O banco da frente ainda mais invisível

A pandemia da covid-19 mudou a vida de quem fazia parte da rotina diária de estudantes da Universidade de Passo Fundo. 

Por Sabrina Tagliari

    Já parou para pensar sobre pessoas “invisíveis”? Pessoas que passam pelas nossas vidas e por nós todos os dias, mas que não damos tanta importância… Algumas dessas pessoas nos levam diariamente, durante cerca de cinco anos até o nosso futuro. São os motoristas, seja de transporte público ou privado que te levam até algum lugar, e nesse lugar acontece o seu futuro. Nesse universo de agitação, talvez o motorista que nos transporta todos os dias passe despercebido. Todos os dias, deixam suas casas e famílias antes de o sol nascer para garantir o direito constitucional de ir e vir da população brasileira.

    Nos ônibus que fazem as rotas da Universidade de Passo Fundo, há pessoas, não apenas motoristas. São pessoas nas quais nos veem sair da escola, entrar na faculdade, trancar a faculdade, ter filhos, trocar de curso, se formar… ou até mesmo trabalhar lá. Quantas vezes na hora de se referir a ele para outra pessoa, você disse “meu motorista” ou “o motorista do meu ônibus”? Quantas vezes o motorista te deixou na frente de casa? quantas vezes ele te esperou quando você não havia chegado no ponto de ônibus? 

    Essas relações de alunos e motoristas, algumas vezes não terminam quando o aluno se forma, se tornam um vínculo e uma amizade para a vida… 

As lembranças não serão invisíveis 

    “No ano em que eu comecei a faculdade, em 2007, as aulas eram em turno integral e ambos os motoristas das linhas que eu pegava eram super atenciosos, sempre dentro do horário, faziam o trabalho como deveria ser feito… mas um que se destacou pela simpatia, por estar sempre com sorriso no rosto foi Anildo Fath”, conta Josiéli Santos, fisioterapeuta formada pela UPF. Anildo Fath ou “Xuxa” como era conhecido, foi motorista do transporte público de Passo Fundo. Durante sua vida, trabalhou na Coleurb desde 1995 e dirigiu na mesma rota durante vários anos. Anildo foi motorista da rota de ônibus que Josiéli pegava todos os dias durante os longos anos de curso, o São Cristóvão – Universidade. Enquanto cursava fisioterapia, Josiéli engravidou e trancou o curso durante um tempo para se dedicar ao seu filho. 

   O motorista Anildo viu centenas de pessoas entrarem na faculdade e saírem formadas, trancar o curso, terem filhos ou até mesmo desistir ou deixar para depois a graduação. Isso até fevereiro deste ano, quando morreu vítima da Covid-19. Várias empresas de transporte público adotaram medidas de higienização e distanciamento social, mas os dois frascos de álcool em gel disponibilizados nos ônibus da cidade não foram o suficiente para proteger Anildo do vírus. A Associação Nacional de Empresas de Transportes Urbanos (NTU) buscou experiências na Europa e nos Estados Unidos a fim de criar um protocolo de Covid-19. O documento foi enviado ao Ministério de Desenvolvimento.

Josiéli é a segunda, da esquerda para a direita. 2013, quando era estudante de Fisioterapia e tinha aulas práticas na UPF.

   Em contato com Yndrid Fath, filha de Anildo, ela relatou que seu pai trabalhava há 26 anos na empresa e adorava o que fazia, adorava dirigir pela cidade. “Meu pai foi afastado do serviço por comorbidades, foi bem difícil pois ele nunca ficou tanto tempo longe do trabalho. Foi passando um mês, dois meses, até que ele ficou UM ano afastado”.

   A notícia de que ele estava internado por covid-19 chegou até Josiéli por meio de um colega de trabalho de Anildo. “Eu estava torcendo para que ele saísse dessa, quando ele morreu me apertou o coração, deu um nó na garganta… com certeza por ser uma pessoa querida, eu fico muito triste e fiquei muito desanimada por ele não ter vencido essa luta”. 

