O debate entre o impacto dos jogos de videogames considerados violentos no comportamento de crianças e adolescentes é mais discutido a cada atentado envolvendo a presença de jovens desta faixa etária. Entre os que defendem a prática de jogos, não entendendo que isso influencia nos comportamentos agressivos, e aqueles que são contrários aos games considerados violentos, principalmente para crianças e adolescentes, o tema ganhou mais um novo capítulo após o atentado na escola Raul Brasil, em Suzano, em março deste ano.

Se a discussão é ambivalente, o fato é que o vícios nos jogos já é considerado doença.  Isso porque a nova versão da Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde, o CID-11, documento que padroniza a codificação e problemas de saúde, já consta com o “gaming disroder”. O transtorno é caracterizado pelo excesso e compulsão de jogos de computador ou videogame.

De acordo com a professora Marilise Brockstedt Lech, professora da Universidade de Passo Fundo, Doutora em Educação pela PUCRS e psicóloga Educacional, os jogos violentos influenciam no comportamento agressivo de crianças e adolescentes.

“Sou totalmente contra aos jogos violentos. Aquelas pessoas que não têm boas estruturas psíquicas, de enfrentamento dos desafios, dos problemas, crianças que têm dificuldades nesse sentido, ficam permeáveis, com menos filtros pra conseguir entender o que acontece nos jogos não necessariamente é realidade”, explica.

Marilise ainda afirma que em atentados e massacres que vêm acontecendo, como o da tragédia em Suzano, e também em Realengo, por exemplo, houve comprovação que os jovens que cometeram os crimes jogavam esses games violentos em demasia.

“Somando o problema do bullying que sofrem na escola, os jogos violentos, a desestrutura familiar, problemas políticos e sociais, a falta de espiritualidade, é um conjunto de coisas que contribuem para essas ações”.

A professora ainda afirma que o tempo destinado aos jogos violentos poderiam ser aproveitados de forma mais benéfica. “Poderiam estar praticando esportes, aprendendo novas artes, estar criando melhores relacionamentos, levando a um bem estar social e evitando esses problemas maiores”, afirma.

Apesar das críticas, esses tipos de games geram grande lucro para suas produtoras. Um dos jogos mais criticados por especialistas é o “Grand Theft Auto”, o GTA. Ele é, justamente, um dos jogos mais vendido da história dos games. Em novembro de 2016, a saga de jogos GTA, que possui 15 jogos desde a sua criação em 1997, havia vendido mais de 250 milhões de cópias por todo o mundo. Seu último jogo, o “Grand Theft Auto V”, passou a ser o produto de entretenimento mais rentável de todos os tempos. O game ultrapassou a marca de US$ 6 bilhões em vendas, passando grandes blockbusters do cinema, como “Avatar”, “Star Wars” e “E o vento levou”, que arrecadaram 3 bilhões cada.

Outro jogo com grande número de vendas é “Call Of Duty”. A série de jogos de guerra, que também possui 15 games ao todo, está no hall de jogos criticados por especialistas. Nos três primeiros dias do último jogo da série, “Call Of Duty: Black Ops 4” gerou mais de meio milhão de dólares. As vendas de todos os jogos de “Call Of Duty” chegaram a US$ 15 bilhões. Os números expressivos de vendas dos jogos considerados violentos mostram que esses games tem grande preferência do público de todo o mundo.  E por isso, muitos defendem suas produções.

“Uma desculpa fácil”

Leonardo Constantin é fã de games e acadêmico do penúltimo nível do curso de Ciências da Computação da Universidade de Passo Fundo (UPF). Para ele, não há relação entre a prática de jogos que são considerados violentos em massacres e atentados envolvendo a autoria de crianças e adolescentes.

“É uma correlação falsa e forçada de quem quer achar uma desculpa fácil para impor mais controle aos filhos. Acredito que tenha a ver com o relacionamento com os pais e rejeição social, por exemplo.”

Ainda cita o termo “incel”, em inglês, a abreviatura de involuntary celibacy, para justificar os atos violentos em massa. Na tradução livre para o português, o celibato involuntário, é a situação de pessoas que não têm relacionamento românticos e sexuais, desejam muito isso, e muitas vezes, acabam colocando a culpa nas mulheres, com comentários misóginos e racistas.

“Há fóruns específicos para os “incels”. Sem dúvida, é mais um agravante para esses atentados acontecerem”, conclui Leonardo.

 

Luiz Carlos de Medeiros e Lucas Santos

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