A tecnologia como aliada (ou não) das nossas primeiras palavras

Desde muito pequeninhos, eu, você e qualquer um que esteja lendo esta reportagem, tentamos nos comunicar de alguma forma. Pode ser que nossos pais nem tenham entendido nosso modo de comunicação, mas estávamos lá, tentando dizer algo. Quando dávamos chutinhos ao ar, por exemplo, era uma forma de comunicação. Poxa! Como ninguém entendeu que aqueles chutes queiram dizer que estávamos felizes e cheios de energia? É, caro leitor… os pequenos sons e gestos que faziamos quando bebês eram o início do nosso processo de aprendizagem da comunicação.
E esse processo de aprendizagem é longo e necessita de muita atenção dos pais ou de quem cuida dos bebês. Por mais que nossos pais, às vezes, não entendessem, os sons produzidos por nós quando bebês já eram uma forma de comunicação. Seja por meio de gestos, risos e até mesmo por meio do choro, a criança está sempre se comunicando. Ou seja, esse processo de aprendizagem da linguagem começa muito cedo e necessita ter uma grande atenção dos pais ou cuidadores.

E entre toda essa comunicação, por vezes ou mal entendida, cria-se uma expectativa entre os pais: qual será a primeira palavra dita pelo bebê? Mamãe? Papai? Para infelicidade das mães, “papá” ou “papai” é, geralmente, a primeira palavra falada pelas crianças. Mas, calma aí paizão! Isso não quer dizer que o bebê tem preferência por você. Só quer dizer que a letra “p” é mais fácil de ser pronunciada do que a letra “m”. Não precisa se vangloriar pra cima da Mamãe não. E esse momento, da primeira palavra do bebê, é o mais marcante para os pais e importante para a criança.

Provavelmente seus pais, avós e, talvez, você, tenha passado por esse processo de forma natural. Mas, as novas gerações têm passado por esse processo de forma diferente. As tecnologias existentes, como celulares, tablets e televisões têm modificado a forma com as crianças aprendem a se comunicar. E por esse processo ter uma grande importância não só para a comunicação mas, também, do desenvolvimento da criança, é necessário entender completamente tudo o que envolve esse processo.

Legenda: Cauê, de três anos, jogando em um celular. Foto: divulgação

Com o passar dos anos, o processo de aprendizagem da linguagem tem se modificado. O uso da tecnologia por crianças é uma dessas alterações. Por isso e por toda a importância que envolve esse tema, o desenvolvimento da linguagem tem sido o centro da atenção de muitos pesquisadores no mundo tudo. E foi através da tese de seu doutorado que uma professora e pesquisadora da Universidade de Passo Fundo começou a estudar este assunto.

O Projeto

A professora Marlete Sandra Driedrich coordena hoje um projeto que pesquisa especificamente o tema. O projeto “A experiência da criança na linguagem: a aquisição das regras de conversação” vem coletando dados para obter informações e tentar entender esse processo de aprendizagem. Mas, afinal, que dados são esses coletados da fala de uma crianças?
Uma das formas de coleta de dados da pesquisa é analisando áudios e vídeos de conversação das crianças analisadas. Uma das ramificações do projeto é o estudo da linguagem de crianças bilíngues. Como é um tema muito abrangente, o processo de pesquisa do projeto funciona por etapas. Desde seu início, a pesquisa já investigou aspectos relacionados aos elementos vocais da língua e à conversação. Para a coordenadora do projeto de pesquisa, Marlete Driedrich, os estudos vão além do simples entendimento da comunicação das crianças. “Conhecer mais sobre a linguagem da criança é conhecer mais sobre a língua e sobre o humano. Além disso, as pesquisas nessa área podem contribuir para os estudos na área da Educação, do ensino de línguas, entre outros”, afimou Marlete. 

Atualmente, o projeto estuda a relação da linguagem da criança com as práticas sociais. Para os pesquisadores do projeto, as crianças vivem determinados “esquemas sociais ou culturais”, o que também pode afetar no seu desenvolvimento humano. “Esses esquemas acabam por direcionar o uso que ela faz da língua. Conhecer mais sobre essas práticas sociais na cultura e como elas se marcam no dizer da criança é nosso objetivo atualmente”, disse a coordenadora do projeto. 

Até o momento, a pesquisa apontou que a criança se desloca na linguagem em relação às contribuições do outro, mas não meramente repetindo-as, mas imprimindo a elas um modo particular de estar na língua. “ Nós enxergamos uma certa singularidade, uma maneira de ser na fala das crianças, por isso, sempre encontramos, em meio às regularidades, as irregularidades, as quais se devem a esse modo particular de ser”, declarou Marlete Driedrich.

Cada criança vive o seu próprio processo de aprendizagem da linguagem. Algumas têm a oportunidade de crescer aprendendo outra língua que não só a sua natural. Outras têm poucas oportunidades de acessar tecnologias como celulares e tablets. Mas a grande maioria tem, ao menos, acesso a televisão com desenhos animados e filmes. Com isso seu processo pode ser alterado. Mas, até que ponto as tecnologias afetam no processo de aprendizagem da linguagem das crianças? Como os pais podem otimizar esse processo? E o que eles fazem que pode prejudicar? 