  Segundo a Associação Nacional de Empresa de Transportes (NTU) a quantidade de viagens realizadas por passageiros (demanda) chegou a cair 80% nas primeiras semanas da crise. Em fevereiro de 2021, a redução média verificada foi de 40,8%. Yngrid conta que seu pai estava muito feliz em voltar para o trabalho e que em casa tinha todos os cuidados necessários para não se contaminar com o coronavírus, desde evitar sair de casa para fazer compras no mercado, até limpar as embalagens de comida com álcool, como uma forma de se proteger. “Ele voltou a trabalhar, deu 15 dias e pegou covid, a gente descobriu em um sábado, ele foi internado e na sexta-feira ele faleceu. Não deu nem uma semana.” Yndrig lamenta a morte do pai. Uma pesquisa da Coppe/UFRJ (instituto de pesquisa de engenharia da Universidade Federal do RJ) mostrou que motoristas de ônibus têm 70% mais chances de se infectar pelo coronavírus do que outros trabalhadores, e existem também registros de contágio, com alto índice de mortes, em todas as cidades brasileiras com sistema de transporte público.

  Segundo Josiéli, durante o tempo em que pegava ônibus com Anildo, ele sempre zelou pela segurança de todos. “Tentava sempre dar o seu melhor, sempre prezando pela segurança da gente. Às vezes quando eu chegava tarde de volta da UPF para casa e era escuro, ele me deixava na porta de casa por questão de segurança.” Yngrid ressalta que é  difícil um motorista receber elogios. “ Às vezes o que um faz de errado, todos pagam, então sempre são criticados. No momento em que um motorista é elogiado, que alguém vê o trabalho deles, vê que não é fácil lidar com o público, não é fácil lidar com o trânsito, quando alguém reconhece isso com certeza, qualquer motorista iria ficar feliz, meu pai iria ficar feliz”, diz Yndrid sobre o trabalho do seu pai. 

Motorista Anildo Fath e sua filha Yndrid Fath. 

  A passageira de Anildo, Josiéli, voltou a estudar Fisioterapia um tempo depois de ter trancado o curso, e Anildo ainda era motorista da rota. Josiéli se formou em 2014 e mesmo depois de formada não deixou de pegar o ônibus de vez em quando e bater um breve papo com Anildo, aquele que lhe acompanhou desde o começo.  A viu entrar na faculdade, trancar a faculdade, ter um filho, voltar para a faculdade e se formar. “Uma vez encontrei ele em um camping e eu disse para o meu esposo que ele era o motorista do ônibus que eu pegava para ir para aula, nos apresentamos e ele sendo sempre bem carismático… percebi que ele era assim tanto no ambiente de trabalho quanto com as pessoas de fora. Tanto na vida profissional quanto na vida pessoal creio que ele tenha sido uma pessoa muito querida por todos”, disse Josiéli. 

  Yngrid comentou sobre isso: “Às vezes a gente passava de carro por algum lugar ele falava: ah, aqui mora uma passageira, ah, ele pega o ônibus em tal horário, ele trabalha em tal lugar.” Ela diz que querendo ou não é uma segunda casa, é uma segunda família. Essas pessoas marcaram a vida dele assim como ele marcou a vida das pessoas, levando e trazendo com segurança, mas além disso, com a simpatia que só o famoso Xuxa tinha.

Hoje o chimarrão faz falta

  Os ônibus que levavam alunos até a Universidade pararam durante meses, o motivo você já deve imaginar. Há quase dois anos a pandemia causada pelo vírus da Covid-19 se tornou pauta de todos os jornais pelo mundo. Há quase dois anos falamos sobre o mesmo assunto e há quase dois anos esse assunto nos afeta, brutalmente.  

Todos os dias, nosso caminho até a universidade tem ou pelo menos tinha o mesmo som, buzinas, ambulâncias… E todos os dias esses caminhos são trilhados com diferentes sentimentos. Todos os dias há pessoas atrasadas correndo na tentativa de pegar o ônibus que nos levará até o nosso futuro, e existem os motoristas que fazem isso. 

