A Hora da Estrela e a Introspecção de Clarice Lispector

A Hora da Estrela é a prova de que Clarice Lispector é, antes de tudo, uma poetisa. Mesmo quando escreve literatura, suas palavras encantam da mesma forma que um texto poético e a introspecção segue sendo sua principal característica. De acordo com Profª de Literatura, Drª Nara Marley Alessio Rubert, “a autora pertence à Geração de 45 do nosso Modernismo e é a maior representação da Prosa Intimista da literatura brasileira”.

Sobre a obra, a professora explica que “a introspecção, o fluxo de consciência, o monólogo interior importam mais do que qualquer caracterização física de espaço ou personagem; o tempo é psicológico e a narrativa é digressiva”. O começo da história é uma ótima exemplificação do que diz a professora. A narração é feita por um escritor, Rodrigo SM, que fala e reflete mais sobre si mesmo do que s0bre a própria protagonista da história que pretende contar. Segundo Nara, “esse tom metalinguístico estabelece durante toda a narrativa uma espécie de disputa de espaço e a protagonista vai se desvelando “fio a fio” com pistas”, até que a história seja de fato de contada.

O tema da obra é, como de costume, “o conflito e angústia da condição humana”, como diz a professora. Segundo ela, Clarice Lispector não é considerada uma escritora focada em causas sociais, no entanto nesta obra encontramos trechos “que fazem o leitor perder um pouco o ritmo da respiração”:

“Se o leitor possui alguma riqueza e vida bem acomodada, sairá de si para ver como é às vezes o outro. Se é pobre, não estará me lendo porque ler-me é supérfluo para quem tem uma leve fome permanente…” – Clarice Lispector

Mesmo assim, segundo Nara, “colocar em cheque a existência humana é o efeito mais avassalador” da obra. “Apesar da protagonista Macabéa ser apresentada como alguém que “se desculpa por ocupar espaço” e vive em uma “cidade toda feita contra ela”, há surpreendentes lições sobre a existência que, ora vem do narrador, ora se libertam da mente dessa moça.”