Quando uma tragédia rompe o cotidiano jornalístico

Entrevista com Mateus Parreiras de Freitas, repórter do Estado de Minas que atuou na cobertura do rompimento da Barragem de Mariana (MG) em 2015

O repórter fotográfico Leandro Couri e o jornalista Mateus Parreiras de
Freitas, em meio à devastação de Mariana

Por: Gabriele Costa Pereira, acadêmica do IX nível do curso de Jornalismo da UPF

Todos os dias, há a presença de desafios perante os profissionais da comunicação, seja em um entrevistado que acaba cancelando, ou em uma reportagem de última hora que acaba rompendo o trabalho já organizado em uma redação de um jornal. Esses acontecimentos estão presentes no cotidiano, e o profissional deve saber lidar com eles, de forma ágil e ética.

Ao sair de casa não imagina por quais obstáculos irá passar, sabe que vai ter dias bons e dias ruins, dias que será elogiado pelo seu trabalho e dias que pensará o porquê escolheu essa profissão. Não está nada escrito, pode ser considerado destino ou acaso. Desafios estão presentes e o importante não é como se chega nele, mas sim como irá sair dele, e resolvê-lo.

Dentre os profissionais da comunicação, encontra-se o jornalista, seja de veículos on-line, rádios, televisões ou jornais impressos, realizando reportagens ou grandes coberturas. Esse profissional tem que saber quando agir rápido, com destreza e de forma correta, sabendo lidar com imprevistos, e aprendendo a cada dia com cada experiência.

Desta forma, no dia 5 de novembro de 2015 a barragem de Fundão no município de Mariana, no estado de Minas Gerais se rompeu, deixando pelo seu caminho, milhões de metros cúbicos de rejeitos de minério retirados de minas da região. Sendo considerado um dos maiores desastres ambientais do Brasil.

A cobertura desse acontecimento ocorria por veículos de comunicação tanto nacionais, quanto internacionais, envolvendo diversos profissionais da comunicação. Entre eles, o jornalista do Estado de Minas, Mateus Parreiras de Freitas, 41 anos, natural de Belo Horizonte, que sentiu na pele como um desastre ambiental mudou sua rotina como profissional.

Em pesquisa sobre o rompimento da barragem de Fundão em Mariana (MG), encontrei diversas notícias escritas por Mateus. Entre elas, uma publicada no perfil do Estado de Minas no Facebook no dia 5 de novembro de 2015: “O rompimento da barragem da Samarco, em Mariana, pode ser o mais grave já registrado no Brasil, segundo dados do Comitê Brasileiro de Barragens. O maior rompimento com vítimas, até então registrado,
foi na Mina de Fernandinho, em Itabirito, no ano de 1986, quando morreram sete pessoas. O segundo maior acidente foi em 2001, na barragem de Rio Verde, em Macacos, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, quando morreram cinco pessoas”. A postagem acompanhava um link direcionando para uma página online do jornal com o título: “Barragem de rejeitos se rompe em mineradora de Mariana; acompanhe ao vivo”.

Link disponível em:
https://bit.ly/3gHozyg

Em outra matéria, o jornal publicou em seu site um vídeo do jornalista Mateus Parreiras, mostrando os bastidores da reportagem. Ali é possível ver a saga de um repórter para trazer informações sobre o fato. Mais tarde nesse mesmo dia, com o auxílio de outros repórteres, foram publicados desdobramentos sobre o rompimento da barragem. Essa notícia possuía o título: “Avalanche de lama destrói distrito de Mariana após rompimento de barragem”. É mais completa e traz diversas informações e desdobramentos do dia 5 de novembro de 2015.

Notícia disponível no link:
https://bit.ly/2XNG5bD

Confira a entrevista:

Como estava a redação do jornal, em termos de rotina, no dia 5 de novembro de 2015?
Era um dia comum. Trabalhei mais cedo no caderno de cidades apurando uma matéria sobre o lixo deixado em espaços públicos que têm drenagens que costumam ser comprometidas com as chuvas e provocar alagamentos. Entreguei essa matéria e fui embora ficar com a minha família, mas estava tudo normal.

