Será que vamos conseguir vencer?

Ciência, arte e jornalismo. É tempo de resistir ao caos e continuar a lutar contra os monstros que não são mais da nossa imaginação.

por Tainá Binelo e Vanessa Ritter
supervisão de Sônia Bertol

A ciência em si

Até então, nunca a frase “a ciência salva” tinha sido tão dita. Nunca houvera tanto a necessidade da sua repetição. E se falam por aí que pela repetição se aprende, no Brasil está cada dia mais difícil crer nesta tese. A crescente desvalorização da ciência é notada por dados gritantes, principalmente quando falamos sobre verbas. Segundo estudo realizado pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), o orçamento disponível para Ciência, Tecnologia e Inovação (CT&I) vem sofrendo uma queda vertiginosa desde 2015. 

Durante a pandemia, o valor que deveria ter sido aumentado para investir ainda mais em pesquisas, diminuiu 34% de 2020 para 2021. Enquanto o mundo suplica por socorro que apenas a ciência pode dar, os seus investimentos são desviados e colocados em tratamentos precoces ineficazes – R$90 milhões -, aumento de salário de parlamentares, e outros gastos supérfluos.

A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) é uma das instituições afetadas por este descaso. Uma das principais fabricantes de vacinas para Covid-19 no Brasil, a Fiocruz necessitou pausar em inúmeros momentos a fabricação das mesmas por falta de insumos, não comprados pelo Governo Federal. Mesmo em meio ao período turbulento, a Fundação não desiste da sua missão de aproximar ciência e população. 

Como principais ações para isso, a instituição aposta na educação para a divulgação e disseminação de informações científicas de forma leve e de fácil acesso a todos os nichos. Alguns dos cursos com esses propósitos são, por exemplo, o de “Introdução à Divulgação Científica”, livre para todos os públicos, gratuito e à distância. Além disso, a Fiocruz também tenta interagir com as populações mais abastadas e com menos conhecimento sobre a área usando de ações criativas. 

Você já imaginou se informar sobre ciência por meio do rap? Essa é a proposta da instituição com o projeto “Rap e Ciência” que vem sendo realizado desde 2018. Nele, assuntos importantes como saneamento básico, doenças como dengue, zika, chikungunya, ISTs, drogas e muitos outros temas são abordados. É a união da música, a linguagem universal da humanidade, como a nomeava o poeta Henry Wadsworth, com a ciência, o coração do mundo, segundo Maksin Gorki, escritor. 

Da mesma forma, uniremos as duas nessa reportagem, sendo ela levada pelas melodias das músicas brasileiras, valorizando ciência, cultura e música. Os versos de “A ciência em si” de Gilberto Gil nos lembram que: 

“A ciência não se ensina
A ciência insemina
A ciência em si”


A ciência insemina a vida. 

Lendo atingi o bom senso

Leonardo da Vinci: cientista, matemático, inventor, anatomista, pintor, escultor, arquiteto, botânico, poeta e músico. Um homem com visão holística, inúmeros interesses, distintas ciências. É impossível vivermos em um universo sem pensar em multidisciplinaridade. Um indivíduo, por si só, sua persona, é múltiplo. Se nós como universo pessoal somos múltiplos, imagina uma sociedade. 

Alexino é professor da ECA-USP

É por isso que da Vinci não seguia apenas uma ciência e também, o professor do Departamento de Jornalismo e Editoração da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, Ricardo Alexino Ferreira, acredita na multidisciplinaridade. No entanto, para Alexino, antes de falar em ciência, é necessário ter uma percepção do que se trata. Ele considera a ciência como um patrimônio da humanidade e deve ser preservado a todo custo. Além de sua importância, é preciso repensar o que é o termo ciência, e para isso, daremos uma volta na história.