  Cerca de três semanas depois do início do ano letivo de 2020 esses caminhos foram trilhados de maneiras diferentes… por conta da pandemia o contato diário com os motoristas foi desfeito. Brenda Schnornberger mora na cidade de Carazinho e entrou para a faculdade de Jornalismo em 2019. Como as aulas eram em Passo Fundo, pegava o mesmo ônibus todos os dias para a UPF, de uma empresa de transporte da sua cidade. No seu caso, havia um motorista em específico, o Mirto Bins, que conheceu através da sua irmã Carol, que se formou alguns anos antes e também fazia a mesma rota para a Universidade. Por esse e tantos outros fatores, Brenda se aproximou de Bins, um dos motoristas responsáveis pela rota. “Todo dia eu entrava 6h30min da manhã no ônibus caindo de sono, fazia chuva, fazia sol, eu falava: Bom dia seu Bins, Carol te mandou um beijo. Foi engraçado, nos primeiros três dias ele foi levando como realmente, uma saudação da minha irmã. Depois virou uma brincadeira e eu precisava dizer isso todos os dias”. A rota dos motoristas do ônibus da Brenda era passar por toda a cidade de Carazinho, pegar todo mundo nas paradas e quando chegavam em Passo Fundo, deixavam todos nas paradas que iam descer e estacionavam os ônibus no estacionamento da UPF. Segundo ela, muitas vezes ficavam sem fazer nada durante a manhã, esperando os alunos saírem da aula, para voltar para Carazinho. A mesma coisa acontecia no turno da tarde e da noite. 

Uma das inúmeras cuias de chimarrão que Brenda tomou ao lado dos motoristas.

  Nesses momentos em que os motoristas estavam “sem fazer nada” apenas esperando todos os alunos, alguns saiam da aula mais cedo e aproveitavam para tomar o chimarrão que Bins e outros motoristas levavam. “Eu ia até o ônibus no intuito de dormir, eu apagava e não via nada, mas às vezes eles ficavam conversando e dando risada, então eu acabei indo algumas vezes e conversava. Quando eu vi, aquilo já virou um hábito para mim”. Brenda conta que às vezes saia cinco minutos mais cedo da aula, para tomar pelo menos um chimarrão com os motoristas. “Eles me esperavam com o chimarrão, então enquanto eu não chegava e tomava meu chimarrão eles não saiam com o ônibus”. Segundo ela, esses momentos se tornaram naturais, uma rodinha de alunos e motoristas compartilhando o chimarrão. “A gente ficava jogando conversa fora, dando risada e tomando chimarrão. E o pessoal começou a achar graça, quando vimos estávamos em uma roda de quinze, vinte pessoas.”

  Ela conta que com Bins não tem ruim, sempre muito simpático. “Ele é um senhor mais de idade, se você só passa e dá bom dia, ele fica na dele. Mas se você der um sorrisinho ele já vem com as piadinhas dele, sabe aquelas piadinhas da “A Praça é Nossa”? Essas piadinhas sem graça mas que você dá risada por consideração, é algo que do jeitinho que ele contava e você olhando toda a fisionomia dele, do senhorzinho com a camiseta por cima da calça, com a chave pendurada no cinto da calça… fazia com que a gente se prendesse nele e desse risada das piadas dele.” Para ela, a amizade aconteceu naturalmente. 

  “Na volta para Carazinho, tinha um local específico que meu pai sempre me buscava, que era uma quadra antes da estação da gare da cidade. Bins sempre me deixava ali, parava uma quadra antes da parada de ônibus e me deixava no meio, porque ele sabia que meu pai estava ali todos os dias.” Esses relatos mostram como de forma velada, querendo ou não, os motoristas se preocupam com a nossa segurança, não apenas no trânsito. “Na correria do dia a dia a gente não presta atenção nas pessoas, mas ali eu pude conhecer os motoristas e são pessoas maravilhosas”, contou Brenda. 

  Isso tudo aconteceu antes da pandemia, hoje, o chimarrão faz falta. Pessoas que por anos faziam a mesma rota todos os dias, tiveram sua rotina mudada brutalmente, foram afastadas ou demitidas… seja pelo cancelamento aulas presenciais, pela idade de risco ao vírus ou por comorbidades. Bins foi uma dessas pessoas. As aulas presenciais foram suspensas como medida de prevenção da Covid-19 e como trabalhava nos ônibus que faziam a rota até a UPF, acabou sendo afastado de algo que trabalhava há mais de 20 anos. 

