Além de seu tempo: Senhora, um romance de José de Alencar

José de Alencar é o fundador do romance de temática nacional. Ilustração: Daniel Brito

“Senhora” caracteriza-se como um livro do Romantismo logo em seu título. Segundo a Profª Drª Nara Marley Alessio Rubert , “o título carrega a ideia que os trovadores representavam em sua literatura: a devoção a uma senhora, bem ao estilo do vassalo obediente a um Senhor, durante o Feudalismo.” Essa releitura do trovadorismo, de acordo com a professora, é comum e impressionante no século XIX.

O livro narra a história de Aurélia, que quando pobre namora Fernando Seixas. Ele a troca por outra mulher e quando Aurélia fica rica, ela lhe oferece um dote de cem contos de réis, o qual ele aceita sem saber quem é a noiva. Eles se casem e passam a viver um relacionamento baseado na vingança. “O amor é mútuo, mas o ressentimento é maior e é ele que domina os primeiros meses de casados”, explica a professora Nara.

Assim, como ocorre em “Dom Casmurro”, de Machado de Assis, e “Lucíola”, também de José de Alencar, neste romance, o autor “ousa na personalidade da protagonista feminina. A heroína é voluntariosa, determinada e comanda suas finanças, assim como a decisão sobre o seu casamento. Ela decide com quem quer casar e qual é o valor do dote a oferecer”, descreve Nara Rubert.

Porém, um aspecto o diferencia de outras obras, especialmente do Romantismo, a estrutura dividida em quatro partes “que se organizam em flash back”. Também chama atenção os títulos de cada parte: Preço; Quitação; Posse; Resgate. “A associação primeira que se faz é de uma tramitação econômica e não de uma relação amorosa. Assim o tema que seria muito mais frequente no Realismo: amor X dinheiro, já se apresenta neste romance que foi publicado durante a maturidade do Romantismo no Brasil, em 1875”, analisa a Professora de Literatura.

A professora também conecta a história de Aurélia com a de Cinderela: “a pobreza e a beleza lhe são peculiares na mocidade e, como em um passe de mágica – “Bibidi Babidi Bum”, a nossa menina recebe a visita de um milionário avô, que depois de muito tempo enfim reconhece a neta como sua herdeira universal”.

A trajetória de Aurélia se assemelha a um conto de fadas também na idealização do Rio de Janeiro, comum ao estilo. No entanto a trajetória da menina é mais real e a protagonista é também mais a frente de seu tempo que suas similares da realeza infantil. José de Alencar mostra-se um autor romântico, mas que vê além e já adianta elementos do estilo literário que se seguiria e uma personagem principal mais semelhante a realidade.