A Greve dos Caminhoneiros em Passo Fundo

Protestos a favor dos caminhoneiros e pela Intervenção Militar no trevo para Marau. Foto: Bruna Scheifler

O trevo de Passo Fundo, que leva a Marau, às 16h de sábado, estava agitado. Não pelo movimento, afinal os caminhões de sempre não passavam por ali. A agitação era do pessoal que estava protestando no local. Bandeiras do Brasil, apitos, rojões, muitos gritos, e buzinas em resposta, faziam do trevo, normalmente silencioso, barulhento. Os caminhões, parados, serviam para passar mensagens, os guinchos para exibir bandeiras.

Desde o início da greve, caminhoneiros estão no local, dormindo em seus caminhões e alimentando-se em uma das barracas. Naquele exato momento, pão com linguiça ou frango era servido. Além deles, estão no local seus familiares e apoiadores da paralisação, como agricultores e motoqueiros.

Caminhoneiros reunidos no trevo para Marau. Foto: Bruna Scheifler.

Há mais de uma semana caminhoneiros de todo o país resolveram parar. O movimento iniciou com os caminhoneiros autônomos reivindicando aprovação do projeto de lei que define taxação mínima dos fretes, a isenção do pagamento de pedágio dos eixos suspensos (quando o caminhão está vazio), a criação de um marco regulatório e a diminuição do preço do diesel que seguia aumentando e, segundo os trabalhadores, causando prejuízos. “Roda, roda e a maioria do dinheiro vai em combustível, não sobra nada. Se tu faz uma viagem de 1000km sobra 100 pila, não dá nem pra sobreviver mais”, explica o motorista de carreta, Cléres dos Santos de 40 anos.

Em junho de 2016, a Petrobrás mudou sua política de preços. Até então o governo controlava e atrasava o repasse dos valores internacionais, fazendo com que os combustíveis da Petrobrás fossem vendidos abaixo do valor de mercado.  Sob nova direção, indicada pelo Presidente Temer, os valores passaram a seguir o valor do dólar e dos barris de petróleo, entre outras variáveis da produção e distribuição. Assim, conforme o valor do dólar muda, o preço é reajustado. No caso de aumento do valor da moeda americana, também aumenta o preço dos combustíveis nos postos do Brasil. Os reajustes passaram a ser feitos pelo menos uma vez por mês, até junho de 2017 quando foi anunciado que eles aconteceriam com uma maior frequência, até diariamente. No mesmo período, os valores do petróleo começaram a aumentar.

Acontece que tal prática não é condizente com a realidade dos caminhoneiros autônomos. Ao determinarem o valor de um frete, estes utilizam o atual preço do diesel. Com a mudança frequente dos preços, caso aconteça um aumento, o valor não é repassado e o trabalhador precisa cobrir, tendo o prejuízo.

EFEITOS

Em pouco tempo, começamos a sentir os efeitos da paralisação. A greve tornou-se a pauta principal da mídia, dos grupos de whatsapp, das conversas fiadas e, claro, dos memes. Sem circulação de caminhões, não há entregas. Os próprios combustíveis não chegam às bombas, os alimentos às prateleiras, o gás de cozinha às casas e a querosene aos aviões. As empresas já não recebem os materiais necessários para a produção e estudantes não chegam às universidades por causa dos bloqueios. Não demorou para um estado quase de pânico se instalar.

“A incerteza gera medo, o medo leva a maior provisão, a maior provisão, o aumento do consumo. Com uma oferta diminuída, a falta nas prateleiras seria uma realidade” – afirma Blois.

Filas para abastecer o carro se formaram e aos poucos a gasolina foi acabando em grandes e pequenas cidades. As prateleiras de mercados começaram a mostrar espaços vazios aos poucos, empresas suspenderam a produção e as faculdades as aulas. A palavra estocar se tornou comum. Com medo de ficar sem, a população procurou se precaver, causando a rapidez na falta dos produtos. “A incerteza gera medo, o medo leva a maior provisão, a maior provisão, ao aumento do consumo. Com uma oferta diminuída, a falta nas prateleiras seria uma realidade, principalmente daqueles produtos de alto consumo, como alimentos, higiene pessoal, etc”, explica o Professor de Logística da Universidade de Passo Fundo e Pós-doutor pela UFMG, Henrique Dias Blois.

