A objetificação e o estereótipo das mulheres no cinema é notável. Elas não aparecem nos filmes de ação ou aventura se não for para chamarem atenção pelo corpo, do mesmo modo que quase não estão presentes nos filmes de terror, a não ser para fazerem papéis ingênuos, sendo as primeiras a morrerem. No início do século XX, a mulher desempenhava apenas funções de dona de casa, esposa, mãe ou amante nas telas, eram vistas como coadjuvantes ou alívio cômico dos personagens masculinos e tinham sua representação marcada como sensível e/ou frágil.

Em relação à representação, há uma grande diferença em comparação aos homens, principalmente quando se trata da sexualização. Uma pesquisa feita no Instituto Geena Davis de Gênero na Mídia, com o apoio da ONU Mulheres e da Fundação Rockefeller, revela que as mulheres são duas vezes mais propensas que os homens a aparecerem com trajes sensuais, transparentes e/ou totalmente nuas. Marilyn Monroe é um ótimo exemplo desse papel sexual da mulher no cinema. Sua primeira aparição foi no filme The River Of No Return (O Rio das Almas Perdidas), com um papel erótico e sexualizado. Depois disso, elas fez outros papéis parecidos, o mais famoso sendo no filme The Seven Year Itch (O Pecado Mora ao Lado), algo que ficou marcado para sempre em sua carreira, afinal, todos que pensam e Marilyn sempre imaginam aquela cena famosa dela com o vestido branco, em cima do ventilador.

Isso, além de aumentar consideravelmente o machismo, favorece a autoestima baixa, ansiedade e o desespero e busca constante de “corpos considerados perfeitos”.

A estudante de Artes Cênicas da Universidade Federal do Rio de Janeiro, L.E.H, sempre quis entrar nesse meio, desde criança fazendo cursos de teatro e cinema. Aos quinze anos, tentou pela primeira vez entrar em uma das maiores emissoras do Brasil, sendo negada por conta de seu corpo:

Eu pesava 65 quilos, que para a minha altura era o peso perfeito. Eu frequentava a nutricionista e tentava comer saudável, já que sabia que, infelizmente, esse mundo era de aparências. Quando fui fazer o teste, me disseram que eu era boa, mas precisava emagrecer um pouco para parecer ideal em frente às câmeras”, comenta.

Ela conta que tentou perder mais peso, mas isso não acontecia tão rápido quanto queria (já que eles deram um prazo de um mês para que ela perdesse 7 quilos), então parou de comer. A estudante lembra que ficava o dia inteiro apenas com frutas e/ou sopas, até que teve uma crise de ansiedade e se alimentou de dois hambúrgueres, se forçando a vomitar logo depois. Ela ficou com bulimia por dois anos e teve que ser levada ao hospital.

Tipo, eu assistia as novelas da emissora e queria ser como elas, não entendia o porquê do meu corpo não ser aceito, mas faria tudo para que fosse.”

Estereótipos comuns a mulheres latinas. (Warner Bros)

 

Por mais que queira demonstrar o contrário, com campanhas, falas e atitudes de protesto, o universo cinematográfico, brasileiro ou estrangeiro, ainda é dominado pela presença masculina. Com a pauta da representatividade e do empoderamento feminino presente por toda a parte (televisão, impressos, redes sociais), surgem também questionamentos a respeito da participação e da representação feminina no cinema.

Ao longo da história, o cinema evoluiu sob a esfinge do macho alfa. Além de desfavorecidas nas narrativas masculinas que dominaram os filmes, as mulheres eram consideradas incapazes de desempenhar determinadas funções no set de filmagem (principalmente aquelas que envolviam aspectos técnicos). A falta de profissionais do sexo feminino por trás das câmeras é um reflexo da desigualdade de oportunidades no que diz respeito ao trabalho na indústria cinematográfica.

Dados do informe de Diversidade de Gênero e Raça nos Longa-Metragens Brasileiros, realizado pela Agência Nacional do Cinema (Ancine), mostram que, dos filmes lançados em 2016, a direção liderada por elas beira a 20%.

Kathryn Bigelow é a única mulher a ter recebido um Oscar na categoria de Melhor Direção (em 2010, por Guerra Ao Terror). Apenas cinco mulheres foram nomeadas nessa categoria em 90 anos do prêmio (Lina Wertmüller, Jane Campion, Sofia Coppola, Kathryn Bigelow, and Greta Gerwig).
Recentemente, a escritora americana Melissa Silverstein, no portal Women and Hollywood chegou a questionar os motivos pelos quais a indústria cinematográfica não parece valorizar as narrativas femininas:

Está claro que Hollywood tem um problema com as mulheres. Não é somente por não confiarem na visão de uma mulher para dirigir um filme; eles não acreditam que as pessoas queiram ver nossas histórias. Existe um senso comum de que as histórias masculinas são universais, mas que as femininas são apenas para mulheres”.

