FOTO/Créditos: divulgação

Já dizia um antigo e sábio ditado: Melhor prevenir do que remediar. E que ato pode materializar tão bem esse dito popular quanto a vacinação. O processo de imunizar para evitar doenças já é antigo (veja sua origem controversa no quadro abaixo). Apesar de estar impregnado na rotina de várias sociedades, o processo de vacinação vem sofrendo questionamentos. Ataques e comunidades antivacinas surgem em redes sociais, colocando em xeque a eficácia das vacinações. Mas o que realmente é verdade quanto as vacinas? Que vacinas devemos tomar durante a vida toda? Traremos mitos e verdades para que você possa ficar “vacinado” quando o assunto é vacina.

Origem das vacinas

Os primeiros registros do uso de vacinas são do combate à varíola no século X, na China. Entretanto, a forma de uso era diferente da que conhecemos hoje: os chineses trituravam cascas de feridas de pessoas contaminadas e sopravam o pó, com o vírus morto, sobre o rosto das pessoas sadias.

Foi em 1798 que o termo “vacina” surgiu pela primeira vez, pelas mãos do médico e cientista inglês Edward Jenner. Em suas pesquisas, ele observou que trabalhadores rurais não pegavam varíola, pois já haviam sido infectados pela variação bovina da doença, de menor impacto no corpo humano. Ele então introduziu os dois vírus da varíola (bovina e humana) em um garoto de oito anos e percebeu que o após a criança apresentar uma infecção leve por dez dias, ela estava curada. Após isso, ele injetou pus de uma pessoa com varicela e o garoto nada sofreu. Eis que surgia a primeira vacina. Desse processo surgiu o termo vacina: Variolaevaccinae é o nome científico da varíola bovina.
Em 1881, quando o cientista francês Louis Pasteur começou a desenvolver a segunda geração de vacinas, voltadas a combater a cólera aviária e o carbúnculo, ele sugeriu o termo para batizar sua recém-criada substância, em homenagem a Jenner. A partir de então, as vacinas começaram a ser produzidas em massa e se tornaram um dos principais elementos para o combate a doenças no mundo.

Infográfico: Eugênio Siqueira

Vacinação no Brasil

As primeiras ações de imunizações no Brasil datam de 1804. Mas somente em 1973 que o governo federal conseguiu organizar um programa que garantiria o processo de imunização a todo o país. Foi criado o Programa Nacional de Imunizações (PNI) do Ministério da Saúde. É através do PNI que o Sistema Único de Saúde (SUS) disponibiliza anualmente mais de 300 milhões de doses de vacinas. Ao todo, são oferecidos gratuitamente 42 tipos de imunobiológicos e 25 vacinas.

O PNI é considerado um dos melhores do mundo. As vacinas oferecidas pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e incluídas no Calendário Nacional de Vacinação, são gratuitas e estão disponíveis para todos os brasileiros. Mas a vacinação não é exclusividade do SUS. Clínicas privadas oferecem vacinas que não são disponibilizadas pelo sistema público, mas que também são aprovadas pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

Vacinas de postos de saúde X Vacinas de clínicas particulares 

De acordo com a coordenadora do Núcleo de Vigilância Sanitária de Passo Fundo, Raquel Carneiro, cabe ao sistema público vacinar as pessoas com foco na saúde coletiva, além das vacinas obrigatórias à infância. Nas clínicas particulares, se busca opções de vacinas para proteção individual, contra todas as doenças passíveis de proteção, utilizando produtos licenciados, por vezes mais modernos e oferecendo mais conforto e segurança.

 

FOTO/Crédito: Ministério da SaúdeDiferença entre as vacinas de postos de saúde e vacinas de clínicas particulares

 

Penta x Hexavalente
O calendário da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIM) indica que os bebês aos dois, quatro e seis meses de idade sejam imunizados contra seis doenças potencialmente graves: difteria, tétano, coqueluche, poliomielite, hepatite B e Haemophilusinfluenzae do tipo b – bactéria causadora de meningite e outras infecções graves como, pneumonia e septicemia. Tanto o sistema público como as clínicas privadas oferecem essa imunização. No caso do SUS, os usuários recebem a pentavalente + hepatite B e, na rede privada, já é oferecida a hexavalente. São basicamente duas diferenças:

– No SUS, para ficar protegido das seis doenças, o bebê recebe duas picadas; se for imunizado com a hexavalente oferecida nas clínicas, a proteção se dá apenas com uma aplicação.

– A vacina do SUS é feita com partes inteiras das bactérias e dos vírus, já a oferecida pela rede privada a vacina é acelular. A eficácia e segurança são similares, mas os efeitos adversos são menos frequentes e intensos quando se usa a acelular.

Rotavírus
O SUS oferece a vacina oral monovalente (VRH1) enquanto as clínicas particulares oferecem a vacina oral atenuada pentavalente (VR5) – a diferença é na quantidade de tipos de vírus contra os quais a criança fica protegida.
O rotavírus é, segundo a Sociedade Brasileira de Pediatria, o principal agente causador de diarreia em bebês e crianças. Por isso, o Ministério da Saúde recomenda a aplicação da vacina em duas doses em todo o território nacional.