Em Passo Fundo, alguns postos já tem não tem mais combustíveis e em outras cidades da região, também já existem relatos nesse sentido, como Getúlio Vargas, Lagoa Vermelha e Constantina.

A empresa Comercial Zaffari de Passo Fundo, que inclui o supermercado Stock Center, informou em suas redes sociais a possível falta de algumas mercadorias devido à greve. E a população já percebe a falta de alimentos perecíveis, como frutas e verduras, além de carne, pão e leite nos mercados da região.

O gás de cozinha foi um dos primeiros produtos a faltar nas revendedoras. A Ultragaz era a última das empresas a ainda possuir o produto a venda. Segundo eles, seu depósito era grande, mas a oferta de mercadoria não iria durar. Sua previsão ao meio dia de sábado, era de que as 16h já não tivesse mais gás. O desespero da população foi sentido, “tem gente que tá comprando em grande quantidade para estocar ao invés de pensar no outro, tem uns que vem aqui e querem cinco, seis botijões”, afirma Ivone Pierezan, comerciante de 42 anos. A solução da empresa foi limitar a venda para dois botijões por pessoa.

Apesar dos boatos divulgados, a situação de abastecimento de água não é tão problemática. Segundo Aldomir Santi, superintendente regional da Corsan, o abastecimento está garantido até quarta (30/05) nos 70 municípios que a Corsan Passo Fundo atende. A informação na manhã de segunda era que caminhões com os produtos para tratamento da água estavam a caminho, escoltados. A previsão de chegada era o final do dia, se isso acontecer o abastecimento estará garantido por mais dez dias. A orientação para a população é que não “tome nenhuma medida precipitada, consumo normal, não adianta armazenar. Apenas acompanhar e não ir atrás de boatos, não ir atrás das redes sociais”.

O transporte público parou durante a tarde do 8º dia de greve, em apoio aos caminhoneiros. Foto: Augusto Albuquerque

Os trabalhadores do transporte público, no dia 28 de maio também pararam parcialmente. Os ônibus das empresas Coleurb, Codepas e Transpasso estacionaram no centro da cidade e não transitaram durante toda a tarde. Quanto ao combustível a empresa afirmou que havia combustível até o final da

Trabalhadores da Coleurb decidiram em Assembléia parar durante toda a tarde do dia 28 de maio. Foto: Augusto Albuquerque

semana e que a circulação seguirá normalmente.

No setor da educação, a 7ª Coordenadoria Regional de Educação (7ª CRE) orientou que as aulas fossem suspensas nas escolas estudais nos 3 turnos, em respeito às dificuldades de locomoção de alunos e professores. A Universidade de Passo Fundo, a FASURGS, a IMED e o campus de Passo Fundo da IFSUL também suspenderam as aulas, devido a greve.

A DEPENDÊNCIA

Com a paralisação dos caminhoneiros, pode-se sentir o quanto o funcionamento do cotidiano está ligado a essa classe de trabalhadores. “A dependência pelo transporte rodoviário de cargas no Brasil é expressivamente maior do que nos países do hemisfério norte do planeta. Essa dependência é resultado de políticas de incentivos de quase 70 anos que priorizaram o transporte rodoviário, em detrimento do ferroviário e o hidroviário”, explica o Professor Henrique Blois. No país, 60% de todo o transporte de cargas é feito via rodovias, segundo a Confederação Nacional do Transporte.

“A dependência pelo transporte rodoviário de cargas no Brasil é expressivamente maior que os países do hemisfério norte do planeta.”

Tal dependência, explica o professor, tem diversos motivos: pressão via lobby de grandes montadoras de caminhões e veículos; pressão de empreiteiras;  pressão dos transportadores, tanto patronal, quanto freteiros; e da própria classe política, “que vem atendendo a essas pressões via financiamento de campanhas”.

Segundo Blois, a dependência é que leva a esse cenário, que poderia tornar-se caótico, de falta de serviços. Além disso, ela causa danos contínuos a economia, pelo altos custos do transporte que elevam o preço das mercadorias no mercado internacional e a falta de competitividade entre as cadeias produtivas.