 

Os problemas no que diz respeito à mão de obra feminina nas produções de Hollywood vão além da falta de representatividade. Desde o ano passado, movimentos como #MeToo#TimesUp, onde todos as celebridades que foram no Globo de Ouro em 2018 usaram roupas pretas, uma metáfora para o luto de todas as mulheres que já foram ou são abusadas sexualmente, contribuíram para expor abusos e assédios que eram tratados como normais na indústria cinematográfica, derrubando figuras renomadas do mercado norte-americano, como o produtor Harvey Weinstein, sem falar A repercussão do caso foi tão grande que inúmeras vítimas de outros abusadores de manifestaram e passaram a exigir justiça contra esse tipo de comportamento. Até mesmo no Brasil foi lançado um documento nesse sentido, a cartilha Pacto de Responsabilidade Anti Assédio Sexual no Setor do Audiovisual, produzida de maneira colaborativa para “combater a ocorrência de comportamentos abusivos no ambiente de trabalho e nas suas adjacências”.

Além do preconceito, abusos sexuais e hipersexualização das mulheres, ainda há outro problema: o abuso por meio de produtores, que utilizam o seu poder para manipularem as mulheres. O teste do sofá é o modo mais famoso de conseguir isso, um fenômeno que envolve a troca de favores sexuais a alguém que seja superior. L.H.E também passou por isso, sendo um trauma constante em sua vida.

Eu resolvi tentar de novo naquela emissora, já mais magra por conta da doença e de tudo que eu passei. Quando fui fazer o teste, eu passei, mas depois fui chamada para outra reunião, onde o diretor me levou para uma sala, sozinha, e disse que eu conseguiria as coisas mais fácil se me esforçasse mais”. Lamenta.

O teste do sofá é um grande problema no Brasil e no mundo, sendo passado por várias pessoas que tem o sonho de conseguir chegar ao estrelato. L.H.E teve sorte de conseguir sair antes de tudo, mas infelizmente desistiu de seu sonho.

Se eu tiver que passar por isso para conseguir o que quero, prefiro ficar aqui e não fazer nada”, conclui.

 

A importância de dialogar

Com o preconceito sendo constante, as Universidades tem um papel de grande influência no pensamento dos acadêmicos. A Universidade de Passo Fundo (UPF) por meio do projeto de extensão Ponto de Cinema, utilizou a sétima edição de um encontro de cinema para falar sobre as mulheres.

Este projeto ocorre desde 2013, na Faculdade de Artes e Comunicação, com o objetivo de dialogar filmes e trazer eles para a vida. Em 2019, houve uma mudança: os cinco filmes vão transmitidos vão fazer parte de uma temática e para começar, a comissão organizadora (composta pelos professores Bibiana de Paula Friderichs, Fábio Rockenbach e Cléber Nélson Dalbosco) decidiu começar com o tema “Mulheres no Cinema”.

Debate no Fac Cine Fórum. Foto: Felipe Troian/José Sodré

Os filmes desta edição foram Roma, de Alfonso Cuarón, debatido pela idealizadora e programadora do CineClube Cinematógrafo em Passo Fundo, Rafaela Pavin, e pela Secretária da Comissão de Direitos Humanos de Passo Fundo, Edivânia Rodrigues da Silva;

Três Anúncios Para um Crime, de Martin McDONagh, debatido pela publicitária, especialista em Arte, mestre em História e sobrevivente de abuso doméstico, Aline do Carmo e pela doutora em direito, doutora em Direito pela Unisc, conselheira do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher, Coordenadora do projeto de extensão Projur Mulher e Diversidade e do grupo de pesquisa Dimensões do Poder, Gênero e Diversidade do PPGDireito, Josiane Petry Faria;

Na quarta-feira, o filme foi A Garota Dinamarquesa, de Tom Hooper, e debatido pela graduada em Medicina com atuação na área da Medicina de Família e Comunidade, especialista em Medicina do Trabalho, Ana Roberta Ceratti e pela psicóloga, especialista em metodologia do Ensino Superior e Mestre em Educação pela UPF, Suraia Ambros;

Na quinta-feira o filme foi Garota Interrompida, debatido pelo especialista em cinema e mestre em história, Cléber Nélson Dalbosco e pelo especialista em Psiquiatria pela UFRGS, Mestre em Psicologia do Desenvolvimento, médico psiquiatra da Infância e Adolescência do Ambulatório de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da UPF, Cláudio Wagner;

O último filme foi Mad Max: Estrada da Fúria, debatido pelo coordenador do projeto Ponto de Cinema, especialista em cinema e jornalista Fábio Rockenbach e pela mestre em Educação e Doutora em Letras. Luciana Crestani.

Infográfico mulheres no cinema em 2017 (Eugenio Siqueira)

 

Mariana Baciquetto e Eugênio Matheus Siqueira

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