Um mergulho por entre as águas do Rio Nilo e por histórias que se entrecruzam 

O que move um sonho? A resposta pode estar escrita em algum lugar por aí, ou em lugar algum. Para tentar responder, vamos viajar por entre as águas do Rio Nilo, mediadas por duas jovens sudanesas que encontraram no Brasil um conforto para além do esperado.

Por Marlusa Marques de Oliveira e Estefane da Silva Worst*

Na foto Reem e Reham Faisal, curtindo uma tarde de outono na praça da Cuia, em Passo Fundo
Na foto Reem e Reham Faisal, curtindo uma tarde de outono na praça da Cuia, em Passo Fundo (Fotos: Estefane Worst/Nexjor)

Sem nunca ter saído do país, viram-se desafiadas a procurar um novo espaço em decorrência do pai, que sofre de Diabetes e precisava de assistência médica. O destino? Brasil, separado por uma distância de 9.527 km do local onde nasceram, cresceram e viveram os primeiros anos de vida. Mais tarde, Passo Fundo, município da região sul, localizado no interior do estado do Rio Grande do Sul, tornou-se o novo lar.  

Para entender melhor essa aventura, primeiramente conheceremos elas, as meninas sudanesas, que estudam a cerca de 800 metros do Nexjor, na UPF Mundi, onde às segundas-feiras tem compromisso marcado nas classes de Língua Portuguesa, ministrada pela professora Paola Hagen de Oliveira. 

“Foi o Brasil que escolhemos e aqui queremos ficar”
Reham

A professora, que desde cedo acompanha o processo de aproximação das meninas com o idioma, favorece por entre os espaços da UPF Mundi, maneiras estratégicas de promover a inserção delas em diferentes locais, a fim de almejar e agregar conhecimentos, seja em idas até a biblioteca, em passeios criativos ou ainda, nas salas de aula dinâmicas e harmoniosas do prédio. 

Reham Faisal Algak nasceu em 07 de março de 2003 e tem 19 anos. A irmã, Reem Faisal Algak, um ano e sete meses mais velha, nasceu em 15 de agosto de 2001 e está perto de completar os tão aguardados 21 anos.

Para entender mais sobre elas, escute um pouco mais sobre seus sonhos:

O pai, Faisal Altaher Algak, chegou ao Brasil em 2012 e estando há uma década aqui e sente-se “filho deste chão”, comentam as meninas. Dois tios também residem em solo brasileiro. A tia em Passo Fundo e o tio, em Chapecó. Ele foi o precursor da mudança da família, tanto que três anos depois vieram para cá os filhos mais velhos. O restante da família: a mãe, o filho caçula e as três meninas (entre elas Reham e Reem), chegaram aqui em 2016. 

Escute um pouco do que Reem e Reham nós contaram sobre como funcionam as famílias e a sociedade no Sudão:

A viagem, contam elas, foi divertida do início ao fim. Nervosa, a mãe esqueceu de comprar as passagens no tempo previsto e os planos ficaram por um fio. De avião, sobrevoaram a Etiópia e desembarcaram em São Paulo, de onde partiram rumo a Passo Fundo (de ônibus). A ideia de optar por tal transporte partiu do pai, que queria aproveitar a viagem para mostrar o país às filhas. 

O mapa acima representa a trajetória das meninas, do Sudão até Passo Fundo 

Acostumadas a observar solo seco e clima quente, sentiram-se envolvidas pela brisa suave das árvores, o canto dos pássaros e o murmúrio do povo brasileiro.  “Estou sonhando ou o que? Que árvores, casas e vida nova é essa?”, lembra que perguntava-se curiosa Reem Faisal na janela do ônibus.

A resposta estava dentro delas 

Desde abril de 2016 quando pela primeira vez pisaram em solo brasileiro até hoje, passados seis anos, muita coisa nova tiveram o privilégio de encontrar pelo caminho. Reham, com 12 anos e Reem, com 14. O amadurecimento veio não apenas pela idade, mas especialmente pelas incertezas que de algum modo, as acompanharam. 

Cartum, capital sudanesa de onde são originárias de fato, diferencia-se muito de Brasília, Porto Alegre, Passo Fundo ou de qualquer outra cidade brasileira. Mas afinal, quais são as principais diferenças que as duas “meninas do Sudão” sentiram e de algum modo podem nos trazer como forma de conhecimento, para além do que tradicionalmente visualizamos e/ou alcançamos? 

