Transformações midiáticas na cena musical local

Foto: Daiane Giesen

Projeto Música Autoral aproxima produção jornalística
do contexto cultural digital

Por: Aline Pozzebon
Vídeos: Aline Pozzebon e Daiane Giesen

Desde as ranhuras nos discos de vinil  e a agulha do toca-disco que faz a leitura dessas ondas sonoras impressas, o meio pelo qual a música é reproduzida e consumida mudou muito.  Passou para o CD e, mais recentemente, ao streaming nas plataformas digitais. Nessa passagem do formato físico para o meio digital, o CD se perdeu,  ainda que o vinil tenha sobrevivido no mercado da música. 

Na reconfiguração do consumo musical, os lançamentos foram tomados por uma efemeridade provocada pelos singles semanais, como aponta Rodrigo de Andrade, produtor musical e proprietário do 180 Selo Fonográfico. Ainda que o espaço para produção e veiculação das músicas tenha se tornado mais democrático devido a uma facilitação proporcionada pela tecnologia, a experiência no consumo musical teve uma queda na qualidade da apreciação provocada por uma divergência no tempo disponível para consumir as músicas e o movimento de lançamentos. “Esse acesso irrestrito teve um efeito no sentido de que as pessoas pararam de se aprofundar nas obras, mantendo-se numa margem mais superficial daquilo que estão ouvindo”, complementa.

Gerson Pont é supervisor da Rádio UPF

Já Gerson Pont, supervisor da Rádio UPF, aponta que, com o streaming e a democratização do acesso às plataformas digitais, o rádio perdeu o poder de dizer o que é sucesso ou não, e o que é passível de ser reproduzido, ao passo que o usuário das plataformas digitais passou a ter essa independência. Além disso, aponta para a existência de nichos, que não viriam a ter espaço em meios tradicionais, como uma produção que utiliza as plataformas digitais para alcançar o público.

A produção musical e sua divulgação também reconfiguraram-se no meio digital. O acesso aos equipamentos necessários para a gravação musical se tornou mais acessível, além de ser possível dividir o mesmo espaço das plataformas de streaming com  artistas já conhecidos. Porém, no que diz respeito à divulgação, Rafael Spada, jornalista da Ghost Rádios, comenta que anteriormente, o caminho era mais claro: bastava estar presente em alguns meios tradicionais. Hoje, além disso, também é preciso ter material disponível no meio digital e nas redes sociais, plataformas que se diversificam cada vez mais. Porém,  complementa que “é preciso lembrar, no entanto, que se trata somente de um meio. Isso não importa tanto. O conteúdo, a música, permanece independente disso”.

Rafael Spada é Jornalista da Rádio Ghost.

O projeto Música Autoral

Nesse contexto de mudança dos meios, a linguagem multimídia tomou espaço, abarcando os meios tradicionais e as diversas plataformas e formatos do meio digital em processos de convergência. O projeto Música Autoral UPF, produzido por alunos do IX nível de Jornalismo da Universidade de Passo Fundo, foi construído sob essa narrativa transmídia: explora os formatos de vídeo, texto e imagens nas plataformas digitais e redes sociais e está presente no jornal impresso e nas rádios locais. O projeto aproximou-se da cena cultural pela produção de conteúdo com radialistas, produtores musicais e, por fim, com a gravação audiovisual de músicos com produção própria.

Na sua segunda temporada, o projeto trouxe os músicos Giancarlo Camargo e Gilmar Júnior ao Laboratório de Vídeo da FAC para realização das gravações nos dia 25 e 26 de junho. A produção de conteúdo transmídia, trabalhada desde o início do semestre, também esteve presente nos dias das gravações com equipes distribuídas entre a realização de material fotográfico, conteúdo para redes sociais, documentário dos bastidores e as gravações principais.

Devido à pandemia do novo coronavírus, o projeto precisou ser repensado para poder continuar. Entrevistas foram feitas de forma on-line, os encontros para planejamento também se deram virtualmente,  as gravações não tiveram público presente e as equipes tomaram cuidado com as medidas de segurança e distanciamento nas duas manhãs de gravação.

A Segunda Temporada do Música Autoral foi gravada durante os dias 25 e 26 de junho de 2019.

A cena em Passo Fundo

Desde os anos 90, Passo Fundo tem um histórico de bandas de rock que se destacam nacionalmente na cena musical, com uma exposição considerável e produção de qualidade, ainda que dentro de um contexto de gravação e distribuição distinto da lógica atual. Com o desenvolvimento das tecnologias de comunicação e facilidade de gravação, a partir dos anos 2000, o cenário começou a fomentar e crescer, conta Rodrigo de Andrade. Em 2006, especialmente, devido a um festival musical, o Armênios On Fire, com bandas autorais, as casas noturnas, no lastro do evento, começaram a abrir espaço para bandas com produção própria. Esse foi um momento de virada para Passo Fundo, porque permitiu que as bandas investissem em equipamentos e produção com o retorno financeiro, consequência da cena que tinha se estabelecido. Com isso, mais bandas foram surgindo. Porém, no decorrer dos anos, algumas coisas mudaram.

Passo Fundo, que  tinha os melhores cachês do estado, há cerca de cinco anos atrás, hoje carece de espaço para as bandas com produção autoral. Rodrigo aponta para um elemento decisivo para essa mudança: a reconfiguração na cobrança de ingressos. Com uma proposta de oferecer música de graça, dentro de um momento em que os músicos recebiam bem, alguns centros culturais levaram toda uma geração nova de público a não se renovar nesse padrão, mas a se reconfigurar dentro da ideia de não pagar a entrada ou pagar valores irrisórios. Ainda que democratize o acesso à produção cultural, mudou a cadeia financeira, que repercute de forma direta  na sustentação dos espaços e dos músicos.

Dentro da cadeia financeira sob a qual a produção autoral está submetida e os espaços físicos para os músicos também, Rafael Spada aponta que é preciso entender que há uma dependência da presença do público a fim de fomentar o consumo na cidade. Isso quer dizer que a presença do público determina a condição das casas noturnas em trazerem músicos com produção própria.

Nesse sentido, Rodrigo de Andrade expõe que é muito importante que os músicos busquem os meios tradicionais locais para a divulgação do seu trabalho e para chegar ao conhecimento das pessoas. Assim, e com a utilização das ferramentas disponíveis nos meios digitais,  é possível construir um público que vai ajudar a consolidar a cena e estar presente em uma possível reconquista dos espaços físicos nas noites passo-fundenses.

Rodrigo de Andrade fala sobre a nova possibilidade de lançamentos individuais no meio digital.