Foto: Divulgação/PMPF

Passo Fundo é considerada a Capital Nacional da Literatura. Mas como esse título reflete no ensino público? A rede pública municipal está integrada aos programas de incentivo à leitura, desenvolvidos pelo município. Sobre isso, entrevistamos Edemílson Brandão, secretário municipal de educação de Passo Fundo desde 2013. Ex-diretor da Faculdade de Educação da Universidade de Passo Fundo, atualmente atua como professor. Graduado em Educação pela Universidade Federal do Ceará, possui mestrado na Universidade Federal do Espírito Santo, doutorado na Pontifícia Universidade Salesiana de Roma-ITA e pós-doutorado na Universidade Federal da Bahia.

COMARTE: O que a Capital Nacional da Literatura faz para promover a leitura?
EDEMÍLSON BRANDÃO: Antes de pensar o macro, tivemos que resolver questões do micro. Proporcionar espaços dedicados ao acesso da população a leitura. E quando digo leitura, não estou falando somente de livros; leituras podem ser múltiplas. Multiplataformas.  E isso começa pelo lugar, pelo espaço que deve ser referência: a Biblioteca Pública Municipal Arno Viuniski. Então nossa primeira ação que fizemos ao assumir a Secretaria Municipal da Educação (SME) em 2013 foi colocar a biblioteca nos documentos oficiais do município, porque mesmo nós sendo a capital nacional da literatura, a Biblioteca Municipal não constava em nenhum tipo de documento oficial, nem mesmo no roteiro turístico da cidade. Então a primeira coisa foi fazer a biblioteca constar nesses roteiros turísticos, transformar a biblioteca em uma concepção nova. Nós decidimos colocar na biblioteca apenas livros que fossem reais e trazer literaturas novas. Ali foi feito uma ação muito grande, nós procuramos ver o que as pessoas leem. Então fizemos uma pesquisa com as editoras e livrarias e compramos todos os best-sellers: em uma semana todos os livros foram emprestados para a comunidade. Isso mostrou o quanto eles queriam ter acesso a uma literatura nova.

Foto: jornal O Nacional
Biblioteca Municipal após a reforma – Foto: Jornal O Nacional
Biblioteca Municipal antes da reforma – Foto: Divulgação/PMPF

E não fica só na Biblioteca Municipal. As mudanças também acontecem nas bibliotecas da rede municipal de ensino. Nas escolas, não basta a biblioteca ser uma sala cheia de livros, sem nenhum atrativo. O aluno tem que ter a vontade de estar na Biblioteca. O espaço deve ser múltiplo. Por que não uma pista de skate junto a biblioteca? Já tem escola municipal implementado isso. Transformar as bibliotecas em espaços culturais que abram espaço para todas as formas de manifestação cultural. Espaço para leitura de livros, leitura de mundo.

C: Como esta mudança foi implementada?
EB: De várias formas. Na Biblioteca Arno Viuniski, começamos diversificando os espaços, já que ela sempre foi um espaço para os aficionados pela leitura. Então o grande desafio foi romper essa lógica. Nós fizemos uma reforma em que a biblioteca seria um lugar para tudo, onde haveria espaço para cultura, para manifestação artística. Se tratou de uma ruptura, porque muitas pessoas antigas achavam que lá tinha que ficar em silêncio. Não, ao contrário! Tem que ter eventos lá dentro, tem que ter recital. Até porque hoje o nosso leitor novo não está só lendo; Ele está ouvindo uma música enquanto lê.

Sala Infanto-Juvenil Biblioteca Municipal – Foto: Fabíola Hauch

Mudamos também a lógica da biblioteca. Todos os espaços eram de leituras. O que nós fizemos foi uma sala para pessoas que não leem. Aquela sala é um espaço para estimular a leitura e para construção de história, mas de maneiras diferentes. Nesta sala não existem livros, mas se tem acesso a leituras, através de computadores.

Assim fomos construindo os espaços. Hoje temos uma área dedicada para escritores passo-fundenses. Nós pegamos uma estratégia do tipo, se você é passo-fundense e escreveu um livro, venha até a biblioteca e coloque uma cópia do seu livro aqui. Descobrimos muitos escritores nascidos na cidade que estão escrevendo, que hoje vivem aqui ou fora, inclusive no exterior, mas que não tem espaço na mídia. Além disso, muitos dos que estão fora de Passo Fundo estão publicando produções científicas. Precisavam de um espaço. A Biblioteca Municipal proporciona isso.

