Um sucesso comunicacional chamado Vale Agrícola

Idealizadora do projeto, Aline Leonhardt, fala sobre a criação, evolução e futuro do programa jornalístico.

Foto: Arquivo pessoal

Com mais de 285 mil inscritos no Youtube, ultrapassando 800 mil seguidores no Facebook e presente no Instagram, o Vale Agrícola é um programa jornalístico voltado para o segmento agropecuário. Sua transmissão ocorre todos os sábados, ao meio-dia, no canal do Youtube e na página oficial do Facebook. As reportagens produzidas abrangem o Alto Vale do Itajaí, região localizada no centro do estado de Santa Catarina, além de outros estados brasileiros e países.

O programa é produzido e apresentado pela jornalista Aline Leonhardt, que concedeu uma entrevista falando sobre o início do projeto e como é realizada a produção. Essa entrevista compõe a pesquisa do trabalho de conclusão de curso do aluno Emerson Heitor Carniel, na graduação em Jornalismo da UPF.

– De onde surgiu a ideia de criar o Vale Agrícola?

Em 2013, acho que foi, o Facebook e Youtube e redes sociais, elas eram usadas apenas para compartilhar a vida das pessoas. E por ali, naqueles anos de 2012, 2013, começou a surgir o compartilhamento das notícias pela internet. Naquela época, eu criei uma página para compartilhar meus conteúdos. Então, eu trabalhava na TV e ia compartilhando e postando as reportagens ali e interagindo com o público. Começou a crescer, crescer e crescer, e ali por 2017, essa página já tinha mais curtidas do que a TV que eu trabalhava tinha de audiência. Porque aqui na nossa região, a TV que eu trabalhava atingia um público de 300 mil pessoas, só que mais da metade da pessoas não recebiam o sinal em casa e outra metade não assistia. E na época, eu estava com 190 mil seguidores no Facebook e eu já não estava me agradando muito com o sistema que se trabalha na TV, já não estava colando muito bem. Então, eu decidi que eu não queria mais trabalhar na TV e foi quando decidi abrir meu próprio negócio. Eu tive convite para trabalhar em outras emissoras em Blumenau, Florianópolis e até São Paulo. Só que eu não queria ir pra outra emissora e começar de baixo. Eu já tinha trabalhado tantos anos, já tinha sido tão difícil. Eu apresentava um programa de agricultura na emissora, eu não queria sair para ser repórter de jornal de novo. Eu queria estar no programa de agricultura. Então um amigo me disse: “Aline, porque tu não investe só na tua página”. Porque tinha um grande público ali e foi quando eu comecei a pensar e o que eu precisava para isso ser realidade. Foi um negócio assim: quero, vou fazer, como que eu faço, vamos testar para ver se dá certo. Então foi rápida minha saída e o início do Vale Agrícola.

– Como foi o processo de colocar o Vale Agrícola no ar?

A Vale Europeu é uma TV online de Rio do Sul/SC. Meu amigo falou para eles que eu tinha essa vontade (de criar o Vale Agrícola), cheguei e conversei com eles. Eles toparam fazer uma parceria. Eles produziam e veiculavam meu programa, além de passar nas redes sociais. Isso foi de abril até dezembro de 2018.

– Como você se tornou o seu próprio negócio independente?

Nessa virada de ano (2018 para 2019), eu decidi que eu ia assumir a produção completa do programa, porque eu queria muita qualidade, eu sou muito exigente.

– Existe alguma diferença de linguagem feita na TV em relação ao Vale Agrícola?

O programa que eu fazia antes na emissora era assim. O meu estilo de linguagem sempre foi assim. Não precisa falar palavra bonita ou palavra difícil para parecer que você sabe mais. Eu não uso palavra difícil no meus textos, é tudo palavra curta, palavra simples. Tem muita gente que pensa que porque é na internet é feito em um formato diferente, faz menor. Não. Eu sempre faço as reportagens do tamanho que elas rendem. Se uma matéria vai render 12 minutos, vai 12 minutos. Se ela rende um, vai um. O que não pode é ficar parado enchendo linguiça. É isso que eu tento fazer dentro das reportagens, não encher linguiça. O tempo que precisa para passar informação e pronto.

– Como as pautas são definidas?

Eu tenho uma lista de sugestões. Todas as pessoas que falam comigo, que entram em contato, que comentam nos vídeos, eu vou anotando nessa lista. Eu pesquiso bastante na internet, também. Eu gosto muito de fazer reportagem de turismo rural, então, eu entro no site das prefeituras, vou catando coisas que são de interesse. E se as pessoas não falarem para a gente, como que tu vai saber que tem alguma coisa legal? Então eu estimulo que as pessoas fiquem interagindo, mandando sugestões.

– O programa é todo gravado e só a transmissão é em tempo real?

Sim, é um benefício prático. Eu lembro que quando eu trabalhava na TV, eu tinha que exportar tudo e sábado ao meio-dia eu tinha que ir na TV para soltar o vivo na internet, porque não tinha esse negócio de você programar uma estreia. Você tinha que estar lá, se caía a internet, caía a transmissão. Hoje em dia não, tanto a Facebook como Youtube tem a estreia, tu carrega em alta qualidade, não depende de internet, depende da internet de cada pessoa. E poucas pessoas percebem que realmente não é ao vivo.

– Como você vê a evolução do Vale Agrícola e a transformação em um modelo comunicacional?

Uma coisa que eu acho muito engraçado, em 2018 quando eu comecei tudo isso, não se falava de influencer digital, esse termo eu acho que nem existia ainda. E quando eu disse para os meus pais que eu iria trabalhar para a internet, eles quase me colocaram num sanatório, porque ninguém nunca tinha feito. E tu vê que só faz dois anos e meio. Claro, hoje deve existir outros programas até em outros segmentos que acabaram se inspirando no Vale Agrícola, mas a gente foi praticamente pioneiro nesse sistema. Na época, foi uma coisa que só eu vi, nem os patrocinadores não viam isso. Eu bati na porta de muitas empresas e eles diziam assim: “Tá, mas não passa em nenhuma emissora de TV?”. Eu não digo que esse é o termo, nós não somos influenciadores digitais, não chega a ser bem isso. Mas é um novo modelo de comunicação que qualquer pessoa pode ter o seu próprio canal, que não depende de uma concessão, não depende de dinheiro, só depende de bom conteúdo. 

– Quais são os objetivos para os próximos anos?

Eu ganhei a placa dos 100 mil inscritos em dezembro (2019) e ela chegou em janeiro. Esse ano está quase chegando em 300 mil, então dobrou, em um ano dobrou. Daqui um pouco, eu espero estar recebendo a placa de um milhão no Youtube. Daí é um prêmio muito bacana, esse é meu foco. Foco dos próximos tempos é crescer no Youtube que é uma rede social que não se acaba. Tão dizendo que Facebook está morrendo, mas eu ainda cresço no Facebook muito, muito, muito. Quer dizer que é um lugar em que as pessoas de idade procuram conteúdo. Quero entrar no Tik Tok também, começar a criar conteúdos curtos. A gente tem que ficar de olho no que está indo embora e o que vem a seguir.