História, cultura e hábitos de vida 

Qualquer que seja a cidade por onde você desafiar-se a caminhar trará algum tipo de beleza, tendo em vista que cada uma é famosa por algum aspecto, presente na cultura, na culinária e na essência pessoal de sobrevivência de cada indivíduo que nele vive. As cidades pequenas retratam ainda mais estes aspectos se comparadas a capital Cartum, citam as meninas, referindo-se a segunda maior cidade do país. 

O Hijab é uma vestimenta usada pelas mulheres muçulmanas, quando nos encontramos Reem e Reham nós contaram um pouco da relação das sudanesas com ele:

E se tem outra coisa que cotidianamente desafia as meninas sudanesas é o clima brasileiro ou mais precisamente, o clima passo-fundense. Acostumadas com temperaturas que variavam de 52°C a 70°C, com a presença de chuva de uma a duas vezes no ano e com o solo extremamente seco em decorrência das altas temperaturas, veem-se sem saber o que fazer quando os pingos de chuva gelados e desregulados começam a cair sobre seus hijab´s. Mesmo assim, dizem que não esmorecem. “Foi o Brasil que escolhemos e aqui queremos ficar”.  

E quando falam em água, pontuam que a do Sudão é inconfundível! “O que contribui para isso é o famoso Rio Nilo, um dos mais extensos da África. E, apesar da escassez da chuva, água tem-se a vontade durante os 365 dias do ano”, referem as meninas. 

O Ramadan é um período sagrado, muito importante na cultura muçulmana, que ocorre no nono mês do calendário islâmico O calendário islâmico é um calendário lunar, logo, a contagem dos dias é feita de acordo com a observação das fases da Lua.

Saiba um pouco mais sobre as praticas realizadas durante esse período e como Reem e Reham comemoram o último Ramadan aqui no Brasil:

Os jovens são as estrelas da noite 

No Brasil é fácil descrever como os jovens se divertem. Mas e no Sudão, o que fazem? Reem e Reham dizem que se tem uma coisa que os jovens sudaneses sabem muito bem fazer é gerir o tempo. De dia, estudam das 7h às 15h e de noite, saem para festejar a vida, a juventude, o tempo que passa como um piscar de olhos. Restaurantes são encontrados aos montes. Geralmente um em cada esquina. Servem de palco para comemorações e a união entre tal povo. 

Como complemento a tais maneiras de distração, as jovens sudanesas revelam que os parques e as águas do Rio Nilo completam a festa. Servem de inspiração para encontros, onde a população toma café ao som de músicas árabes. A semana inicia-se no domingo e vai até a quinta-feira. Os dias sagrados são sexta-feira e sábado, usados para realização de orações e também de merecido descanso. 

“”No Sudão, o comércio segue o fluxo dos jovens e isso chama a atenção. O povo sudanês gosta mesmo de comprar”.”
Reem

“O comércio, segue o fluxo da energia dos jovens. Abre de dia e só encerra as atividades de madrugada, em torno das 4 horas”, menciona Reham . O movimento é gigantesco em relação à circulação de pessoas, carros e outros meios de transportes, como ônibus e aviões.  “A cidade, embora bastante desenvolvida, não possui nenhum metrô. Por outro lado, é composta por inúmeras Universidades, com renomes que ultrapassam as fronteiras sudanesas, como a tradicional Universidade de Cartum”, complementa Reem . 

Educação sudanesa 

Assim como em qualquer outro país do mundo, alunos que mais se destacam conseguem benefícios graças a isso. No Sudão, por exemplo, Reem e Reham explicam que há cinco níveis de turma, que avaliam o nível de aprendizagem dos alunos. Os que necessitam de reforço, recebem toda e qualquer forma de suporte para progredir nos estudos. 

Se a dedicação de fato reverter-se em bons frutos, podem cursar a faculdade gratuitamente. “Sem precisar fazer o Enem”, brinca Reem. Mas Reham justifica: “É que lá, (no Sudão), o ensino é mais complexo. Temos livros que precisam ser decorados para só assim, avançarmos de turma”. 