O GOVERNO TEMER

No 8º dia de paralisação, Michel Temer anuncia que atenderá os caminhoneiros. Foto: Marcelo Camargo | Agência Brasil

Devido a todos os problemas gerados pela greve, no dia 24 de maio o governo fechou um acordo com representantes da categoria. No entanto, os caminhoneiros não reconhecem tais representantes engravatados que negociaram com o governo e, assim, a greve continuou. “Não existe acordo, aquele cara que eles colocaram lá, nem conhecemos, nem sabemos quem é o cara. Os nossos representantes mesmo, não aceitaram lá, eles não receberam.” – afirma o caminhoneiro, autônomo, Carlos Alecio, de 55 anos. O governo havia prometido a votação do projeto para revisão da cobrança do PIS/COFINS, uma das reivindicações dos caminhoneiros.

OS CAMINHONEIROS

O movimento no trevo para Marau começou na quarta-feira. Ali parados, encontramos caminhoneiros autônomos e funcionários de empresas. Todos afirmam que o movimento começou com o contato que eles têm diariamente.

Nenhum líder foi apontado, apenas responsáveis pela organização. Um deles, Guilherme, de 35 anos, caminhoneiro funcionário de empresa, preferiu não identificar seu sobrenome, mas explicou sobre o funcionamento da paralisação no trevo: “nos dividimos em 3 turnos, com 3 ou 4 representantes sempre cuidando do espaço e ajudando na greve”, “na quarta nós viemos para esse ponto, para atacar, intervir os caminhões, dizer para eles a situação que está acontecendo no país que a greve já está desde segunda funcionando e convidando eles a parar”. Segundo ele, não existe bloqueio. “Nada de carga viva parada, nada de remédio, ambulância circulando normal, ônibus de passageiros também”, afirmou o caminhoneiro.

Ao serem questionados quanto aos seus objetivos, existem duas unanimidades entre os caminhoneiros: todos querem um diesel mais barato e um país melhor. “Tentar melhorar o Brasil, tentar melhorar a situação do brasileiro, dos caminhoneiros e tentar baixar, ninguém tá sobrevivendo com esse diesel alto do jeito que tá” diz o caminhoneiro Cléres dos Santos.

 

INTERVENÇÃO

Edi Stepenon, de 73 anos, é uma forte defensora da Intervenção Militar. Foto: Bruna Scheifler

No entanto, nem todas as reivindicações daqueles que estão no trevo de Passo Fundo, são unânimes. Durante os protestos em apoio à Greve na tarde do dia 28 de maio, no centro de Passo Fundo, os manifestantes dividiram-se, o grupo a favor de uma Intervenção Militar dirigiu-se para o Parque da Gare enquanto os demais permaneceram na esquina democrática. No trevo, no domingo, alguns dos caminhões e em duas placas estava escrito: Intervenção Militar Já. A maior agitação, na verdade, vem daqueles que apoiam a tomada de poder pelos militares. Edi Stepenon, aposentada de 73 anos, é avó de caminhoneiro e uma das mais agitadas, é enfática ao dizer que  acha “que tem que entregar para os militares agora, para o exército, que são a única solução.” Segundo ela, “do jeito, a roubalheira que tá, não tem mais condições da gente viver”. Ao ser questionada sobre o histórico do país de Intervenções de Militares, Dona Edi afirma: “eu vivi quando o exército tinha tomado o Brasil, eu acho que é bem melhor do que a baderna que tá agora”.

João Alcindo, está com a família desde o primeiro dia de protesto no trevo para Marau. Foto: Bruna Scheifler

Apesar do grande número de apoiadores da Intervenção, nem todos ali concordam com ela. O agricultor João Alcindo, de 62 anos, está com sua família no trevo desde o primeiro dia da greve e quando questionado sobre o que pensa dos protestos pela Intervenção afirma: “Eu acho que isso aí é uma palhaçada, com o perdão da palavra. Eu acho que o governo deveria ter mais seriedade agora com a classe que trabalha, a classe que toca esse país para frente. Tem que ter mais respeito com a classe, só isso.”