Na segunda metade do século XIX a ciência para a sociedade já era identificada com a Europa. Na sociedade brasileira, uma sociedade escravocrata em que a elite queria ser vista como europeia, tudo aquilo que era tratado como popular, era algo ruim. Nesse momento, na Europa existiam dois paradigmas em alta: o positivista e o evolucionista. Enquanto os europeus discutem a forma de pensar os métodos científicos e os processos de evolução, a elite brasileira traz os paradigmas ao Brasil e ajustam as teorias para justificar o modelo de sociedade escravizada onde eles mantinham o poder. Assim introduz Ricardo, para que quando falamos de ciência na história do Brasil, estamos falando de uma ideia de manutenção do status de uma determinada classe social, no caso, a elite.

A crítica de Alexino à ciência é a existência de uma visão eurocêntrica dela. “A gente precisa repensar. Ciência não é um patrimônio somente de construção de europeus. Ela é um patrimônio mundial e dos diferentes povos.” 

Pelo fato da elite ter um acesso maior ao que a ciência produz, de acordo com o professor, temos uma não democratização da ciência. “Aqueles que estão produzindo e podem pagar têm maior acesso à produção científica.” Isso explica a produção da vacina, em que os países mais ricos possuem condições de pagar por ela. 

“A ciência não deve estar acima do bem e do mal”, diz Ricardo. Ela deve ser regulada pelos processos éticos, é importante para a compreensão dos fenômenos e deve estar dentro de todos os níveis de educação – não só nas universidades e laboratórios. O papel da ciência, para o professor, é produzir um mundo melhor e para todos. “Vejo muito a divulgação científica dentro desse aspecto. Não como algo exótico, cientista maluco.” Ele ainda diz que tudo é uma metodologia e é preciso trazer a ciência para o cotidiano. “Meu pensamento de ciência é olhar tudo como um pensamento científico.”

Para Alexino, o jornalismo científico não será mais valorizado depois de seu trabalho na divulgação científica relacionado a pandemia, isso porque, a imprensa ainda é muito imediatista e somente traz aquilo que está no consenso coletivo brasileiro. Quando Alexino pensa na formação da divulgação científica, ele pensa em um nível de contextualização nas bagagens científicas dos estudantes e não somente “ir cobrir ciência.”

O professor destaca que a ciência é uma capacidade das pessoas ressignificarem todas as coisas. Assim que entendermos de onde ela vem, quem a produz, qual a importância de suas metodologias diversas no dia a dia, podemos cantar como diria o majestoso Tim Maia em “Bom-Senso”, 

“Já fiz muita coisa errada, 
já pedi ajuda, 
já dormi na rua, 
mas lendo atingi bom senso.” 

Você não escutou, você não quer acreditar 

É necessário que a ciência esteja presente na vida das pessoas. Seja para estudar embriões ou para criar uma boia salva-vidas, como da Vinci. 

Desde 1989 nos Estados Unidos, o médico cardiologista Carlos Eduardo Siqueira, saiu do Brasil para realizar seu mestrado. Formado em Medicina na federal do Rio de Janeiro, quando foi ao país americano Carlos já tinha cerca de 10 anos de experiência profissional e decidiu seguir sua carreira em saúde pública. A carreira de Carlos Eduardo foi de pesquisador para professor na Universidade de Massachusetts ao longo dos anos, a qual estudou e foi contratado, fazendo assim toda sua carreira no local. Depois de iniciar também um doutorado, o médico começou a fazer pesquisa e se dedicar à produção de ciência. 

Carlos Eduardo Siqueira reside nos EUA desde 1989

De acordo com Carlos, praticamente tudo que ele tem feito nos últimos 20 anos tem sido novidade: geração de conhecimento, dados e novas informações. Ao longo dos anos suas pesquisas ampliaram dentro da saúde pública. “Isso me fez, ao longo dos anos, contribuir com o que a gente chamaria de ciência. Não a ciência básica, de laboratório, mas a ciência aplicada, com uma mistura de ciências sociais com a parte biológica.”