A tecnologia no processo  de comunicação

A resposta para a primeira pergunta pode estar no meu ou no seu processo de aprendizagem da linguagem. Por que, como eu já disse, provavelmente você tenha passado por esse processo em um mundo repleto de tecnologias. Sendo assim, nós fomos influenciados por joguinhos, filmes animados e desenhos que fizeram com que nós repetissemos certas falas ou gestos que viamos. O Cauê é um exemplo disso. Ele tem três anos de idade e já começa a sentir os efeitos da tecnologia em seu processo de comunicação. A mãe dele, Etiene Gonçalves, conta que os desenhos animados foram fundamentais para o desenvolvimento da fala dele. 

Legenda: Cauê com sua mãe Etiene e seu pai Flepy. Foto: divulgação

Para a fonoaudióloga Bruna da Silva Fumegali, a tecnologia pode auxiliar muito o processo de aprendizagem da linguagem das crianças. Mas ela pondera, é necessário ter cautela com o tempo que a criança terá com os aparelhos eletrônicos. “Desde que apresentada com controle de acordo com a idade e mediação, a tecnologia pode servir de complemento no processo do ensino-aprendizagem e promover interação, pois existem muitos canais educativos e lúdicos que podem auxiliar no desenvolvimento da criatividade, tanto da criança quanto dos pais”, afirmou Bruna. 

E foi com essa cautela que a Etiene foi liberando a televisão e o celular para o Cauê. Ela conta que, no início, era contrária a liberação desses aparelhos para crianças. Mas, com o tempo, entendeu que com controle e apoio dela e do pai a tecnologia poderia ser uma aliada. 

Legenda: Etiene, Cauê e Flepy no aniversário de seu personagem favorito. Foto: divulgação

Mas, além das tecnologias, outros fatores podem atrapalhar o processo de comunicação das crianças. É preciso muita atenção dos pais ou cuidadores para esse processo. Qualquer alteração ou percepção de alguma irregularidade ou demora para o início dele, a criança deve passar por um fonoaudiólogo para que, assim, identifique o problema e faça o devido encaminhamento. A dificuldade auditiva, falta de estímulos adequados como brincadeiras, canções e leituras para as crianças, excesso de tecnologia, dificuldades cognitivas e síndromes genéticas são outros fatores que podem atrapalhar o processo de aprendizagem da linguagem. 

Os pais também podem ser fatores que atrapalham esse processo, segunda a fonoaudióloga Bruna Fumegali. “Exemplos de estímulos inadequados são quando a criança aponta para algum jogo, e os pais logo alcançam a ela, sem nomear, sem funcionalidade, não permitindo assim nenhum tipo de interação entre a criança com o objeto, nem da criança com os pais”, afirmou Bruna. Não corrigir as crianças, por mais fofas que elas sejam falando palavras erradas pode ser outro comportamento que atrapalha, segundo ela. 

Será que só a tecnologia pode auxiliar nesse processo? E ainda sim, sem o devido controle, pode atrapalhar. Calma, pai e mãe. Vocês também podem estimular seus filhos sem o uso da tecnologia. Mas, mais uma vez, é necessário ter muita atenção para esse processo. Mesmo que você trabalhe muito e tenha pouco tempo para ficar com seu filho, você pode auxiliar nesse processo de aprendizagem. Otimize o tempo de tarefas como o banho, para nomear partes do corpo, nomear objetos como sabonete, banheira, etc. Até mesmo o choro pode ser um estímulo de comunicação.

“Na maioria dos contextos familiares os pais trabalham demasiadamente, e quando chegam em casa, poucos têm tempo de estimular o desenvolvimento da fala da maneira adequada, ou seja, interagindo. Não se trata de uma tarefa fácil, pois interagir não é simplesmente colocar vários brinquedos à disposição da criança, crianças não podem ser mini adultos”, disse Bruna, que ainda conclui:

“pais que aproveitam a hora da refeição para nomear os alimentos, que utilizam fatos e reações do dia a dia para estimular os sentimentos, que se conectam com a criança, interpretam e valorizam suas tentativas de comunicação, assumem o perfil que consistentemente fornece encorajamento, apoio e suporte necessário à interação e à comunicação”. 

Bruna da Silva Fumegali, fonoaudióloga

Percebeu o quão importante é esse processo de aprendizagem? Se eu e você nos comunicamos de certa forma hoje, é porque, lá atrás, quando bebês, tivemos estímulo para isso. Falando por mim, a televisão foi fundamental para minha aprendizagem na comunicação. Assim como o Cauê, eu repetia tudo o que ouvia em desenhos animados. Mas diferentemente dele, minha primeira palavra foi “mamãe”. Ah! Eu não falei isso, né? O Cauê falou pela primeira vez a palavra “papai”. Então, presta atenção nesse momento fofura da reportagem.