Do Pinóquio às fake news

De uma mentira boba em uma história infantil à uma notícia que nunca aconteceu fomos até raiz do problema e buscamos explicações do porquê as pessoas mentem.

O mundo era diferente em 1994. A internet recém começava a invadir os lares da família brasileira, PC Farias, o tesoureiro de Collor havia sido preso um ano antes na Tailândia, ver filmes por streaming era roteiro de ficção científica e Pulp Fiction estrava nas telas revolucionando o cinema independente. O ano de 1994 marcou também uma das maiores vergonhas da imprensa brasileira, quando veículos de comunicação de diferentes plataformas e em rede nacional acusaram os proprietários de uma escola infantil no município de São Paulo, a praticarem abuso sexual com crianças. Baseado no depoimento das crianças, pais denunciaram o casal Icushiro Shimada e Maria Aparecida Shimada, a professora Paula Milhim Alvarenga e o seu esposo e motorista Maurício Monteiro Alvarenga e, sem provas, os quatro execrados publicamente e acusados injustamente.

A origem do episódio, que entrou para história da imprensa brasileira, foi uma inocente mentira, provavelmente inconsciente, que alcançou uma repercussão inimaginável.

O caso Escola-Base não foi o último e tampouco o primeiro em que uma da ações mais comuns ao ser humano gerou consequências devastadoras. A mentira, em maior ou menor grau, faz parte da história humana, a ponto de ganhar um dia próprio para ser lembrada.

A ORIGEM DO DIA DA MENTIRA

Não se sabe ao certo, mas a versão mais aceita para o surgimento do dia da mentira se dá na França, no século 16, onde até 1563 o ano novo era comemorado durante uma semana, de 25 de março á 1º de abril. Porém, no ano de 1564, o rei Carlos 9º decidiu adotar o calendário gregoriano e passar a comemorar a chegada de um novo ano no dia 1º de janeiro.

Muitos franceses demoraram para aceitar a nova data e acabaram virando motivo de piadas e outras formas de ridicularização. As principais peças pregadas eram convites para festas que não existiam. Logo a data acabou se espalhando pelos países da Europa e do ocidente e é lembrada e celebrada até os dias de hoje.

No Brasil, o dia da mentira começou a ser difundido graças ao periódico “A Mentira”, que teve sua primeira edição em 1º de abril de 1828, a edição noticiava a morte do imperador Dom Pedro. A notícia foi desmentida no dia seguinte e o jornal circulou até 14 de setembro de 1849.

A mentira sempre existiu, todos nós já mentimos alguma vez na vida, isso faz parte do comportamento humano. Mas por que as pessoas mentem? Segundo a psicóloga e professora da Universidade de Passo Fundo, Carolina Azambuja, não há uma explicação exata para isso, afinal de contas o ser humano é muito complexo e cada um tem os seus motivos de acordo com as experiências vividas durante a vida.

Do ponto de vista comportamental a psicóloga afirma que se parte do princípio que as pessoas mentem porque um dia elas aprenderam que mentir de certa maneira funciona.

O ser humano não é capaz de detectar uma mentira, não nasceu naturalmente com essa capacidade. Porém, há técnicas e treinamentos principalmente em profissões da área de segurança pública que possibilitam as pessoas a serem mais aptas para detectar mentiras em algum relato.

De acordo com Carolina dificilmente vamos identificar uma mentira por linguagem verbal. Pela linguagem corporal já é diferente. É possível identificar se uma pessoa está mentindo por certos gestos em algumas situações, como por exemplo, contar uma história e depois pedir para ela dar o mesmo relato de trás pra frente. Quanto mais dificuldade o sujeito tiver mais a história foi dissimulada. Isso se deve ao fato de que o cérebro tem muito mais trabalho para contar uma mentira do que uma simples verdade.

A mentira pode até ser considerada algo natural do ser humano. Isso não quer dizer que estamos todos livres de punição. Segundo a professora de Direito Contitucional e Previdenciário, Edimara Sachet Risso, no âmbito do direito o que se busca é fugir da mentira, o que interessa sempre em um processo é que a verdade venha à tona. Segundo a professora da UPF, não há uma lei específica para prender uma pessoa que mente. Porém, em algumas situações a mentira pode ter algumas consequências, como por exemplo mentir em juízo ou quando alguém comete alguma fraude.

Em relação aos advogados de defesa em que por diversas vezes são criticados pelo senso comum da sociedade pelo fato de defenderem assassinos, ladrões e outros sujeitos que cometeram contravenções, a advogada comenta que eles estão ali para garantir que o direito de defesa seja cumprido, e que não haja um julgamento precipitado do réu.

Mentirosos Profissionais

Ao longo da história alguns mentirosos ganharam destaque pela sua ousadia em aplicar golpes. Separamos alguns que ficaram famosos na mídia e até chegaram a ser representados em filmes que foram aclamados pela crítica.

E como a mentira tem perna curta essa reportagem não termina aqui. Na próxima quarta-feira você vai poder conferir a segunda parte da matéria com as maiores fake news da história.