A estrutura familiar é um aspecto muito valorizado no campo. Tal pai, tal filho. Os mais velhos, por gerações, passaram para os filhos ensinamentos do campo que aprenderam com os pais. Tomar conta da propriedade, desenvolver tarefas e atividades para que futuramente, os filhos pudessem dar continuidade ao legado da família.

Uma realidade que dá sinais de ter ficado no passado. Segundo dados do IBGE, 30% das empresas familiares chegam na segunda geração e apenas 5% conseguem manter-se até a terceira. Uma tendência crescente no país que pode ser explicada pelo fenômeno do êxodo rural. Muitos jovens que cresceram no campo resolvem deixar o interior ou a propriedade dos pais para ir em busca de estudo, uma nova formação ou começar um emprego diferente da rotina tão conhecida, por quem nasceu e cresceu no meio rural. A distância da cidade e da fazenda, falta de tecnologia e a rotina pesada também são causadores do desestímulo dos jovens. Para a Coordenadora de Assistência Técnica e Extensão Rural e Social,  ATERS Juventude Rural, Clarice Vaz Emmel Bock, os maiores desafios para manter os jovens no campo estão em mostrar a importância que a profissão de agricultor tem, valorizá-lo enquanto pessoa que trabalha na unidade de produção familiar, proporcionar renda e capacitá-lo para realização das atividades. Assim como nas demais profissões, os agricultores precisam estar qualificados para exercer suas atividades. “Por isso, nós enquanto instituição que presta Assistência Técnica e Extensão Rural, estamos imbuídos em oferecer aos jovens rurais capacitação tanto na área agropecuária, quanto ambiental, econômica e social, porque entendemos a importância que isto tem na tomada de decisão, no momento de ficar ou não no rural”, destaca.

Quem tomará conta da produção nas próximas gerações?  De acordo com Clarice Vaz Emmel Bock, muitos jovens ainda desejam permanecer no meio, porém precisam de mais incentivo e oportunidades para se estabelecerem.

A nutricionista Elcione Mattei que, há 11 anos deixou, o campo conta que a principal motivação foi a busca por uma formação profissional. A desvalorização dos produtos agrícolas, baixo valor pago aos produtos na hora da venda e preço alto dos materiais utilizados para o tratamento da terra são algumas das dificuldades vividas no dia a dia no campo, citadas por ela.  “Principalmente a desvalorização e a falta de apoio por parte do governo, estado e município à classe dos agricultores que lutam diariamente para manter o alimento na mesa de todas as pessoas”. Em dados divulgados pelo  Portal Brasil em 2015, 70% dos alimentos produzidos no país são provenientes da agricultura familiar.

Para Elcione, a decisão de deixar o campo se deu em função das dificuldades no acesso ao meio urbano, bem como a universidades, lazer e entretenimento. “Busquei na cidade grande mais oportunidades de trabalho, lazer e formação profissional”, destaca.

As fazendas familiares, pequenas ou grandes são responsáveis pela produção de alimentos e de grande importância para a agricultura. Se acabarem desaparecendo o reflexo poderá ser sentido na economia do país.

Em busca de novas oportunidades, jovem acabam deixando a propriedade familiar (Foto: Isadora Gerevini)

Matheus Benvegnú, hoje com 21 anos, lembra do período da infância em que ajudava os avós na colheita de fumo. Para ele, o trabalho no campo demanda muito tempo, esforço e requer certa experiência. “É um trabalho que exige muito da pessoa, física e mentalmente, ainda mais na agricultura familiar, eu nunca gostei”. O estudante de engenharia química é a terceira geração da família e reforça o dado de que dificilmente, as propriedades familiares avançam da segunda geração. “Hoje, tenho certo interesse na área, mas resolvi seguir outro caminho”, ressalta.

Pelo fato de ser um assunto pouco abordado nas famílias, a sucessão torna-se delicada quando discutida. Em muitos casos, é motivo de intriga entre os membros. “Os fatores preponderantes são o não reconhecimento do jovem como trabalhador na unidade de produção familiar, principalmente não dando uma remuneração pelo que fazem, a falta de diálogo entre a família e a busca por novas oportunidades”, finaliza Clarice.

Por ser deixado de lado, reflete a realidade que se presencia hoje: apenas 36% da população brasileira ainda vive no campo, segundo dados do Censo Agropecuário de 2017, realizado pelo IBGE. Consequentemente, a população urbana tende a crescer, como afirma o relatório mais recente da Organização das Nações Unidas, a ONU, 54% da população mundial vive em áreas urbanas, uma proporção que se espera que venha a aumentar para 66% em 2050.

“O que muitas vezes acontece é que os filhos têm que assumir as propriedades quando pais morrem ou adoecem. Nossa preocupação é despertar o diálogo em relação a esse tema nas famílias”, relata o gerente regional adjunto da Emater Ascar, Dartanhã Vecchi, ao destacar os trabalhos realizados pela entidade. Dartanhã explica que atualmente existem políticas públicas que, se bem empregadas, podem incentivar o jovem a permanecer no campo. É o exemplo do Programa Bolsa Juventude Rural, oferecido através da Secretaria de Agricultura do Rio Grande do Sul, “é dar oportunidade e condições de acesso e permanência dos jovens no ensino médio e implantação de projetos produtivos sustentáveis, estimulando a sucessão nas propriedades rurais familiares”, pontua.

Isadora D. Gerevini
Flávia Mohr Dias

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