“O chimarrão… eu estava acostumada com o chimarrão, se eu tomei mais de duas vezes depois da pandemia foi muito, sabe, e lá eu tomava todos os dias”, disse Brenda ao contar como se sente quando percebeu que não veria mais aquelas pessoas todos os dias, que não sentaria mais no banco da garagem dos ônibus para jogar conversa fora com Bins. “E o sentimento de não pegar ônibus todos os dias no mesmo horário… dói, de verdade.” 

Bins relatou para Brenda antes da pandemia, que chegou em um momento em que ele viu que não estava precisando daquilo, que ele trabalhava por um hobbie, que ele fazia para se distrair. Para Bins e vários outros motoristas que estavam acostumados com o pico e tiveram que se adaptar à “nova realidade” e do nada ficar em casa, segundo Brenda é como um soco. 

Brenda Schnornberger pegava os ônibus todos os dias, de Carazinho a Passo Fundo.

O site “Impacto Covid” que faz a análise de risco de contágio por ocupação considerando diferentes características (e.g., exposição à doenças, proximidade física) relacionadas aos empregos formais com base no cruzamento dos dados de ocupação do Brasil e EUA, revela em uma pesquisa que o risco da covid-19 por atividades das profissões de transporte rodoviário coletivo de passageiros com itinerário fixo colocou 346.734 (76,15%) dos profissionais da área em risco.

  “Quando eu passava pra ir trabalhar e olhava para a parada de ônibus eu pensava: caraca, que saudade de ir para a UPF. Aquilo começou a se tornar uma realidade muito diferente, não só diferente mas distante porque parecia que aquilo não ia mais voltar… era muito assustador.” Brenda sente falta dos dias corridos de trabalho e faculdade e das conversas com Bins, com quem aprendeu a valorizar pequenos momentos e ter empatia. “Chega um momento da nossa idade que a gente quer tanto viver a nossa vida, a gente quer tanto ir atrás dos nossos sonhos, emprego, casa, família, que a gente simplesmente esquece quem sempre esteve do nosso lado, sabe. E às vezes não é por um ato de maldade, não é por um querer, é porque a gente tá vivendo tanto no automático que não nos ligamos que não estamos dando atenção pra quem tá com a gente”, contou Brenda ao refletir sobre as conversas que tinha com Bins. 

  Várias capitais do Brasil tiveram impacto da covid-19 no transporte público por ônibus. Os dados são da Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos (NTU) que contabilizou 76,8 mil demissões no período de março de 2020 a fevereiro de 2021 e as ofertas e demandas por ônibus nas ruas caíram durante esse tempo.

  Logo que começou a pandemia, Brenda fez meio ano de aulas remotas e ainda estava trabalhando. Segundo ela, Bins aparecia na loja em que Brenda trabalhava, comprava alguma coisinha como desculpa para conversar um pouco, perguntava como ela estava e comentava algo vagamente sobre os ônibus. “A partir do momento em que ele para de fazer algo que ele fazia há muito tempo, ele saiu da zona de conforto dele, é algo que deve ter mexido muito com o emocional dele. Então às vezes ele aparecia, uma, duas vezes por semana comprar um pacote de bala, e eu sei que ele não come bala porque ele é diabético… tinha o senso de que eu estava trabalhando mas ele ia para conversar, dois, três minutos, trocar umas palavras e ir embora. Nossa, era surreal.”

  Brenda acaba refletindo um pouco sobre como será depois que tudo isso passar e a vida voltar a ser como era antes da pandemia “Se tu quisesse sempre ia ter um mate pra ti, um lugarzinho no banco… um lugar no ônibus e eu sinto muita falta disso e eu sei que quando eu voltar presencial vai ser bem diferente. Não vai ser igual antes porque ele acabou saindo, mas talvez algumas coisas fiquem, como o chimarrão.” A gente sabe que nem tudo vai ser igual, muita coisa mudou e nós mudamos. Aprendemos a valorizar pessoas e momentos que estavam ali, todos os dias, bem debaixo do nosso nariz. 

  Os motoristas e tantas outras pessoas passam diariamente pelas nossas vidas e são responsáveis por papéis importantes na sociedade. Aquele seu “Muito obrigado” faz diferença, o sorriso que agora é com os olhos, também faz diferença. O bom dia torna o dia de alguém muito melhor. Que tal olhar para o lado e reconhecer o papel importante que aquela pessoa tem na sua vida? mesmo que indiretamente, isso tem a sua diferença, para ela e para você.