Meningocócica C e ACWY
Há duas vacinas contra a meningite C disponíveis no Brasil: a “meningocócica C conjugada”, oferecida gratuitamente em postos de saúde, e a “meningocócica conjugada ACWY”, disponível apenas em clínicas particulares.
A principal diferença entre as duas vacinas é que a oferecida pelo SUS contém proteção contra a bactéria Neisseriameningitidis do grupo C. Já a “meningocócica conjugada ACWY” é quadrivalente e também oferece proteção contra os meningococos dos grupos A, W e Y – com incidência de 20% do total das meningites. Já a meningite C responde a 70% dos casos da doença.

 Meningite B
Oferecida apenas em clínicas particulares. Recomendada pela Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e pela Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), protege contra a meningite bacteriana causada pelo meningococo b. A doença bacteriana provoca a inflamação das meninges, membranas que envolvem o cérebro e medula espinhal.

Apesar desse universo de possibilidades para vacinação, as campanhas não vêm alcançando suas metas de imunização. Segundo o Ministério da Saúde, nos últimos dois anos a meta de ter 95% das crianças com menos de um ano vacinadas não foi alcançada. Na campanha contra a gripe do ano passado, crianças de seis meses a cinco anos e as gestantes registraram o menor índice de vacinação. A três dias do fim da campanha, apenas 65,92% das crianças tinham sido vacinadas.Dentre as vacinas do calendário infantil, apenas a BCG teve índices satisfatórios em 2016 e 2017. A vacina Tetra Viral, que previne o sarampo, caxumba, rubéola e varicela, apresenta o menor índice de cobertura: 70,69% em 2017.

As explicações para a diminuição nas taxas de vacinação englobam diversos:desabastecimento das vacinas em algumas cidades, a chegada de refugiados vindos de países sem uma política pública de prevenção de doenças e/ou cuidados sanitários, viajantes que entram e saem do país sem nenhum controle vacinal. Outro fator que contribui para a redução de cobertura nas campanhas é o crescimento de adeptos do movimento antivacina. Nesse quesito, não há um monitoramento do Ministério da Saúde ou da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para entendimento, argumentação ou até propostas de diálogo com esse movimento.

Fake News

No Brasil, a confiança na eficácia de vacinas é alta, porém a disseminação de fakenews tem resultado na baixa procura por vacinas em todo o país e em Passo Fundo não é diferente. A imunização contra o HPV (Papiloma Vírus Humano), foi uma das mais afetadas no município. Segundo dados da Secretaria Municipal de Saúde, 507 doses foram aplicadas entre os meses de janeiro a março, deste ano. No mesmo período do ano passado, 898 doses haviam sido aplicadas. Ou seja, 391 a menos. Para Raquel Carneiro, o fato está diretamente ligado à fakenews espalhada nas redes sociais por grupos antivacina.

“A procura começou a ser baixa a partir do impacto que a gente viu em redes sociais dos movimentos antivacina. Então o pessoal acabou se influenciando e achando que o risco de se vacinar é maior do que ter a doença. Isso não é verdade. O evento adverso de vacinar existe, mas é insignificante, a vacina é segura. No município a gente não teve eventos adversos causadas pela vacina do HPV, por exemplo, que é uma das mais afetadas, na cidade”, enfatizou Raquel.

Ter a vacinação como alvo é prejudicial à toda população. Mesmo que que as falsas notícias atinjam uma pequena parcela da população ela irá afetar consideravelmente na eficácia de campanhas vacinais. Resultando em uma não homogeneidade na cobertura vacinal, elevando os riscos de transmissão de doenças contagiosas. A vacinação, nas últimas duas décadas, preveniu mais de 30 milhões de óbitos. A OMS calcula que, a cada ano, haja redução de dois a três milhões de mortes graças à imunização. A disseminação de fakenews é da possibilidade para que doenças historicamente erradicadas no Brasil voltem a ser registradas. Isso porque, mesmo com a erradicação do vírus em um país, a existência da doença em qualquer parte do mundo, devido à globalização, torna possível que o vírus volte a se espalhar. O fato de não termos tido contato com doenças como a poliomielite nos últimos anos, defendem as autoridades, não deve fazer com que a sociedade baixe a guarda em relação à imunização.

O caso de um pesquisador britânico é um bom exemplo do que uma falsa notícia pode fazer. Em 1998, o médico Andrew Wakefield publicou na revista científica The Lancet que a vacina da tríplice viral (que protege contra caxumba, sarampo e rubéola) estava relacionada ao desenvolvimento de uma síndrome intestinal e sintomas de autismo em crianças. Em 2010, foi descoberto que Wakefield havia forjado os dados da pesquisa, o que resultou na sua perda de registro para atuar e em um processo criminal. Mas o estrago na saúde pública, especialmente no Reino Unido e nos Estados Unidos, já estava feito, e até hoje circulam informações falsas de que vacinas podem causar autismo.

Por: 
Eugênio Siqueira e Emanuel Vieira

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