Ilustração: Fáõü

Vivemos num mundo tecnológico. Somos tecnológicos. E tecnologia está presente em todo lugar. No trabalho, nas escolas, nas ruas, em casa. Tecnologia não discrimina idade. É fácil encontrar crianças que ainda não sabem nem amarrar os sapatos navegando na internet e usando smartphones ou tablets. Mas será que esse início tão precoce no mundo da tecnologia é benéfico para os pequenos?

De acordo com a psicóloga Marilise Brockstedt Lech, é inegável os benefícios que a tecnologia nos proporciona. Porém, a doutora em educação e professora na Universidade de Passo Fundo afirma que, como tudo que vem em excesso pode ser prejudicial, o contato exagerado e uso descontrolado de dispositivos eletrônicos também pode causar um vício:

– Nem todos os jogos e aplicativos são nocivos. O problema é o uso descontrolado de dispositivos (celulares, tablets, computadores, vídeo games, televisores). E isso começa a ficar evidente na falta de interesse da criança em manter contatos com o mundo real, em especial com brincadeiras ao ar livre.

Superexposição

Segundo a doutora Marilise, a superexposição da criança a celulares, internet, smartphones e televisão está relacionada a vários problemas orgânicos (problemas físicos) e psicológicos (veja tabela abaixo).  Outra consequência comum é o atraso global do desenvolvimento da criança. Em especial os desenvolvimentos motor e emocional.

Mas, mesmo com tantas observações, alguns pais parecem não se preocupar com o tema. Com a desculpa de que é importante para a criança saber trabalhar com as novas tecnologias desde cedo ou simplesmente para entreter ou “acalmar” a criança, os pais acabam deixando-as livres para usar os equipamentos da forma como quiserem, sem limites, sem regras:

– Sei que posso estar errada, mas somente com o celular na mão ela desgruda de mim e me deixa fazer as tarefas – comenta Susana Linnenberg, mãe da pequena Raíssa, de 04 anos.

Foto: Nadya Eugene

 

Não existe um consenso que determine a idade ideal para que as crianças comecem a utilizar dispositivos tecnológicos. A maioria dos estudiosos defendem que as crianças não devem ficar alheias ao boom tecnológico que vivemos, mas que o contato seja moderado, principalmente no período chamado de Primeira Infância (0 a 5 anos). Pequenas experiências que permitam um contato sem exageros, mas, que ao mesmo tempo não as tornem alheias a tecnologia. E isso pode acontecer de maneira saudável através de jogos simples, lúdicos. A doutora Marilise exemplifica:

– Existem jogos que podem ajudar na experiência de aproximação da criança com a tecnologia. Jogos de pintura no celular pintam determinado objeto com um simples clique. Porém, além dessa brincadeira virtual, a criança também tem que ter as brincadeiras reais. Fazer a pintura no papel também! Não podemos substituir a motricidade ampla pelo uso da tecnologia.

Outros estudiosos dizem que a partir dos cinco anos, as crianças não podem passar mais de uma hora “conectada”. E que esse tempo não deve ser contínuo. É preciso que o corpo da criança faça pausas para que o cérebro descanse, frente aos superestímulos. Já aos 10 anos, o tempo de exposição poderia passar as duas horas, desde que se mantenham os intervalos e uma opção por jogos mais tranquilos, menos violentos.

De acordo com um estudo da TIC Kids Online Brasil (2017) realizado com crianças e adolescentes de todo o Brasil entre nove e 17 anos, 85% dos jovens utilizam a Internet, sendo que 90% destes utilizam a rede pelo celular.

Fonte: TIC Kids Online Brasil

A tecnologia que educa

Claro que a tecnologia não é uma super vilã. Ela pode ser uma aliada. Confira no áudio abaixo as dicas da Doutora Marilise para que se faça um bom proveito da tecnologia no desenvolvimento infantil:

Em Passo Fundo existe um outro bom exemplo. Desde 2014, o projeto Escola de Hackers contempla estudantes do ensino fundamental das escolas públicas.  O principal objetivo é desenvolver habilidades na área da alta tecnologia, com ensino da programação de computadores e robótica. De acordo com o professor Dr. Adriano Canabarro Teixeira, o projeto foi uma inovação no país:

– No Brasil é a única experiência que um município assume de forma maciça a formação de estudantes para a programação de computadores. Experiências, por exemplo, realizadas nos Estados Unidos, lá já tem dados que comprovam que o aluno que programa tem um rendimento 30% superior nas outras disciplinas, em relação a aqueles alunos que não programam computadores – declarou Teixeira.

 

Foto: Gelsoli Casagrande

 

Em cinco edições, a Escola de Hackers já beneficiou 839 estudantes e neste ano uma nova turma com 120 crianças e adolescentes iniciou as atividades com o Gepid (Grupo de Estudo e Pesquisa em Cultura Digital na Educação) da Universidade de Passo Fundo formado por bolsistas e professores, com apoio da Prefeitura Municipal de Passo Fundo.

Segundo Teixeira, a atividade é desenvolvida semanalmente nas escolas, onde os alunos desenvolvem um programa de formatação em programação e outros exercícios práticos:

– A ideia da Escola de Hackers é retomar um pouco aquela ideia de que escola quanto espaço de socialização deve de fato preparar pessoas (hackers) para o mundo – concluiu.

 

Eugenio Siqueira e Pedro Borghetti.

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