A sociedade espera um comportamento feminino, mas nos dias atuais a quebra desses padrões se tornou diária

A mulher levanta da cama de manhã procurando algo para vestir. Em seu armário, blusas com flores e cores claras que se ajustam às curvas do corpo, porque mulheres devem se vestir bem. Depois procura em meio à diversos batons uma cor suave para usar, pois mulheres que usam batons fortes são promíscuas. Enquanto ao mulheres que não se arrumam são desleixadas.

Depois de se arrumar, vai para a cozinha e prepara seu café da manhã, pois mulheres devem saber cozinhar. E depois de terminar, lava as louças que o namorado deixou na pia, porque mulheres devem saber fazer as atividades domésticas. Ela não tem um nome, tem vários, porque representa muitos rostos.

Mulheres devem saber muitas coisas. Devem estudar porque homens não gostam de mulheres burras, mas ao mesmo tempo não podem ser muito inteligentes. Devem se vestir bem, mas não muito, pois mulheres que se arrumam demais estão procurando alguém. Devem usar maquiagem, afinal, mulheres devem ser bonitas, mas não muita maquiagem, para não enganar.

A mulher na maternidade

A pressão do que a mulher deve ser ou fazer não é nova. Não é recente. Surgiu junto com o mundo e vem se moldando com sua evolução, apesar de não evoluir. Se em 1200 o que se esperava da mulher era servir ao marido e ao lar, em 1950 ainda eram publicados manuais de como ser uma esposa, trazendo em suas páginas uma série de instruções de submissão e serventia. E ainda hoje encontramos histórias de mulheres que vivem suas vidas como se o mundo tivesse parado em décadas passadas. Mulheres como Karmen Cardoso.

Karmen engravidou aos 21 anos do namorado da época, não havia planejado nada. O namoro não durou muito e o envolvimento do pai com a criança não chegou a acontecer. “Tive uma filha que resultou de um breve namoro, todos cobravam de mim para ser a mãe perfeita, cuidar, alimentar, mas não tinha condições, passamos fome, e o pai dela não me ajudou em nada, quem me ajudou foi meu irmão e minha cunhada.” E Karmen não é a única.

Em 2017 mais de 1 milhão de famílias no Brasil eram constituídas por mães e seus filhos. E isso se reflete no perfil das mães brasileiras, uma vez que o número de mulheres que decidem ter filhos mais tarde aumenta cada vez mais. Segundo dados do IBGE, 56% das mulheres enxergam dificuldade no sucesso profissional quando se tem filhos, e 3 em cada 7 mulheres tem medo de perder o emprego se engravidar. E a maioria ainda diz não poder contar com o marido para atividades domésticas. Pois ainda são cobradas nas atividades domésticas, como preparar refeições, limpar a casa e cuidar dos filhos.

E a cobrança das mães vai além dos cuidados com a casa, chegando ao cuidado consigo mesmas.

A mulher e a aparência

O padrão de beleza feminino mudou ao longo da história da humanidade. Se para os homens das cavernas e europeus vitorianos o padrão de beleza era uma mulher curvilínea, hoje em dia, quanto mais esguia melhor. A indústria da moda transformou a cobrança com o corpo feminino em uma prece.

Mulheres não devem engordar pois perderão seus parceiros. Também não devem ter rugas e cabelos brancos, pois mulheres não envelhecem. Mas os padrões não afetam apenas mulheres de idade maior, em 2018 um estudo realizado pela Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo apontou que 77% das jovens paulistanas tinham tendência a desenvolver distúrbios alimentares. Segundo o levantamento, para as entrevistadas 85% disseram acreditar que existe um padrão de beleza imposto pela sociedade

A pesquisa “Há uma Beleza nada Convencional”, realizada pela Dove em 2016 apontou que entre as 4 mil mulheres entrevistadas, 66% concordam que na sociedade atual é fundamental cumprir com determinados padrões de beleza.

E que 71% se sentem pressionadas para serem perfeitas e boas em tudo o que fazem. E como nem sempre conseguem, 8 em cada 10 mulheres evitaram um compromisso social, pois não se sentiam bem com seu próprio corpo. E não é só isso: 7 em 10 mulheres e garotas acreditam que mulheres bonitas possuem mais oportunidades.

A mulher e o mercado de trabalho

Durante muito tempo a vida profissional da mulher era restrita às paredes de sua casa, à sua família. Isso foi influenciado pela Revolução Industrial e pelas guerras mundiais. Quando homens foram para a guerra, mulheres tiveram que assumir seus postos na linha de produção bélica.

O espaço conquistado pelas mulheres no mercado de trabalho cresceu, mas sua participação neste ainda continua menor. É o que apontam dados divulgados em 2018 pela Organização Internacional do Trabalho. Segundo a OIT, enquanto 75% dos homens com mais de 15 anos estão na força de trabalho, entre as mulheres essa proporção é de 48,5%. Nos países árabes, a diferença é ainda maior, pois a taxa de participação no mercado de trabalho é de 77% para os homens e 18% para as mulheres.

Ao mesmo tempo, a carga horária das mulheres é maior, principalmente quanto mais baixa a renda. Além de muitas mulheres possuírem mais de um emprego, elas ainda trabalham em casa, cuidando dos afazeres domésticos.

Projeto de extensão que vai além da universidade

O projeto de extensão Economia Solidária e Equidade de Gênero, é coordenado pela professora Patrícia Ketzer e visa o empoderamento de mulheres, por via da geração de renda e da criação de redes de apoio, promovendo o crescimento econômico sustentável. As ações estão articuladas às proposições dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) propostos pela Organizações das Nações Unidas (ONU).  O projeto envolve o CRAS de Passo Fundo, onde são realizadas oficinas sobre questões de gênero com adolescentes a partir dos 14 anos.

A bolsista: Andressa Wentz participa do projeto a um ano, e enfatiza que o projeto é uma economia para a mulher, a partir do momento que as mulheres começa a produzir para elas mesmas, ocorre uma libertação. Dentro do projeto é trabalhado o espaço solidário, que é um grupo de mulheres com perspectiva de economia solidária, onde os alunos realizam oficinas, coberturas e organizações de eventos, além do cuidado com as divulgações em rede social.

Ela conta que entrar no projeto foi: “Entrei no projeto porque essas questões de mulheres me interessam muito, e eu acho que a universidade  tem a obrigação de trazer projetos sustentáveis que incluam a comunidade, até porque  o objetivo da extensão  e ser uma universidade comunitária, prestar serviços a comunidade, e é muito importante você sair da universidade e colocar essas questões na prática com mulheres. E elas são incríveis, especiais, criei até um vínculo com elas.”

A sociedade ainda cobra muito das mulheres, não é só de hoje e nem acabará amanhã, a cada dia surge novos padrões de beleza, estética. Quando uma mulher fala que não deseja ter filhos parece um choque a quem ouve isso, pois para alguns, principalmente mais velhos, ainda é forte e está muito enraizado essa cultura da maternidade, e acaba sendo uma quebra de tabu uma mãe solteira.

A universidade ajuda e auxilia mulheres com os projetos de extensão, e isso auxilia a comunidade a quebrar padrões pré estabelecidos pela sociedade, de modo que uma mãe solteira, que trabalha, ou uma mulher que não queira ter filhos não seja vista com outros olhos.

Gabriele Costa e Jordana Wustro

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