 

O caminhoneiro Felipe Lunkes, de 27 anos, acredita que a Intervenção é a solução. Foto: Bruna Scheifler

Entre os caminhoneiros, tampouco há consenso. Ao falar com um grupo percebe-se grande incerteza, mas todos eles afirmavam que algo devia ser feito algo para solucionar os problemas do Brasil, “se é para melhorar o Brasil, sim” diz Cléres dos Santos. Felipe Lunkes, caminhoneiro de 27 anos, tem mais certeza do que quer, “o objetivo é a Intervenção Militar, que eles entrem e tirem esses políticos corruptos do poder”. Outro caminhoneiro, Júlio Matos de 56 anos, afirma que “Intervenção Militar eu acho que não resolve hoje”. Para ele, a solução é outra, “os trabalhadores tem que colocar na consciência que não adianta pedir um Brasil limpo e honesto, um Brasil próspero, e continuar votando em ladrão.”

O DESFECHO

Após 12 dias de paralisação, a Greve dos Caminhoneiros encerrou-se com o anúncio feito pelo governo de medidas imediatas para a redução do valor do diesel e para atender as demais solicitações dos grevistas. A principal medida adotada é a redução, por 60 dias de R$0,46 centavos no preço do diesel. Para isso o governo utilizará dinheiro público e cortará a cobrança dos impostos Cide e PIS-Cofins.

“É importante lembrar que os impostos são a fonte de arrecadação do governo. Então na medida em que o governo abre mão de arrecadação tributária, optando pelo caminho da renúncia fiscal, isso vai comprometer as receitas governamentais. […] Por enquanto o governo resolveu tomar algumas medidas de cortes de gastos públicos” explica o economista Ginez Leopoldo Rodrigues de Campos. Tais medidas geram efeitos significativos, “isso vai ter um impacto sobre os investimentos na economia e, obviamente, vai comprometer o crescimento econômico”, afirmou o Professor da Universidade de Passo Fundo.

“Isso vai ter um impacto sobre os investimentos na economia e, obviamente, vai comprometer o crescimento econômico”

Além disso, foram adotadas medidas provisórias para terminar com a cobrança de pedágio de caminhões com o eixo suspenso, para que 30% dos fretes da Conab sejam feitos por autônomos e do estabelecimento de uma tabela de preços mínimos para o frete. Após os 60 dias, o governo anunciou que os reajustes passarão a ser mensais.
Após a decisão e anúncio do governo, os caminhoneiros lentamente começaram a se dissipar e a greve chegou ao seu fim.

No entanto seus efeitos continuaram, além de reacender o desejo de mudanças na população, a greve suscitou manifestações em apoio a uma Intervenção Militar e provocou efeitos consideráveis na economia. “Na realidade essa greve paralisou toda a logística de distribuição de produtos que atendem ao consumo da sociedade brasileira” declarou Ginez de Campos. “Provavelmente nos próximos meses teremos uma avaliação mais precisa desses prejuízos no PIB (Produto Interno Bruto) brasileiro, que é um indicador do crescimento econômico. Então, se já havia uma expectativa de crescimento, pelo menos essa era a expectativa do governo, de um crescimento de 2%, hoje analistas econômicos já apontam um crescimento de 1,5% até 1%” explica o economista. A diminuição do crescimento econômico preocupa, “é uma taxa de crescimento ainda muito baixa para que a economia volte novamente a um patamar de crescimento econômico sustentável e, principalmente de geração de empregos” conclui o Professor.

A solução? Parece distante, mas não é impossível. Segundo o Professor Ginez, uma reforma tributária é necessária, “nós temos uma estrutura tributária anômala, infelizmente temos uma das maiores cargas tributárias do mundo e que precisa ser repensada”. Ele também defende uma mudança no Estado Brasileiro, “nós precisamos diminuir o tamanho do estado. […] Não é possível mais que a sociedade brasileira continue financiando um estado corrupto e inoperante”. O Professor também é claro ao declarar que uma Intervenção Militar não resolveria os problemas do país e, em concordância com o Pós-Dr. em História, Adelar Heinsfeld, afima que a democracia e o voto são o caminho para melhorias no país.