Aprender Português foi um de nossos primeiros desafios. Hoje, falamos bem, mas no início foi tudo muito difícil

Reham

Os melhores alunos ganham recompensas (brinquedos ou doces). Reham ganhou muitos deles. Estudou até o sétimo ano. Já Reem, não chegou a ganhar nenhum e confessa que sente-se um tanto quanto frustrada por isso. Tal frustração, porém, serviu como incentivo para focar cada vez mais nos estudos, conta ela, que estudou até o primeiro ano do Ensino Médio em solo sudanês. 

A língua oficial é a árabe e as crianças, desde muito cedo, são incentivadas a aprender e praticar outras maneiras de comunicação, como o Inglês e o Francês. E ainda falando sobre idiomas, confirmam que a Língua Portuguesa é uma das mais complexas de aprender. “Aprender Português foi um de nossos primeiros desafios. Hoje, falamos bem, mas no início foi tudo muito difícil”, confessa Reham. 

As irmãs frequentam as aulas da UPF Idiomas há pouco mais de seis meses e o processo configurou-se de modo facilitador graças ao apoio dos professores, funcionários e colegas, que diariamente convivem com elas. 

Dessa convivência, amizades foram geradas e conhecimentos, aprimorados.  

Culinária 

A comida predileta de Reham é o carreteiro do Sudão, que, segundo ela, tem um gosto peculiar.

A culinária sudanesa é bastante rica, orgulham-se as meninas ao dizer. Com pratos ultra-temperados e doses picantes de pimenta e outros temperos, plantam para comer e comem o que plantam.  Elas lembram que no país, realizam quatro refeições no mínimo durante o dia. No café da manhã, tomam chá, com leite e gengibre. De acompanhamento? Biscoitos. Às 10h, almoçam.  “Mas não comemos arroz, feijão e saladas como vocês, brasileiros. Mas, amamos pão”, revela Reham. “Amamos também lentilha. Já arroz, só comemos uma vez por semana ou nem isso”, complementa Reem. 

Depois do almoço, o próximo lanche é feito às 15 horas e um dos principais petiscos é o famoso sanduíche árabe: recheado com pão, carne de frango, batata frita, alface e tomate. Por fim, chega a melhor hora do dia, segundo referem as meninas: a hora da janta.  “Os vizinhos doam alimentos. São muito solidários. Às vezes, se você não tem nada preparado para a janta, alguém bate na sua porta e te traz algo para comer”, cita Reem. 

Sobre os pratos prediletos, Reham conta que ama carreteiro (mas não o gaúcho). O do Sudão é diferente, feito de frango e arroz temperado. Já Reem, ama sopa. Ainda sobre a culinária sudanesa, Reem e Reham comentam que no Sudão do Norte, onde antes residiam, bebidas alcoólicas não tem muita circulação, nem mesmo em festas.

Já a comida que Reem ama é a sopa! Recheada com diversos legumes e temperos.

Já no Sudão do Sul, a situação é outra. Além de existir, são fabricadas pela própria população. Contudo, na parte sul do Sudão, de onde as meninas são naturais, a sede é saciada por meio de chás, café, água e refrigerantes, (especialmente a Pepsi, a queridinha do povo sudanês, seguida da Coca-Cola e da Fanta). Além disso, amam doce. Árvores nativas favorecem a fabricação de sucos naturais, como pêssego seco, por exemplo, relembra com saudade Reem. 

“Os vizinhos doam alimentos. São muito solidários. Às vezes, se você não tem nada preparado para a janta, alguém bate na sua porta e te traz algo para comer”

Reem

Ficou curioso (a) para saber mais detalhes sobre Reham e Reem Faisal? Ou, conhecer um pouquinho mais do mundo sudanês, bem como curiosidades relativas à família, a presença da mulher na sociedade, e outros desdobramentos, como economia, política, religião e projeções das meninas para o futuro? 

Na foto, alguns dos desenhos feitos por Reem Faisal, que carrega no coração o desejo de algum dia, expô-los em uma galeria de Arte

Então, confira a reportagem audiovisual que produzimos sobre o tema. E se você gosta de outros sotaques, então, é mais que convidada (o) para essa imersão. Não perca tempo, clique no link e se insira em um mergulho pra lá de especial, por entre as águas do Rio Nilo e as histórias que perpassam esta nação.