Por conta de sua formação em medicina, o pesquisador navega na interseção com a ciência. Para ele, as ciências abarcam uma variedade muito grande de temas, não havendo motivos para considerar a ciência somente como laboratório. Carlos, em sua carreira, também sempre procurou colaborar com colegas brasileiros empenhados em algum conhecimento novo e fazer uma espécie de trabalho a nível “lá e cá.” No contexto pandêmico, o médico buscou gerar um conhecimento na comparação do que ocorreu nos Estados Unidos e o que ocorre no Brasil na questão das vacinas, pandemia, comportamento perante ao vírus e fake news, por exemplo. 

Assim como retrata a música “Paisagem da Janela”, do LP Clube da Esquina: “Você não quer acreditar; Mas isso é tão normal”, o pesquisador destaca um fenômeno nos EUA quanto à descredibilização da ciência, quando o último presidente, Donald Trump, se comportava como inimigo da produção de conhecimento. “Ele a todo momento descaracterizava a ciência como sendo importante e dizia qualquer quantidade de mentiras e de afirmações que não tinham base científica.” Ainda antes da pandemia, protestos aconteceram nos Estados Unidos quando foram reduzidos fundos de várias das agências de ciência que financiam as pesquisas. “Isso começou muito antes da pandemia, e durante a pandemia se tornou um desastre completo, porque ele começou a utilizar argumentos, inclusive propondo terapias para a população – que o Brasil também repetiu com a Cloroquina, o chamado “tratamento precoce”, e foi feito um trabalho sistemático de descaracterização do que a gente sabe que é científico”, disse.

No combate às desinformações, a imprensa cumpriu um trabalho fundamental de desmascarar a base científica do que eles diziam. Quando se fala em ciência, para Carlos, tem-se o pensamento de que a ciência é neutra e que ela é uma só, porém, as incertezas da pandemia abriram caminho para pessoas afirmarem coisas sem evidências. “A imprensa cumpriu um papel importante de dar voz aos cientistas que de fato tinham feito as pesquisas à medida que elas foram aparecendo.” 

No entanto, na área da saúde é fundamental que existam vários estudos que mostram uma certa tendência e confirmação para se ter mais certeza. Muitas vezes, de acordo com Carlos, “os jornalistas não entendem ou não têm suficiente informação sobre isso, para poder deixar claro o que a pesquisa mostra e qual é o grau de certeza.” Ele ainda lembra que para isso, toda a pesquisa em relação a um assunto novo tem que levar em consideração: qual é o grau de certeza, e até onde essa entrevista pode ter sido causada apenas pelo acaso – das associações feitas entre uma ação e outra, pode ter sido apenas um acaso.

Ainda como segue a canção de LP Clube da Esquina, o “mensageiro natural de coisas naturais, quando eu falava dessas cores mórbidas, quando eu falava desses homens sórdidos, quando eu falava desse temporal, você não escutou”, a pandemia acentuou um distanciamento entre população e ciência. Isso significa que “na hora que a população precisa de informação científica que ela pode confiar, se o cientista não se mostra com toda a sua dificuldade, com toda a sua capacidade, com toda a sua clareza, e se não tem também uma forma de comunicação que seja compreensível para população, fica difícil essa comunicação”, ressalta Carlos Eduardo.

Essa deficiência na comunicação entre pessoas e cientistas fez com que a arte se tornasse fundamental no que diz respeito a transformar o conhecimento científico em uma maneira que as pessoas entendam – bem como uma tradução. Isso pode ser, e vem sendo feito, através de metáforas, animações, e todo tipo de uso que não seja só a informação dada do ponto de vista da leitura. “Nem o jornalista tem treinamento pra entender a ciência, nem o cientista tem treinamento pra informar corretamente e de uma maneira clara o que a população tem que saber. Então, essa deficiência na pandemia deixou claro que dos dois lados há muita dificuldade.”

A coleção de contos foi vencedora do Prêmio Pulitzer de melhor ficção em 2000.

A intenção de fazer com que mais pessoas entendessem o que vinha da ciência, fez com que o médico considerasse uma situação nova na pandemia, e que, provavelmente, criou muitas oportunidades para que todos pudessem ter uma conversa de fácil entendimento.

