“Cuidem, preservem, pensem no futuro”, diz alpinista brasileiro

por Nathan Breitenbach

Os brasileiros estão na Antártica há 39 anos. Nesse tempo, o país – que se soma ao restrito grupo de 29 nações presentes no inóspito continente – tem ajudado a construir, ao lado de muitas mãos, importantes resultados na área científica.

A tarefa recai sob ombros preparados e profissionais especializados. O alpinista de apoio científico, Luiz Cláudio Lopez De La Nieta Sant’ Anna é um deles. Contratado pela Marinha do Brasil através do Programa Antártico Brasileiro, o paulista de 49 anos já esteve seis vezes no continente gelado e revela, em entrevista exclusiva concedida direto da Inglaterra, onde reside há dois anos, bastidores e aprendizados das viagens e faz um alerta: o degelo tem aumentado muito nos últimos anos. Confira os principais trechos do bate-papo:

Paixão pela Antártica

Por ser um lugar longínquo e de difícil acesso, a Antártica é um sonho e, ao mesmo tempo, o auge do alpinista, diz Sant´Anna. Segundo ele, o desejo de conhecer o segundo menor continente do globo, com 14 milhões de km², teve início quando recebeu convite de uma entidade que tinha parceria com a Marinha, em 2013. Após ser selecionado, o que era lazer e esporte virou profissão. “Foi tudo muito rápido. Quando vi, já estava atuando como alpinista profissional, dando suporte às pesquisas científicas no continente antártico”, explica. 

Hoje, Sant’Anna é responsável pela segurança e deslocamento de pesquisadores e militares, tanto na Estação Antártica, quanto nos navios. Cabe ao alpinista, ainda, gerenciar os acampamentos. 

Deslocamento

Luiz Sant’Anna conta que o transporte até a Antártica é realizado pela Força Aérea Brasileira e pela Marinha do Brasil (através de dois navios: Almirante Maximiano (“Tio Max”) e Ary Rongel (“Gigante Vermelho”)). 

Para quem vai pelo ar, a partida é no Rio de Janeiro, com embarque na Aeronave C-130 Hércules, que transporta pessoas e cargas. O voo segue até Pelotas-RS, fazendo uma escala na vizinha cidade de Rio Grande-RS com o objetivo de finalizar os cuidados com as vestimentas especiais para o frio congelante, realizada na Estação de Apoio Antártico (ESANTAR). Depois, a equipe se desloca para Punta Arenas, no Chile, onde aguarda o momento da travessia que leva cerca de duas horas e meia, até a Antártica, o que depende do tempo, ou seja, da “janela”, no jargão marítimo.  

Finalmente, o avião pousa na Base Militar Chilena na Antártica- um suporte importante. Após desembarcarem, pesquisadores, cientistas, civis e militares, vão para acampamentos, ficam nos navios ou permanecem na Estação Antártica Comandante Ferraz, conhecida também como a “casa” do Brasil na Antártica, localizada na ilha do Rei George, Baía do Almirantado.

“Pesquisa é futuro”

Sant´Anna, que retornou da Antártica em março do ano passado, observa que o cenário de pandemia evidencia, cada vez mais, a importância da ciência para a prevenção. Neste momento, apenas militares estão no continente gelado. Sob esse aspecto, pontua que as pesquisas feitas na Antártica estão inseridas no Proantar, que em 2021 completa 39 anos de atuação. Além disso, as informações e dados são compartilhadas com o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT) e a Fiocruz. Entre os assuntos pesquisados estão clima, biotecnologia, arqueologia e análise do DNA. Por tudo isso, o alpinista brasileiro, que também já lecionou como docente dos Departamentos de Geografia, História, Turismo e Educação Física da UniAn – Universidade Anhanguera (campus Vila Mariana, ABC, Morumbi, Campo Limpo e Santana) reforça: “é preciso respeitar, agradecer e reconhecer que a ciência é um investimento”.

Um dos trabalhos acompanhados por ele foi o de monitoramento das geleiras por meio de drone na Península Keller, próxima da Estação Brasileira, realizada por um físico da área de climatologia e um pesquisador de solos. “As geleiras retraíram bastante nas minhas últimas idas até a Antártica”, pontua, preocupado. 

Pesquisas começam no embarque

As pesquisas, preferencialmente realizadas no Verão, começam logo que os navios saem do porto, no RJ. “Muito estudo é realizado ainda no mar por profissionais da Paleontologia, Biologia e da Saúde”, diz Sant´Anna, que completa: “Durante os seis meses da Operação Antártica (Operantar), onde participam em média 100 pessoas, é feito uma espécie de “rodízio” entre os projetos das equipes, o que permite domínio maior de possíveis causas”. 