Qual foi a reação na redação ao receber a notícia do rompimento da barragem?
Eu não estava na redação. Soube pela TV do rompimento, por volta de 16h. O pauteiro do caderno de cidades me ligou e pediu para ficar de stand by. Eu pedi para que me mandasse a Mariana e dentro de 30 minutos já estava na estrada.

Como essa informação chegou ao jornal? Quais fontes?
Soubemos por meio da Defesa Civil Estadual e da apuração acompanhando a escuta de rádios e TVs que souberam antes.

Como o rompimento da barragem de Mariana quebrou a rotina da redação do jornal?
Foi necessário montar um esforço de reportagens para quem fazia a cobertura em Mariana, com o ingresso de jornalistas de outras editorias para permitir que ocorresse um revezamento. Enquanto isso, o restante fazia a cobertura em BH, com a Samarco, a Vale, o governo e outras fontes. Toda estrutura precisou ser adaptada com a frota sendo dividida para permitir envio e regresso de jornalistas, acesso a equipamentos para
produção remota, hospedagem e outros ajustes que praticamente criaram uma nova editoria específica para a tragédia. Por sorte a experiência da Copa do Mundo com as redes sociais tornou o trabalho mais rápido e as informações de campo em pouco tempo já estavam disponíveis.

Como ocorreu a seleção de repórteres que iriam até o local do ocorrido?
Os primeiros a ir foram os que estavam na redação no momento e que eram da editoria de cidades, mais acostumada a tragédias, meio ambiente, resgates, acidentes, crimes e etc. Me somei a eles, pois fui voluntário. Depois, para permitir um revezamento foram escalados repórteres de outras editorias. Mas a tragédia em si permitia que cada um explorasse os outros aspectos e impactos da devastação na cultura, no esporte, na economia, política etc.

Poderia relatar como tudo aconteceu ao receber a notícia do rompimento da barragem como repórter? Esteve presente no local? Se a resposta for sim, poderia explicar como realizou o trabalho? Dificuldades, soluções e sentimentos?
Quando soube do rompimento estava já em casa descansando, com meu filho de três meses no colo, recém operado de catarata congênita. Sabia que seria uma das grandes coberturas da minha vida e uma grande responsabilidade, mas não queria deixar meu filho, pois sabia que ficaria muitos dias por lá. Realmente foi mais de um mês praticamente morando no hotel de Mariana. Mas já que esse esforço foi necessário procurei trazer as melhores matéria, me propondo a cada dia tentar um furo, uma abordagem exclusiva, chegar a um local ainda não visto a um atingido isolado a uma história ainda não contada.

Qual foi a abordagem do jornal Estado de Minas sobre o tema? Havia uma diretriz editorial?
Coberturas longas como essa precisam ter uma boa amarração quando não há um destaque muito nítido no dia, para não perder a força mostrando sempre as mesmas coisas, o que tinha era uma amarração muitas vezes temática na capa do jornal e que se transformava no fio condutor que relacionava todas as matérias.

A cobertura em tempo real, com atualizações no site e no Facebook, foi uma forma de produção muito diferente em relação à rotina da redação? De que forma?
Foi, principalmente devido ao grande volume de informações que chegava e precisava ser filtrada e publicada. muito disso acabou se perdendo no tráfego de centenas de fotografias e informações enviadas pelas equipes e que a redação muitas vezes não teve tempo ou discernimento para aproveitar.

Mesmo a profissão tendo seus desafios diários, qual aprendizado você destacaria em relação ao dia 5 de novembro de 2015 para sua vida?
Ali eu não digo que aprendi, mas digo que foi a primeira vez que me vi obrigado a usar de forma intensa e célere tudo o que sabia e já tinha feito ou que sabia, mas nunca tinha feito. Tudo precisando ser muito rápido, da avaliação de uma situação para se tornar uma pauta à execução da produção, pois a concorrência era enorme, com repórteres do mundo todo investigando e percorrendo a mesma área atrás dos mesmos fatos. A exaustão mental e física ao fim de cada dia foi muito grande, além do expediente e atravessando muitas vezes a madrugada.