Os filhos desejam, ou não, sair da casa dos pais e construir carreira, família ou optam por passar algum tempo viajando e assim criam experiências de vida. Seja qual for a escolha de cada um existe, em todos, o sentimento de precisar e querer fazer algo por si próprio, trilhar um caminho novo e andar com suas próprias pernas.

No Brasil é comum que as pessoas saiam da casa dos pais logo após terminar o ensino médio, aos 18 anos, seja para iniciar um emprego ou começar a graduação. A transição da adolescência para a fase adulta é uma época de grandes transformações e isso repercute nas escolhas que cada um toma.

Tem se observado nos últimos anos uma grande preocupação acerca do envelhecimento do homem do campo.  Um reflexo da expansão urbana e de uma cultura de que as cidades representam a evolução e o campo o atraso, faz com que jovens oriundos de famílias tradicionalmente rurais, abandonem a agricultura para procurar alternativas nas grandes cidades.

Faixa etária produtores rurais de acordo com o censo agropecuário 2017(Produzido por: Beatrys do Carmo)

De um lado famílias cobram que seus herdeiros sigam o natural curso hereditário existente até então em suas histórias, mas em contrapartida, vemos situações onde pais incentivam que as novas gerações tracem suas próprias histórias. Com a maior facilidade de acesso ao ensino percebe-se um grande incentivo da procura de cursos superiores e formação educacional.

Embora reconheçam o valor e a dignidade em seu trabalho, essencialmente braçal, hoje em dia produtores rurais investem em novas oportunidades para seus filhos, em atividades menos insalubres e de cunho intelectual.

A estudante do IV nível de Direito da UPF, Eduarda Caríssimo Cristani, 18 anos, é de uma família tradicionalmente envolvida no meio rural, onde atividades agrícolas e pecuárias são desenvolvidas há anos entre as gerações. Em meio aos trabalhos com leitaria, aviário e lavoura, Eduarda não se identificou com a tradição, e buscou criar sua própria história. “Sempre quis sair do círculo que meus pais vivem, nunca tive pretensão de ficar, sempre quis conhecer o mundo e fazer algo diferente, algo para o mundo e para minha própria evolução”, afirma.

Seguir a tradição ou seguir seus sonhos? (Foto: Beatrys do Carmo)

Diante da preocupação da sucessão do trabalho familiar, o pai incentivou sua primogênita a fazer ensino superior em uma área que proporcionasse a continuidade da produção rural, e seguisse a tradicional trajetória. “Cheguei a fazer vestibular para agronomia, passei, mas depois de um tempo percebi que não iria cursar aquilo por mim e sim pelo meu pai”, revela a estudante.

Mesmo diante dos dilemas, a família optou por apoiar a filha na decisão que se encaixasse mais com suas escolhas, observando que além de gerações distintas, mantinham também desejos e metas diferentes. “Decidi prestar vestibular pra direito e passei, no começo não sabia muito bem se era aquilo, mas minha mãe sempre me apoiou e disse que tava tudo bem fazer esse curso”, relata Eduarda.

A mãe de Eduarda, Adriane Maria Caríssimo Cristani, de 40 anos, conta que se preocupa com o futuro da propriedade da família e que inicialmente ficou com medo pela escolha da filha. Ao saber do desejo da filha em cursar direito, Adriane relata que ficou surpresa, pois considera que algum curso ligado a agricultura fosse mais apropriado para ela, “seria uma área interessante para ela crescer”. Sendo assim a filha poderia assumir o trabalho na propriedade familiar, fazendo parte de uma longa tradição.

Adriane, que sempre foi agricultora, considera o trabalho do homem do campo essencial, pois é o que provê todos os alimentos que são consumidos ao redor do mundo e se aflige ao pensar que os jovens não desejam mais ocupar este espaço que tem vital importância para a sobrevivência, Adriane argumenta que “se não tiver nós, se  não produzir alimentos, nem tirar leite, ninguém come”.

A mãe diz que aceita as escolhas da filha, considera que não é justo que Eduarda estude em um curso que não lhe agrada, e se ela algum dia desejar voltar para casa, assumir os negócios, ou mesmo cursar outra graduação, a família vai apoiá-la em seus objetivos.

Os sonhos da geração contemporânea não tem mais cabido nos hectares das propriedades rurais, a cidade se mostra atrativa e cheia de recursos, para que novos sonhos e trajetórias sejam construídos. “O que me motivou a sair do campo foi o fato de eu saber que aquele lugar não era pra mim, eu sempre tive sonhos grandes e não ia alcançar nenhum deles continuando lá”, afirma a jovem.

Beatrys do Carmo
Luísa Miorando

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