Foto: L&T Other Vision

De 7 de junho a 7 de julho de 2019 ocorre a oitava edição da Copa do Mundo de Futebol Feminino, na França. Apesar de estarmos no “país do futebol”, a Seleção Brasileira nunca conquistou um título e por isso vive uma grande expectativa. Vários fatores motivam a modalidade para um crescimento e a busca pelo título. Ao mesmo tempo, uma lista de fatores – como a questão estrutural, cultural e financeira – acabam sendo obstáculo para quem sonha alcançar uma vida profissional através do esporte.

Na microrregião de Passo Fundo o futebol praticado por mulheres nunca teve um grande destaque e em 2019 nenhuma equipe está participando do Campeonato Gaúcho da modalidade. Uma das saídas para quem gosta de jogar é a pratica do futebol de salão, onde uma equipe participa da Liga Gaúcha de Futsal. O Liverpool de Passo Fundo manda seus jogos em Caseiros, cidade a 75 km de distância. Hoje tem o seu elenco composto por 19 atletas de 19 a 33 anos que não recebem salário.

Uma das atletas experientes do time é Bárbara Kuhn, 33, natural de Tapera, que pratica futebol desde os 12 anos em diversas cidades da região e sempre encontrou dificuldades devido a diferença com o esporte masculino. “Principalmente na questão financeira, eu acho que o futsal feminino é bem desvalorizado, a gente tenta, procura ajuda, mas a gente consegue muito pouco”, relata Bárbara.

Legenda: Pelas dificuldades financeiras, time de Passo Fundo não tem folha salarial para suas atletas  (Crédito: Pedro Borghetti)

Outra atleta do time é Lauren Adriani Ricerz da Rosa, 19, nasceu em Carazinho e após uma passagem pelo Grêmio, onde foi campeã gaúcha em 2018, está de volta a região para disputar a competição estadual pelo Liverpool. “Poder ajudar a equipe é sempre importante, eles que me ajudaram tanto para eu ir para um grande clube, poder retribuir é muito bom”.

Segundo Lauren, a questão financeira é a principal diferença do futebol masculino e do feminino. Sem apoio, as atletas acabam sofrendo, como é o caso observado nos grandes clubes. Dos 52 times participantes do Campeonato Brasileiro, apenas oito tem atletas com carteira assinada, o restante adere a bolsa e ajuda de custos para pagar jogadoras.

“As meninas que eu convivi ano passado, com o elenco feminino do Grêmio, muitas trabalhavam no turno inverso, treinavam e era exaustivo”, destaca a jogadora Lauren.

Do futebol para o futsal

Outra saída para crescer no esporte profissional é ir para clubes de destaques do futsal, como é o caso de Manuela Fonseca, formada em Educação Física na Universidade de Passo Fundo, atleta de futsal da equipe Malgi, de Pelotas. Ela não considera que o futsal seja uma alternativa mais fácil comparando ao futebol. Devido à obrigatoriedade com os times brasileiros na Série A do Campeonato Brasileiro Masculino de Futebol, o espaço na mídia cresceu, segundo a jogadora.

“Claro que depende muito do lugar também. Tem um caso de uma menina que saiu do futebol e agora joga futsal comigo. Ela saiu de um dos maiores times do Rio de Janeiro porque teve problemas com atraso de salário. Percebemos que apesar das evoluções que a modalidade está demonstrando, financeiramente isso ainda está longe de acontecer.”

Manuela conta que as principais dificuldades enfrentadas no universo do futebol são estruturais. “Times que não tinham fisioterapeuta, nutricionista, não tinham apoio de prefeitura. Hoje no clube que estou isso não acontece. Felizmente tenho todo suporte aqui. Mas se financeiramente eu tivesse dependido somente dos clubes, talvez nem estivesse presente neste meio”, explica.

A comparação do futebol masculino e feminino, no sentido físico e estrutural tem disparidade muito grande. Quando se fala em resistência com o esporte no âmbito feminino, a questão cultural surge sempre como um dos tópicos que encabeçam a lista de dificuldades.

“Acho que estamos num processo de mudança. Ainda não está no ideal, tanto em questão de reconhecimento, oportunidades ou financeiramente. É difícil, mas muita coisa já evoluiu e esperamos que continue assim. Torcer e lutar para que as coisas melhorem é o que nos permite sonhar, mas o que faz continuar jogando com certeza é a paixão por jogar”, finaliza.

Falta de incentivo ainda é grande

O futebol também sempre foi o sonho da passo-fundense Mylena Pedroso, de 20 anos, que vem conquistando os seus objetivos aos poucos. Hoje jogadora do Internacional de Porto Alegre, ela afirma que o futebol feminino vem mostrando evoluções no cenários financeiro. Mesmo assim, ainda há dificuldades com contratos e com a carteira de trabalho assinada.

“Há diferentes níveis, porque a modalidade ainda está em evolução. Tem mulheres que recebem uma ajuda de custo, outras salários podendo ser significativos ou não. São casos raros as que além do salário possuem patrocinadores. Mas o futebol feminino é uma profissão sim”, explica.

Se a carência por visibilidade e incentivo no futebol é grande, no futsal não é diferente. Segundo Mylena, a falta de incentivo e a visibilidade da modalidade são fatores fundamentais para o declínio do esporte.

“Possuímos por 9 anos consecutivos a melhor jogadora de futsal do mundo (3 anos – Vanessa Pereira, 3 anos – Luciléia Minuzzo e 5 anos – Amandinha), porém a modalidade ainda não ganhou seu devido espaço. Acredito que o futebol, devido a obrigatoriedade dos clubes seria uma melhor alternativa hoje em dia” diz.

A jogadora do Internacional também conta afirma que tanto o futsal quanto o futebol feminino sofrem consequências com o preconceito e com a forma inferior que é visto comparado ao masculino.

“Quando junta as palavras futebol feminino e dificuldades, a primeira coisa a ser lembrada é o preconceito, pois a sociedade ainda está aceitando a modalidade. A questão financeira e a estrutura na maioria dos clubes atuantes devido à falta de investimento são outras dificuldades. Sempre tive o apoio da minha família, o que me ajudou e ajuda a seguir com meu objetivo, promover a modalidade com seu merecido valor”, afirma.

Alternativa obrigatória

Para valorizar o apoio ao futebol feminino, a CBF (Confederação Brasileira de Futebol) determinou que todos os 20 participantes da Série A do Campeonato Brasileiro Masculino precisarão se enquadrar no licenciamento de clubes e manter um time de futebol feminino adulto e de base. No momento que ainda não há profissionalização para a modalidade, apenas quatro times confirmaram que efetivamente vão pagar salários às jogadoras, com valores que variam de R$ 1.500 a R$ 4 mil.

Luiz Carlos Medeiros e Pedro Borghetti

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