Você sabia? 

A Antártica não permite a exploração comercial.

Dificuldades

O maior desafio em um ambiente confinado e frio, no caso da Antártica, é a convivência com as pessoas, conta sem rodeios Sant´Anna. Às vezes é preciso que o grupo aguarde dias dentro de barracas – com breves saídas para comer ou fazer necessidades físicas. Aliás, esqueça o conforto do dia a dia. O banheiro, por exemplo, é um vaso sanitário de plástico que acumula os dejetos, que depois são colocados em um recipiente maior que retorna ao Brasil.

Num lugar onde as temperaturas beiram -45°C, o tempo é outro grande vilão, responsável por determinar o momento em que as saídas a campo são realizadas. 

Para lidar com tudo isso, o alpinista ensina: é fundamental buscar nutrir um bom relacionamento entre pesquisadores, militares, alpinistas e os demais membros da jornada. 

Curiosidades

# Sabe aquela ducha quente e agradável no frio? Pois é. No continente gelado, o banho fica a critério de cada um: ou você usa o famoso lencinho umedecido, ou improvisa e esquenta água para despejar no corpo com uma canequinha.  

# Na Antártica, não existe rotina – justamente pela troca de experiência com diferentes pessoas e pela diversidade de ambientes, que depende de cada trabalho. “Sempre têm um momento que você precisa se desenrolar e dar um jeito para resolver algum problema”.  

# A Operação Antártica é realizada em diferentes épocas do ano. Sant´Anna já chegou a ficar de 21 a 45 dias no continente. Por outro lado, militares do Grupo Base permanecem um ano na Estação Brasileira. 

# A Marinha do Brasil dispõe toda a estrutura e logística, de parafuso até um gerador de energia.  A alimentação, também fornecida, é basicamente o que se tem em casa, com exceção de produtos frescos por uma questão de durabilidade. 

Ensinamentos 

É quase impossível ir para um lugar tão isolado do Planeta sem ‘voltar diferente’, avalia o alpinista. A capacidade de resiliência, por exemplo, é irmã siamesa do território que tem 90% de sua área coberta de gelo. Ainda, Antártica é o único continente preservado, onde a interferência do ser humano não é, por ora, tão impactante. No fim de 2020, porém, a ‘humanidade’, acabou levando a Covid para o único continente que ainda não tinha sido contaminado, relata o alpinista, alertando ao cuidado e à necessidade preservação do local. 

“Cuidem, preservem, pensem no futuro” 

O que pode desaparecer 

Santan’Anna acredita que alguns lugares, principalmente as praias, podem desaparecer ao longo dos anos devido a influência do clima. Ele explica que existe a possibilidade disso acontecer nos países sustentados por permafrost ou pergelissolo- tipo de solo encontrado na região do Ártico, constituído por terra, gelo e rochas permanentemente congeladas. Até mesmo os pesquisadores entram em conflito quando o assunto é a ação do homem no clima, ou este ser um processo natural, causador do aquecimento global. 

No mês de janeiro começa o degelo na Antártica. De 2013 a 2020, o alpinista observou uma mudança importante em um trecho de montanha que costumava acessar na Península Keller, chamado Pico Norte: “o gelo está recuando de uma forma muito mais rápida. Fiquei até assustado, pois nunca tinha visto daquele jeito”.

Saiba mais 

Formado em Geografia pela UNIFAI-SP e pós-graduado em Arqueologia, Gestão em Patrimônio e Cultura; e Esportes e Atividades de Aventura, Luiz Cláudio Lopez De La Nieta Sant’ Anna também já realizou diversas travessias pelo continente antártico, além de escaladas no Peru, Bolívia, Argentina, Chile, Equador, Venezuela, Colômbia, Espanha, Estados Unidos e outros países. 

Destacando as principais montanhas: Aconcágua 6.962m, Calbuco (2.015m), Llaima (3.125m), Tronador (3.554m), Lannin (3.750m), Villaricca (2.800m), Osorno (2.652m), Pico Austria (5.290m), Pequeno Alpamayo (5.370m), Tarija (5.200m), Huyana Potosi (6.088m), Sajama (6.542m), Chimborazo (6.310m), Cotopaxi (5.500m), Plata (6.050m), Vallecittos (5.570m), Rincon (5.280m), Pomerape (6.242m), Parinacota (6.348m), Acotango (6.053m), Pico Norte (300m) e Pico da Cruz (288m) e outros. Além das principais rotas de montanhas e as vias de escalada em rocha pelo Brasil.