Onde a pandemia não deu as caras

Privilégio? Talvez. Sorte? Pode ser que sim. Viver no “fundo da grota” é entrar em isolamento social antes mesmo desse último termo virar conceito. É acomodar-se em um isolamento natural e proposital que faz bem à mente, ao corpo e ao coração. O nascer e pôr do sol, o canto dos pássaros, o oxigênio puro e o trabalho do campo alimenta a sensação de pertencimento dos moradores em relação ao próprio lugar de origem.

Já é de praxe, sair de casa somente para fazer o necessário, utilizando máscara, levando álcool em gel e mantendo o distanciamento entre pessoas. Essa realidade não chegou onde eu moro.

Percorrer a divisa das terras próximas de casa, tratar o porco, a galinha, as vacas, os coelhos, jogar futebol com os primos e vizinhos e sentar debaixo da sombra das árvores em companhia com a família são algumas atividades e lazeres que faço sem preocupações ou medo de tocar no inimigo invisível. Mas você pode estar indignado pela minha ignorância de não saber que as pessoas que moram perto de mim, com quem mantenho o convívio direto, podem ter trazido o Sr. Coronavirus de outro lugar. Eu concordo, evitaria isso se eles saíssem do interior durante o período em que a peste se alastra. 

O risco de transmissão está na vinda dos vendedores de bugigangas ou suplementos de animais. Às vezes, comparecem aqui sem permissão. Digo isso, também, para que eles não venham tirar o tempo e a paciência do pessoal interiorano. Eu lembro do momento em que uma espécie de vírus, ainda sem origem, estava se disseminando entre os habitantes da cidade de Wuhan, na China e o povo brasileiro dizia que “isso aí nem vai chegar aqui” ou “ainda bem que é lá, longe” ou “não demorará e a imprensa não comentará mais isso”. 

Já se passaram mais de seis meses desde que a Organização Mundial da Saúde declarou a pandemia de Covid-19, doença causada pelo novo coronavírus. São inúmeras mortes e milhões de casos em todo o mundo. E aqui, no interior do Rio Grande do Sul, a 10 km de distância da cidade de São José do Ouro, onde o mato é verdejante, onde a natureza mostra o que há de mais belo, a pandemia não deu as caras. A internet demorou para chegar até aqui. A conexão só invadiu casas, porque o desejo e a necessidade falaram mais alto. E pela nossa felicidade, o vírus delonga e rodeia ao longe nosso recanto. E só irá cruzar divisas se o descuido cochilar.

*Fotos: Emerson Heitor Carniel/Nexjor FAC-UPF