 Bem como o artista e cientista Da Vinci, que não restringiu demarcações entre anatomia e música, por exemplo, e nos dá a liberdade de sermos multidisciplinares relacionando a obra de Jhumpa Lahiri, “Intérprete de Males”, que explora o território entre duas culturas distintas, com a ciência. O livro, formado por contos, possui um deles que dá título a esta coletânea, que trabalha com um médico o qual precisa atender pacientes os quais falam os mais variados idiomas. A arte então contribui na tradução dos duros artigos científicos. Na pandemia, se tornou indispensável interpretar os males da medicina de uma maneira que todas as línguas, culturas, sexos, faixas etárias, entendessem.

Tô com sintomas de saudade

Já na área de assessoria de imprensa de um hospital, que trabalha com a comunicação ligada à ciência, também enfrentou – e enfrenta –, um período de descredibilização da informação. A possibilidade de utilizar as redes sociais como fonte noticiosa e desconfiança em volta da mídia, causou um impacto muito grande para a comunicação como um todo, de acordo com a jornalista e assessora de imprensa do HSVP, Caroline Silvestro.

Há oito anos na comunicação do hospital, Caroline teve que, desde o início da pandemia, desmentir informações falsas que se espalharam pela cidade. “A gente passou por um período desmentindo fake news em vez de produzir conteúdo, era tanta informação falsa que chegava, que tivemos que ficar respondendo essas questões e amenizar de alguma forma essas informações para não criar um caos”, comentou.

Caroline é assessora de Comunicação do HSVP

Um fator que fortaleceu a desinformação, acredita-se que no mundo todo, foi o fato de que a COVID-19 era uma doença nova e pouco se tinha sobre ela. Ainda não haviam dados científicos embasados, e o cuidado dentro, e de dentro para fora do hospital, teve que ser muito grande, já que nenhuma verdade era absoluta, precisa e embasada. 

Por este motivo a assessoria do HSVP focou em uma pessoa para se responsabilizar pelas informações para que não houvesse um desencontro de situações, como canta Marisa Monte em “A Sua.” Inspirando-se no verso “eu só quero que você ouça, a canção que eu fiz pra dizer”, as informações ficaram centralizadas em um especialista. “a sua pessoa”: um infectologista responsável pelo comitê da COVID-19, que teria esse conhecimento sobre o vírus mais preciso ou mais atualizado. “A gente precisava que a população entendesse a situação complicada. Era algo que de um dia para o outro mudavam as situações e tinha todo um contexto de informações que circulavam e que não eram verdadeiras”, disse Caroline.

Em relação aos dados da pandemia, acredita-se que o que aconteceu foi uma banalização pela maioria das pessoas. Logo no início da pandemia, o HSVP criou um boletim referente aos casos de COVID-19, porque entendeu-se que era necessário divulgar informações dos pacientes internados com o objetivo de transparecer a dimensão do que estava acontecendo. 

Conforme o andar da pandemia, cada vez mais estudos detalhados surgem sobre a doença. A assessora acredita que há uma dificuldade da sociedade em querer entender, pois para ela, a grande maioria dos veículos têm buscado fontes científicas e especialistas que trazem pontos e contrapontos. Para Caroline, é fundamental divulgar o que está sendo pesquisado. “Com o hospital a gente conseguiu de alguma forma levar essas informações para que acreditassem mais, mas a gente sabe da importância dos veículos para outros estudos e comprovações.”

“Quem pouco pensa, muito erra”, como diria da Vinci. Outra situação que gera a descredibilização e o negacionismo, é a polarização e politização da COVID. O negacionismo e a deficiência no pensamento criam uma barreira a ser enfrentada e o cenário torna-se difícil de mudar. A polarização, para a jornalista, faz com que as pessoas entendam as informações da forma que elas querem. “É uma questão que a população não quer entender. Informação sobre saúde é algo que impacta diretamente na vida das pessoas. Se, de 10 pessoas, cinco acharam a informação relevante, como lavar as mãos, já são cinco vidas que a gente conseguiu salvar.”