Foto: Divulgação/PMPF

C: Como incluir cada vez mais leitura às pessoas?
EB: A inclusão deve ser pensada em cada processo, em cada passo dado. Na reforma que fizemos na Biblioteca Municipal, pegamos operários, que não tinham inserção na biblioteca e pouquíssimo contato com leituras, e trabalhamos com eles da seguinte forma: vocês vão trabalhar conosco fazendo um roteiro de construção. Primeiro eles tiveram que fazer as estantes de livros em um dia só. Todo o material restante da estante teria que ser reaproveitado e não poderia ser jogado fora. Assim surgiu um dos painéis que decoram a biblioteca, feito com pedaços de madeira. Depois, quando estantes e painel estavam prontos, eles tinham que pintar com a cor que representava o sentimento deles em relação a biblioteca. Dissemos a eles: Pinte com a cor que te remete ao sentimento que você tem em relação a leitura. Isso vem da ideia de Marshall Rosenberg, que trabalha as emoções a partir das cores. Eles achavam estranho tudo isso. Hoje a biblioteca toda é colorida, com as cores dos sentimentos dos operários.

C: Que outras mudanças serão feitas?
EB: Estamos com um novo projeto de biblioteca. Ela vai ser demolida e vamos criar um prédio “imenso”. Queremos chamar a atenção da população para a biblioteca. Desde crianças até os adultos. Além disso, devemos perpetuar o legado da leitura. Vamos fazer um mural, um espaço onde a criança de Passo Fundo escreva no mural o título do livro que gostaria de escrever durante sua vida. A ideia é que, depois do mural pronto, como uma espécie de incentivo para essas crianças, realmente elas conseguissem publicar o livro dos seus sonhos. Outro aspecto é a inclusão. Um jardim para crianças cegas. Nós estamos cultivando plantas que trilharão as crianças, através dos aromas e texturas. A gente quer construir o primeiro jardim para cegos do Brasil.

Também vamos concluir o espaço Prisma, na Gare. Na parte de cima, haverá uma área digital e embaixo um espaço games. Vai ter impressora 3D, máquinas de corte a laser, porque é a ideia é incluir os jovens na Geração Maker.

Espaço Prisma no Parque da Gare – Foto: Divulgação/PMPF

Conseguimos também melhorar as bibliotecas das escolas e abrir espaços, construir salas e projetos inovadores. Nós vamos construir uma biblioteca nova ali na Escola Dom José Gomes, do bairro Santa Rita, onde haverá túneis (feitos com tubulação de concreto) e ao lado vai ter uma pista de skate; a biblioteca da Escola Municipal Notre Dame, tem um espaço cultural que converge, ao mesmo tempo, em biblioteca. O objetivo das mudanças é fazer a intervenção mesmo, integrar a biblioteca com o prazer da criança com aquele espaço. Esses projetos estão iniciando aos poucos, graças a aportes de recursos federal. A ideia é terminar a gestão com, entre inaugurações e ampliações, 30 bibliotecas.

Na literatura um dado importante: na pesquisa que se referia a per capita de leitores no Brasil, nós mantemos a primeira posição nacional, com um diferencial muito grande, quem mais lê em Passo Fundo são as crianças da rede municipal. Quando você tem políticas públicas focadas nesse segmento da literatura, as coisas acontecem.

C: Na última edição da Jornada Nacional de Literatura, a Rede Municipal teve um papel muito importante. Como vai ser a participação na edição 2019?
EB: Já começaram. Tem os Circuitos de leitura que vem acontecendo nas escolas, nós inclusive vamos aumentar o número de escolas participantes. Nosso público na Jornada e no Festival de Folclore é muito fiel, dizemos assim, porque hoje, nós temos capacidade de levar os alunos a qualquer evento na cidade. No caso na Jornada é um pouco mais complicado, porque o nosso público é maior do que a oferta de vagas dadas pela UPF. Então o que nós temos é uma restrição do número de alunos que participam da Jornada de Literatura, pois privilegiamos as crianças dos anos finais.

O fato de nós termos todo aluno da rede com uniforme escolar garante a segurança para a participação nos eventos. Hoje, graças ao transporte escolar e graças ao uniforme, nós garantimos plateia em qualquer evento da cidade.

16ª Jornada Nacional de Literatura/2017- Foto: Erviton Quartieri Jr

Por:
Pedro Borghetti e Eugenio Siqueira

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