“Quanto melhor for a qualificação do profissional, mais capacitado será o processo produtivo”

Professor da UPF, Julcemar Zilli, fala sobre crise econômica, empregabilidade na região de Passo Fundo e os benefícios do Ensino Superior para o mercado

Bruna Scheifler e Lucas Santos

Em 2014 o Brasil mudou. Uma forte crise econômica abalou a sociedade brasileira que há tempos estava acostumada com o crescimento econômico e uma melhor qualidade de vida. Uma série de políticas públicas falhas e de casos de corrupção levou o país a entrar em recessão. As indústrias começaram a demitir funcionários e o restante dos setores econômicos seguiu o mesmo caminho. As empresas e outras organizações perderam 2,1 milhões de empregados entre 2015 e 2016, de acordo com  Cadastro Central de Empresas (CEMPRE) do IBGE, uma queda 4,0%.

Mesmo com o cenário nacional de crise, Passo Fundo e a região mantiveram-se relativamente estáveis, inclusive recebendo novos investimentos. Para compreender a crise e seus efeitos no país e na região, o Núcleo Experimental de Jornalismo da Universidade de Passo Fundo conversou com o Dr. Julcemar Zilli, professor da Faculdade de Ciências Econômicas, Administrativas e Contábeis (Feac) da UPF. Zilli é Mestre em Economia Aplicada e falou também sobre o efeito da crise nas empresas e as perspectivas para o futuro. Confira:

 

NEXJOR: Quais foram os principais efeitos da crise econômica nas empresas, especialmente em Passo Fundo e região?

Julcemar Zilli: Essa crise econômica que o Brasil está passando nos últimos anos surge com todo um processo de gastos elevados do governo, por meio de desvios e corrupção. Isso tudo fez com que o governo apresentasse um déficit orçamentário para este ano de 2018, por exemplo, de 160 bilhões de reais. A economia está extremamente oscilante e isso afetou as empresas dos diferentes setores, principalmente o setor industrial. Nós tínhamos algumas empresas grandes na nossa região que prestavam serviços para o governo e a partir do momento que ocorre todo esse processo de corrupção, onde contratos que foram assinados são cancelados, essas empresas começam a demitir funcionários, a vender menos. Se a indústria produz menos, o desemprego aumenta. Isso faz com que menos dinheiro entre em circulação na economia, e aí começam os efeitos nos outros setores. O comércio segue o mesmo procedimento e isso tudo gera o que a gente conhece como uma bola de neve. Um setor que começa a parar, automaticamente, leva os demais setores na mesma direção. Por outro lado, nós tivemos o agronegócio, forte na nossa região, que se manteve estável e até cresceu, o setor de serviços que praticamente se manteve, já que as pessoas não abrem mão da saúde. Nos serviços educacionais, sentimos com as mudanças das regras do FIES, o que reduziu o número de alunos. Isso afetou o setor imobiliário. Hoje nós temos uma oferta de imóveis para serem alugados bem maior que a demanda. A crise atingiu a nossa região, mas o efeito foi menor do que em outras regiões que são mais dependentes da indústria ou dos serviços específicos. Nós temos três áreas que sustentam a economia: a área do agronegócio, a área da educação e a área de serviços de saúde.

 

NEXJOR: Qual a situação econômica atual das empresas?

Zilli: As empresas estão preocupadas com o atual cenário político, porque não se faz a mínima ideia de quem será o novo gestor do Brasil, o novo Presidente, então os investimentos começam a ficar retraídos. Se o investidor não investe, não gera produção, não gera emprego e a economia não aquece no nível que nós desejaríamos. No início deste ano a perspectiva era de o Brasil crescer em torno de 3%, ela caiu para 1,35%. Se no ano passado crescemos 1%, este ano provavelmente vamos crescer de novo em torno de 1%. E melhorias em relação a esse cenário projeta-se só a partir de 2019, a partir do momento em que o novo Presidente expor exatamente quais serão as ações que ele vai tomar.

 

NEXJOR: As empresas perderam 2,1 milhões de ocupados de 2015 para 2016, porque isso ocorreu?

