declara a Professora.

Para a Drª Nara Rubert, o ponto principal da obra é o contraste, entre classes sociais opostas e, principalmente, entre brasileiros e europeus. “Representados brilhantemente por Rita Baiana, mulata amante brasileira, e Piedade, esposa portuguesa. A traição de Jerônimo é resultado da sedução que o Brasil trouxe para a vida destes europeus”. Ela também destaca que “esta é uma obra de disputas: a disputa pelo status que João Romão tanto quer, a disputa por dinheiro que Miranda – chefe da família do sobrado – deseja cegamente e a disputa pelo “seu homem”, Jerônimo, entre Piedade e Rita.”

Além das histórias já mencionadas, em O Cortiço, encontramos inúmeras brigas, disputas e polêmicas que tornam a obra chocante, quando levamos em conta a época, e divertida, sendo de fácil leitura assim que superado o obstáculo inicial das longas descrições. “A movimentação incessante, a linguagem que sai de cenas naturalista cruas para descrições líricas impressionantes e o exercício de todas as teorias que fundamentaram as estéticas literárias do fim do século XIX são os atrativos mais incontestáveis de uma das obras fundamentais dos clássicos da literatura brasileira que é “O cortiço”, resume a Professora.