Com objetivo de resgatar a confiança das pessoas na comunicação, a jornalista acredita que o caminho seja a busca de fontes especializadas que sejam a favor da informação e não da polarização, para que elas sejam como “as nossas pessoas”. “Quanto mais estudo a gente tiver, podemos dar a informação mais clara e mais precisa. As pessoas têm que saber que a ciência está buscando avaliar, estudar e entender o que está acontecendo. Se eles não forem capazes de dizer isso, não vamos ser nós. São eles que podem trazer a informação coerente.” 

A vida é tão rara 

FOTO WILSON: LEGENDA: Além de jornalista e professor da USP, Wilson Bueno atua em duas grandes áreas: Jornalismo Científico e na área de Comunicação Organizacional e Empresarial. 

“Enquanto o mundo vai girando cada vez mais veloz, a gente espera do mundo e o mundo espera de nós, um pouco mais de paciência”, é o que canta Lenine, em “Paciência.” Para o jornalista, professor da USP, Wilson Bueno, o Jornalismo Científico é essencial quanto ao que a gente espera do mundo. É uma atividade que faz o trabalho de divulgação de ciência, tecnologia e inovação via meios de comunicação de massa, segundo os critérios de produção do sistema jornalístico. 

Dessa maneira, em contexto com a democratização da informação, o Jornalismo Científico se tornou mais que fundamental em tempos de desinformação, protagonizado, segundo Wilson, “ou por pessoas mal intencionadas, ou por pessoas que, na verdade, têm informações equivocadas ou imprecisas.”  No caso da pandemia, isso acarreta prejuízos à população, que é sensibilizada a utilizar medicamentos que não têm eficácia e posturas erradas com respeito à prevenção da COVID-19, por exemplo.

Wilson Bueno é pesquisador e professor da USP

Sobre o jornalismo aliado à ciência, o pesquisador desta vez relata uma grande competência na cobertura da pandemia pela grande imprensa, encontrando nos próprios veículos, jornalistas com especializações e muitas vezes, outras formações numa outra área de ciências. “É muito comum encontrar na Folha, no Estado, nas revistas Superinteressante, Galileu, nos portais das universidades, jornalistas que têm uma formação especializada que, portanto, cobrem de maneira qualificada a área de ciência, tecnologia ou inovação, em especial a área de saúde, epidemiologia, infectologia, nesse momento. Além disso, a gente tem podido contar, nessa divulgação agora, com a participação de cientistas, de pesquisadores que vieram se somar ao trabalho do jornalista”, destaca Bueno.

A informação qualificada por esses veículos é fundamental e deve ser baseada em fontes fidedignas, se contrapondo à “avalanche de fake news”, que para o jornalista, “são geradas por pessoas que são mal-formadas, mal-informadas, e difundido, inclusive, pelas fontes oficiais.” Sendo assim, o jornalismo ativo e comprometido tem o importante papel de ajudar a esclarecer informações à população. Por este motivo, muitos sistemas surgiram com o intuito de desmentir informações falsas, como o sistema de fact checking, desenvolvido em vários veículos, associações e entidades. “ Isso tem contribuído bastante pra gente reunir esforços no sentido de denunciar, desmascarar, esclarecer informações que circulam por aí de maneira não correta.”

Apesar de sistemas, grandes emissoras de rádio e televisão e portais que contribuem na informação à população, muitas pessoas não têm acesso a esses programas. Wilson acredita que o ideal seria um trabalho de divulgação científica junto às comunidades – uma política pública – , pois existem sim pessoas que não consomem jornalismo e não estão sendo atingidas pelas informações. “Quando eu converso com alguns colegas, filho, sobrinho, etcetera, estão completamente desinformados. Ficam à mercê das notícias que chegam pelo WhatsApp, pelo Instagram… E informações quase sempre, sobre esses assuntos, completamente falsas. Por isso tomam remédios, por isso não se protegem, por isso confundem afastamento, lockdown, com feriadão, e assim por diante, né [risos].” 