Zilli: Por todo esse processo de insegurança. Uma das primeiras ações do empresário quando ele percebe que reduz a receita, o seu faturamento, é a demissão. Nós passamos de 12 milhões de desempregados em 2014, 2015, para 13 milhões de desempregados agora em 2018. O normal de uma economia como a brasileira seria de ter o desemprego natural em torno de 8 a 9 milhões de pessoas. Por outro lado, é nesse momento que ocorre um maior índice de empreendedorismo no mercado, porque as pessoas que estão desempregadas precisam encontrar uma fonte de renda. Um negócio faz com que a renda se mantenha, ou pelo menos que a pessoa não sofra tanto com o desemprego. A partir do momento que elas passam de economias informais para formais, o governo passa a obter alguns recursos em tributos e o próprio empresário vai ter condições, por meio do seu CNPJ, de participar de licitações governamentais, de vender para empresas, tudo isso faz com que a economia comece a sentir um efeito positivo do desemprego.

“As expectativas para Passo Fundo e região para os próximos anos são é extremamente favoráveis” (Imagem: Alison Costella)

NEXJOR: Quais são as expectativas na questão da empregabilidade para a região não próximos anos?

Zilli: A minha opinião é de que, como nós não sentimos tanto o efeito da crise, a partir do momento em que a economia voltar a crescer, nós vamos ter um crescimento um pouco maior do que o crescimento que vai ocorrer em outras regiões. Exemplo disso são os novos empreendimentos que estão vindo para Passo Fundo, só eles já estão gerando em torno de 1.500, 2.000 vagas de emprego. Isso já aquece a economia. Imagina se a economia brasileira voltar a crescer como em outras épocas, os setores na nossa região tendem a crescer junto. Se o setor do agronegócio crescer junto, ele vai precisar contratar pessoas, contratar empresas e esse dinheiro vai circulando na economia. Se nós formos para a área educacional, espera-se que num futuro próximo o volume de recursos para a educação volte ao patamar que era antigamente. Um maior volume de recursos para a educação, por exemplo, no Ensino Superior, vai atrair mais jovens. Então se o volume de investimentos aumentar no Ensino Superior, isso automaticamente também traz benefícios para a cidade ir aquecendo a economia. A indústria também já começou a apresentar sinais de melhoria. As expectativas para Passo Fundo e região para os próximos anos são extremamente favoráveis, basta o cenário político se organizar.

 

NEXJOR: Com a crise, a maioria das propostas dos candidatos gira em torno da economia. O que o senhor, vendo as propostas, espera daqui para a frente?

Zilli: Nós temos uma diversidade de propostas, cada uma direcionada para uma linha de pensamento, umas mais voltadas para a área assistencialista, outras voltadas para a área empresarial e outras mais voltadas para a área de gestão pública, no sentido de reduzir a participação do setor público na economia. Me parece que individualmente as propostas não são tão sustentáveis, a partir do momento que elas pudessem interagir, atuando nos diferentes setores, eu acho que nós teríamos uma economia muito mais sólida. O mercado vai automaticamente forçar o presidente eleito a se adequar a suas necessidades, caso contrário ele não consegue a governabilidade que um presidente precisa ter para fazer com que a economia cresça. A gente precisa ter uma coerência entre todos os setores da economia para crescer sustentavelmente.

 

NEXJOR: Qual o papel do ensino superior nesse contexto?

Zilli: Dados do SABRAE apontam que a falta de gestão é um dos principais motivos do fechamento de empresas até dois anos. A pessoa abre a empresa só que ela não analisou financeiramente se é viável, não fez uma análise do mercado. Isso se aprende no Ensino Superior. Quanto melhor for a qualificação do profissional, mais capacitado será o processo produtivo em empresas e no setor público. Essa melhor gestão passa por um profissional capacitado, com Ensino Superior, com Pós-graduação. Decisões melhores geram benefícios maiores que fazem com que a empresa dure mais tempo, que o empresário tenha lucro, mantenha ou aumente o número de funcionários, e possa pagar um salário relativamente melhor. Isso tudo vai para a economia, que ganha com isso.