Exposição excessiva e ritos estéticos podem ser considerados um fenômeno contemporâneo, de acordo com especialistas

Assim como cresce a procura por intervenções estéticas, aumenta gradativamente os casos que vem a público de procedimentos que deram errado ou até que levaram o paciente a óbito. Em julho deste ano, num período de oito dias, o Rio de Janeiro registrou três mortes que podem ter sido provocadas por procedimentos estéticos. O primeiro caso foi o da bancária Lilian Calixto, de 46 anos, que morreu no dia 15 daquele mês, após um procedimento realizado pelo médico Denis Furtado, que ficou conhecido em todo país como doutor Bumbum. Cinco dias depois a vítima foi a modelo Mayara Silva dos Santos, de 24 anos, mas a polícia ainda não identificou quem teria sido o responsável pela intervenção.  A terceira vítima foi a professora Adriana Ferreira Capitão Pinto, de 41 anos, que morreu no dia 23, uma semana após fazer um procedimento com a médica Geysa Leal Corrêa. “Ao decidir seguir algumas mudanças, seja corporal ou facial é de suma importância a pesquisa por um profissional e o local especializado na área de atuação, além do bom senso no equilíbrio do procedimento”, afirma Eidimara Ferreira, professora da Universidade de Passo Fundo e esteticista.

Diante de todos estes casos, nos deparamos com uma explicação da psicanalise de Freud, que cita o corpo como algo que não se reduz puramente ao orgânico, ou seja uma simples anatomia. Freud dizia que o corpo é o local onde se escrevem vivências infantis, onde ficam marcas de sensações boas e ruins que contribuem para a formação de uma identidade do “Eu”. O fundador da Psicanálise revoluciona o pensamento de uma época, quando ele fala de um Corpo Erógeno, fonte de prazer e desprazer. Descobre também que o corpo é regido por uma energia sexual.

Só depois, num momento posterior do desenvolvimento infantil é que surge a linguagem, que, de acordo com a psicóloga Ana Luíza Funghetti, também constrói a nossa identidade pessoal e corporal. “Quando falamos em corpo, não podemos pensá-lo isoladamente. O psiquismo e o corpo se formam juntos. O corpo serve de base para a construção da identidade. O corpo é fonte de prazer, descarga de tensão e satisfação, lugar de fantasia”, relata.

Com o aumento da consciência e maturidade, as pessoas se deparam com o “corpo real”, que carrega as características peculiares de cada um, herdadas pela genética e hereditariedade, o corpo que se desgasta, que adoece, que envelhece, que é diferente, que é único. Por falar neste tempo contemporâneo, ter um corpo único e diferente, pode trazer um mal-estar, pois o corpo passou a ser significado e definido dentro de um modelo associado à juventude, beleza, magreza. Para isso, muitas alternativas vêm sendo desenvolvidas pela indústria de cosméticos, nutrição diet, culto ao físico em academias, indústria farmacológica, clínicas estéticas, serviços médicos para que se alcance um corpo ideal, geralmente distante da realidade da maioria das pessoas. “É um mercado que nos define, que diz como temos que ser”, destaca a psicóloga.

Nos dias atuais, vemos homens e mulheres investirem cada vez mais tempo e dinheiro no consumo de bens e serviços destinados à construção e manutenção da imagem corporal ideal. O fanatismo para o corpo “perfeito”, porém, tem levado algumas pessoas a ultrapassar limites físicos e financeiros. Ana conta ainda que a maioria das pessoas está longe do padrão então estabelecido pela indústria. “Ao mesmo tempo vivemos num tempo onde existe o apelo à felicidade e a felicidade está em nossa mão “você pode tudo” e precisa ser feliz. Podemos e devemos atingir a felicidade através do corpo, que passa a ser o objeto e transformado nas mãos das clínicas”. Para ela o corpo passou a ser um objeto de mercado e consumo.

Nunca se teve uma preocupação tão grande com a beleza, a juventude e com prazer. Diariamente os noticiários destacam que a área da beleza desafia a crise. De acordo com o senso de 2016 divulgado pela Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, entre 2014 e 2016, a procura por procedimentos não invasivos no Brasil cresceu 390%. Os mais procurados durante o período foram: preenchimento, toxina botulínica, peeling, laser e suspensão com fios, respectivamente.

Esteticista e mestre em envelhecimento humano, Eidimara alerta para a importância de as pessoas ficarem atentas a detalhes básicos na hora de procurar um profissional. A professora destaca que é preciso “pesquisar sobre o profissional e as facilidades” oferecidas na hora da venda do procedimento. Para ela, informar-se sobre riscos, complicações e o tempo de recuperação é fundamental. “A estética não pode ultrapassar os limites da saúde. Toda idade tem sua beleza e nem toda a ruga é sinal negativo e nem todo o valor de um ser humano pode ser medido em uma balança ou mesmo em uma fita métrica”, enfatiza a esteticista.

A frustração dos procedimentos

Mas quando a intervenção no corpo acaba não suprindo as expectativas? De acordo com Funghetti, o indivíduo que procura tal tratamento precisa ter referências dos serviços que vai utilizar. Porém, conforme a psicóloga, a maioria dos procedimentos confiáveis acabam custando mais caro para o bolso do paciente. “Algumas vezes a obsessão pelo ideal do corpo submete algumas pessoas a promessas rápidas, com pessoas não qualificadas. É nessa situação que correm riscos”, conta.

O fenômeno crescente das redes sociais alavancou o número de publicações de pessoas que aguardam ansiosas por likes. Ana conta que os seres humanos são constituídos de faltas, desde o nascimento. “O caminho de autoconhecimento vai nos levando a buscar meios de satisfação pessoal com equilíbrio. Muitos buscam de forma desenfreada completar as faltas com os apelos oferecidos e valorizados pelo mundo externo como compras, objetos, drogas, ideal de beleza, entre outros”, complementa.

Essa necessidade de alguns indivíduos pela exposição desenfreada tem duas explicações. Ana Luiza destaca que são duas vertentes. Uma psicológica e outra social. Ela conta que a “exibição” faz parte da construção da identidade e o que antes era íntimo e particular, passa a ser público. “O império das imagens nos captura hoje. Temos muitos canais sociais para estar, transitar, nos expor. Mas com uma nova identidade, mais voltada para o olhar do outro, da aprovação do outro. Seguimos um padrão para sermos aceitos nessas redes. De um ideal de beleza, felicidades, bem-estar permanente”, afirma Funghetti que destaca ainda que para muitos “um instante” de alegria, prazer, satisfação passa a ter uma ideia de permanência duradoura ao criar uma realidade irreal, fantasiosa de contínua felicidade.