“A vida é tão rara” para continuar com o negacionismo, como ressalta Lenine.“Será que é tempo que lhe falta para perceber? Será que temos esse tempo pra perder?”.

Resistir é mais um passo de dança 

Ao trabalhar como assessora de imprensa de uma instituição de ensino superior, a jornalista Carol Simor encontra-se diariamente em uma fonte de pesquisas e ciência. A necessidade de comunicar essas áreas ao público externo a levou a buscar também novos conhecimentos. Em 2013, Carol realizou, com suporte da Universidade de Passo Fundo (UPF) onde trabalha, uma Especialização em Jornalismo Científico na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) em São Paulo. Desde lá, ela vê o quão imprescindível é a compreensão e a comunicação assertiva sobre o tema. 

Os 18 meses de imersão no novo mundo ensinaram a jornalista que a busca por conhecimento deve ser constante. “É muito importante buscar conhecimento específico para compreender melhor a construção, apuração das informações, construção dos textos e os desafios que são impostos pela área”, apontou a comunicadora que atua há 10 anos na assessoria da Universidade. 

Carol Simor é especialista em Jornalismo Científico pela Unicamp

Dar visibilidade aos pesquisadores é uma das principais atividades desempenhadas pela jornalista dentro da Instituição. Devido aos longos anos de eficiência na tarefa, hoje existe uma troca natural de informações, além de confiança dos profissionais em repassar as pesquisas para Carol. “Sempre digo que aqui na UPF não trabalhamos com jornalismo científico, mas com a divulgação científica. A ciência é nossa aliada e aqui temos um universo de possibilidades nas mais diversas áreas”, afirma. 

Tendo contato direto com ciência, Carol também consegue enxergar as dificuldades enfrentadas pelos profissionais. Em tempos de negacionismo, falar sobre ciência é ainda mais necessário! Precisa-se lutar pelo que canta Cervelet, “o pouco que foi conseguido, os direitos que foram conquistados, muitos deles tão pouco aplicados”.  “Vejo que, mais do que na época em que me especializei, o jornalismo científico e a divulgação científica são fundamentais.  Muitos profissionais da área foram buscar novas ferramentas para chegar cada vez mais perto das pessoas, com uma linguagem fácil, simples, direta e de forma clara. É cada vez mais importante que jornalistas e cientistas trabalhem juntos e busquem, sempre que possível, aprender mais e se inserir mais em espaços ocupados por pessoas sem a devida qualificação”. 

“A realidade atual e o poder das redes sociais na formação e orientação das pessoas trouxeram benefícios, mas também muitos desafios, tanto para jornalistas quanto para cientistas. As fake news, os espaços ocupados por pessoas sem o devido conhecimento e uma realidade de enfrentamento de descrédito aos meios tradicionais de informação (como jornais, emissoras de tv, rádios e revistas), permitiu que a desinformação se tornasse realidade. A pandemia expôs como a sociedade pode ser manipulada e mostrou com números assustadores, como isso é prejudicial para todos”, conta Carol.

Assim como a arte, a ciência precisa resistir. Assim como na música de Cervelet, “resistir é nutrir a esperança, resistir é travar a batalha, resistir é mais um passo na dança, dançaremos no fio da navalha”. Juntos nessa valsa, dança e comunicação continuam a bailar pelo seu lugar de direito. “A pandemia fez com que os veículos de comunicação também fossem buscar essa inserção na comunidade, produzindo conteúdos descomplicados, de fácil leitura, permitindo, com isso, que a sociedade pudesse não apenas ler, mas entender o que está sendo feito. Vejo que temos muitos desafios a superar, principalmente no que tange a disseminação de mentiras via redes sociais, mas acredito que isso também faz parte da evolução da sociedade e sinto que, tanto jornalistas quanto cientistas são dois dos grandes protagonistas dessa nova realidade”, finaliza Simor. 

