NexChecking – Ditadura Militar

No dia 1º de junho, após manifestações a favor de uma Intervenção Militar ocorridas durante a Greve dos Caminhoneiros, o Núcleo Experimental de Jornalismo publicou em seu “Facebook” uma entrevista feita pela nossa equipe, sobre o assunto, com o Professor de História do Brasil da Universidade de Passo Fundo, Pós-Dr. Adelar Heinsfeld. A análise do professor gerou certa repercussão e com ela surgiram diversos comentários e afirmações contraditórias sobre o período da ditadura. Resolvemos então escrever essa matéria, como um exercício de checagem, internacionalmente chamado de fact-checking, com o objetivo de compreender a natureza de certas questões comentadas e esclarecer os leitores.
Para que você acompanhe nossa checagem, utilizaremos algumas etiquetas criadas pela Agência Lupa, que é uma agência especializada neste tipo de serviço. Se você quiser saber o que é e como funciona pode acessar o site do grupo piaui.folha.uol.com.br/lupa. A entrevista com o Professor Adelar você confere logo abaixo:

 

Não houve corrupção na ditadura:

Em relação a corrupção na ditadura militar, é difícil comprová-la, pois é bem provável que quando ocorria algum ato de corrupção, as informações eram varridas para debaixo do tapete devido a grande censura que havia na época. Entretanto, a Agência de Jornalismo Investigativo Pública realizou no ano passado uma entrevista com Raimundo Pereira, ex-editor do jornal Movimento, e o historiador Pedro Campos. Ambos relataram histórias de corrupção na época da ditadura. Para ler a entrevista completa acesse: Entrevista traz análise e histórias de corrupção na ditadura militar.

Além disso, ainda encontramos exemplos de corrupção naquele período nos relatos e documentos da Comissão da Verdade.

 

A ditadura foi branda, prisões e torturas eram raras exceções durante o período:

As torturas eram basicamente uma prática sistemática. Ocorriam nos porões do sistema DOI-Codi, criado pelo exército brasileiro a fim de combater ameaças internas. Várias práticas de torturas eram utilizadas, como choque, afogamento, palmatória, violências sexuais, entre outras. Segundo a reportagem da superinteressante “21 mitos sobre a ditadura militar” documentos oficias revelam que houveram 6.016 denúncias de torturas, feitas por 1.843 pessoas, entre 1964 e 1977. Confira os documentos organizados pela Comissão da Verdade e o relato da matéria: 21 Mitos Sobre a Ditadura Militar .

No livro “Infância Roubada – Crianças atingidas pela Ditadura Militar no Brasil” produzido pela Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo a partir de depoimentos feitos pela Comissão da Verdade do Estado de São Paulo “Rubens Paiva”, podemos ler e sentir os efeitos da Ditadura Militar em crianças cujos pais foram presos.
“Levados aos cárceres da ditadura militar, foram confrontados com seus pais, nus, machucados, recém-saídos do pau de arara ou da cadeira do dragão. Foram encapuzados, intimidados, torturados antes mesmo de nascer. Filhos de guerrilheiros que hoje estão desaparecidos nasceram em prisões e cativeiros. Sofreram torturas físicas e psicológicas, como Carlos Alexandre Azevedo, que com 1 ano e 8 meses apanhou e foi levado ao Dops. Anos depois, em fevereiro de 2013, aos 39 anos, não aguentou mais as dores da vida e se suicidou”, conta o livro já em sua apresentação. Ele está disponível online, de graça, na Biblioteca Digital da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo: https://bit.ly/2HwCAMj.

 

Critica a intervenção militar, mas não apresenta outra alternativa:

O próprio professor Adelar no vídeo nos dá uma alternativa a intervenção militar. Ele coloca que a principal solução para sair da crise seria o aprofundamento das instituições democráticas, não a quebra institucional. Ao invés de se pedir intervenção, se pedir, mais democracia.  O economista, mestre em sociologia e Dr. em Ciências Políticas, Ginez Leopoldo Rodrigues também comenta sobre isso no novo vídeo feito pela nossa equipe. Ele coloca que uma das opções seria o enxugamento do estado. Confira o que o professor tem a dizer:

 

Professores de história e universidades defendem o socialismo, marxismo ou o comunismo:

As universidades possuem uma grande pluralidade de pensamentos, tanto marxistas quanto de outras teorias contrárias. É equivocado falar de maneira generalizada que todas as universidades e professores de história constituem suas reflexões e ações a partir das matrizes de pensamento de um único tipo de ideologia. E, é equivocado também reduzir as inúmeras matrizes teóricas de pensamento a existência de apenas duas escolas, onde haveria a matriz certo e a errado.

 

A ditadura acabou com o comunismo no Brasil:

Não é bem assim, no tempo da ditadura militar os partidos com ideologia comunista atuavam de maneira ilegal. Hoje, no Brasil, há partidos comunistas que atuam na legalidade. Então a ditadura militar não “livrou” o Brasil do comunismo e sim proibiu, naquele período, a existência de partidos com ideologia voltada a esquerda.

Todas intervenções militares se transformaram em ditaduras:

Desde o período antes de Cristo várias Intervenções Militares foram realizadas nas mais diversas nações (confira aqui a lista de golpes e tentativas de golpes). Se formos analisar a história em um contexto geral, a imensa maioria das Intervenções Militares se transformaram em ditaduras no período subsequente a intervenção. Porém, há algumas exceções e situações que merecem destaque. Aqui no Brasil, por exemplo, para encerrar o período da monarquia e dar o início a Primeira República foi necessária uma Intervenção Militar liderada pelo Marechal Deodoro da Fonseca que se tornou presidente provisório em 1889. Em 1894, são realizadas eleições onde Prudente de Morais é eleito. Os chilenos também possuem uma situação diferente. Em 1932, militares chilenos promovem um golpe de Estado que depõe o presidente Juan Esteban Montero e formam a República Socialista do Chile, após 12 dias do golpe de Estado, outros oficiais do exército realizam um contra-golpe e o novo presidente provisório, Abraham Oyanedel, restaura a democracia. Devemos enfatizar que essas intervenções ocorreram em contextos diferentes em relação ao que vivemos hoje no país. Naquele tempo, no Brasil, a intervenção agiu sobre um regime que não tinha participação popular e no Chile a segunda intervenção se deu sobre uma intervenção prévia que, ao agir sobre o regime democrático, implantou um novo sistema.

O crescimento econômico do país na ditadura foi bastante elevado:

O Brasil realmente teve um certo crescimento na economia no auge da Ditadura Militar, segundo a matéria “21 Mitos da Ditadura Militar” da revista Super Interessante o Brasil cresceu 11% ao ano e virou a décima economia do mundo. Porém logo depois  veio o desequilíbrio econômico e começava a nascer a hiperinflação. Para saber mais sobre a economia do país naquele tempo acesse: 21 Mitos Sobre a Ditadura Militar.

 

Presidentes da ditadura militar morreram pobres:

O boato de que os presidentes da ditadura militar morreram pobres há muito tempo vem sendo dito, o que não passa de um equívoco. Todos eram oficiais de alta patente, que já ganhavam salários altos, quando saíram do governo, continuaram recebendo. Inclusive, atualmente, circulam inúmeras notícias sobre os altos gastos da União com o pagamento de pensões vitalícias as famílias de militares que vão durar, no mínimo, até o final do século. Um exemplo é esta reportagem do Globo: União gastará R$ 3,8 bi com pagamento de pensões vitalícias a filhas de militares este ano