Vou voltar, sei que ainda vou voltar 

Será que a ciência ainda voltará ao seu lugar de valorização assim como o personagem da música Sabiá de Chico Buarque? Se em suas letras ele cantava “vou voltar, sei que ainda vou voltar, para o meu lugar, foi lá e é ainda lá”, será que esse lugar poderia ser o de uma ciência priorizada no Brasil? 

Se para Chico é difícil esquecer a destinatária da música, para os governadores é fácil esquecer da ciência. Quando precisa-se escolher uma prioridade, ela é sempre deixada de lado. Este medo e incerteza rodeiam a rotina dos cientistas todos os dias. Não sabendo o futuro da sua profissão, eles sentem-se inseguros. Mas, uma brecha de esperança ainda os guia, não os deixando desistir. “O grande papel da ciência no Brasil agora é resistir!”, pontua o Professor na Universidade de Passo Fundo (UPF) e doutor em Ciências Biológicas, Leonardo Gil Barcellos. 

Leonardo atua em diversos grupos de pesquisa na instituição e fora dela. Como pesquisador, ele entende que o baixo nível de letramento científico da população é o principal responsável pela descrença na pesquisa. Enquanto todos os outros países do mundo conseguem enxergar a sua importância, o Brasil continua a se guiar por fake news e tratamentos não eficazes. “A gente precisa acreditar em algo, e a ciência para a grande massa do país não é algo confiável. As redes sociais, os pastores, os políticos, são mais”, expressou. 

Dr. Leonardo Barcellos é professor do curso de Medicina Veterinária na UPF

A desvalorização da área é ainda mais nítida quando precisa-se escolher pontos para serem priorizados. “Você tem quatro itens: ciência, segurança, educação, saúde e só pode escolher três deles. A maioria da população brasileira escolheria segurança, educação e saúde. Em países letrados eles vão colocar a ciência em primeiro lugar sempre, porque é com ela que pode-se melhorar as demais”, confirma o professor. 

Embora seja vista como distante por muitos, a ciência está presente em todos os instantes da nossa vida. Desde a roupa que vestimos, os medicamentos que tomamos, os aparelhos eletrônicos que usamos, tudo é ciência. O desafio é apresentar e levar isso a grande massa. “É aí que entra a importância da comunicação da ciência, de transformar a linguagem científica em linguagem do dia-a-dia, fazendo com que todos se enxerguem dentro dela. Pra mim, pesquisador, não adianta mais falar, eu sei. Mas, tem pessoas que precisam ouvir. Temos que falar em ciência, colocar ela em foco”. 

Leonardo ainda aponta a diferença entre disseminação e divulgação científica: enquanto a primeira apresenta a ciência entre seus pares, de cientista para cientista, a segunda é capaz de levar o tema para quem não é expert no assunto. Embora muito se tente, às vezes o cientista também pode atuar como agente dificultador nessa missão. “O cientista brasileiro é muito preso nas operacionalidades. É preciso capacitá-los para que possam falar sobre suas pesquisas de modo simples, de forma que até um aluno de ensino fundamental consiga entender. O bom cientista é aquele que consegue te situar”. 

Antecipar a formação científica é o melhor caminho para fugir dessa onda de analfabetismo, pontua Barcellos. “Quanto antes colocarmos a ciência na educação diária das pessoas, melhor. Precisamos que as crianças vejam o que é o método científico e depois saibam identificar a importância deles. Assim, discursos como os atuais não entrarão com tanta facilidade na cabeça delas”. 

“Nosso principal problema é a forma de educação que temos. Educamos por base no acerto e não no erro, mas na pesquisa precisamos do erro, do teste. Os alunos tem vergonha de perguntar! Se tem uma coisa que ele não pode ter é isso. Se ele chegar na ciência assim, ele terá dificuldade. Perguntar é a base! Pensamento científico desde cedo nas escolas é muito importante”, enfatiza o pesquisador. 

A dúvida se o pós pandemia será de valorização para a ciência ainda existe em Barcellos. Ao contrário do restante do mundo, o Brasil costuma ser mais difícil quando o tema é ciência. “A gente não tem alguém que lute por ela no nosso país. Não tem mil reais, dedica cinco. Mas dedica cinco e apoio. Eu já vivi muitos momentos difíceis na pesquisa, sem dinheiro, mas tínhamos apoio. Agora nem isso. Se agora não enxergarmos que a solução vem da ciência, não enxergamos nunca mais”.

 “É a hora da ciência solidária, de se ajudar. Quem está na pós hoje é porque realmente quer, porque dinheiro não tem mais. É o momento de formarmos bons profissionais e lutar por aquilo que acreditamos. Quando a maré está baixa, não se empurra o barco. Mas, isso não quer dizer que você vai largar ele lá para estragar. Puxamos ele para dentro do rancho, arrumamos, trocamos as velas… uma hora a maré subirá de novo, o vento voltará e vamos ter que navegar. Uma hora o vento vai virar e a ciência voltará a ser valorizada!”, declara esperançoso, assim como Chico que lembra que voltará, ele sabe que voltará. 

Quero mais saúde!

Também em crise, o jornalismo é ferramenta fundamental para vencermos a desinformação. Seja nas páginas de jornais, nas ondas de rádio, em websites, a comunicação científica é necessária. Mesmo que muitas vezes vistas como vilãs, as redes sociais também podem ser aliadas nessa novela. 

A Agência Bori busca essa parceria. A Bori tem, também, como propósito levar a ciência nacional à imprensa, por meio de treinamentos, contatos, curadorias, e muito mais. Em seu site, pesquisadores podem cadastrar seus projetos, e jornalistas podem solicitar e conhecer ainda mais, tendo acesso a conteúdos exclusivos. Tudo isso de graça! 

Site possibilita o cadastro de jornalistas e cientistas

Não precisa ser uma grande agência para buscar levar a ciência a luz que em muitos momentos ela não tem. Profissional da área, a “jornalista de ciência” – modo como se denomina no Twitter -, Luiza Cares, continuamente publica fios sobre avanços científicos, com linguagem simples e para entendimento de todos. 

https://twitter.com/luizacaires3/status/1396612574322515968

Mestre em Comunicação e Editora do Jornal da USP, Luiza também é curadora de conteúdo da newsletter Polígono. Por lá, os assinantes podem ter informações ligadas a ciência semanalmente chegando nos seus e-mails. Luiza representa uma das principais vozes sobre divulgação científica no Brasil, buscando chegar a inúmeros públicos. 

Felizmente, outros muitos comunicadores também se mostram presentes em todos os meios de comunicação. Vivos e cheios de graça, os jornalistas, os divulgadores de ciência, continuam a fazer um monte de gente feliz – e informado, e saudável e pensante.

Mostrar o seu valor

16 meses após o início da pandemia, ainda não conseguimos enxergar um possível fim pra ela. A vacinação ocorre às pressas, mas não o suficiente para deter o vírus e suas inúmeras variantes que aparecem a cada dia. Escândalos rodeiam a compra de vacinas e impedem que vidas sejam salvas. Mas, os cientistas não desistem e continuam a fazer sua parte – e mais ainda. 

Durante a pandemia, pesquisadores brasileiros trabalharam – e continuaram a trabalhar – para enfrentar o Sars-Cov-2. Exemplo disso é a Dra Ester Cerdeira Sabino, doutora em imunologia pela Universidade de São Paulo, líder do grupo de pesquisa que realizou o sequenciamento completo do genoma do vírus em apenas 48hrs, após o primeiro caso confirmado de coronavírus na América Latina. E não foi a única. 

Em meio a um cenário nada normal, nos reinventamos e mostramos o que o Brasil tem de melhor: a persistência. Além de pedir ajuda a Padroeira, também nós guiamos pela ciência extremamente capaz de ser feita por aqui mesmo. A letra de Brasil Pandeiro é clara: “Chegou a hora dessa gente mostrar o seu valor. Brasil esquentai vossos pandeiros, iluminai os terreiros, que nós queremos (voltar) a sambar”.