Desigualdade social atinge a população brasileira não só de um ponto de vista econômico, mas também em situações corriqueiras. O atendimento de saúde é uma delas.

“Estou esperando para realizar uma cirurgia de retirada da vesícula, pois tenho uma grande infecção. A cirurgia estava marcada para ontem, terça-feira 16 de julho, porém o hospital estava lotado. Reagendaram para semana que vem. O médico afirmou que se eu tiver uma crise muito forte eles irão fazer a cirurgia. Minha preocupação é ter que passar pela cirurgia e ficar no corredor.” – Patrícia da Silva, Dona de Casa

 

“Tive uma infecção no rim esquerdo, estava aguentando as dores por mais de uma semana, até que em uma madrugada tive que chamar ajuda. Levaram-me até um hospital público onde demoraram 3 horas para me atender, fui atendida graças a preocupação de um guarda que viu que eu não conseguia nem ficar sentada mais. Passei 6 horas por coletas de sangue e urina, para no final ser mandada embora com uma caixinha de amoxicilina. Fui até uma clínica particular onde lá, me deram um tratamento de uma semana com medicação na veia, o que me fez melhorar.” – Júlia, 23 anos, estudante

 

“Minha mãe estava na lista de espera para fazer cateterismo, ela ficou dias esperando, e com eles passando, ela ficava cada dia mais fraca. No dia em que chegou a sua vez, tivemos que ir às pressas para o hospital, que era longe, pois ela estava muito debilitada, quase a perdemos.” Paulo, filho de Dona Rosa, dona de casa.

Quando falamos do Sistema Único de Saúde (SUS) o que vem a sua mente? Provavelmente, você já ouviu relatos parecidos com os citados acima. Patrícia, Júlia e Paulo tiveram a triste realidade de passar por atendimentos inadequados, quando mais precisavam de ajuda, ou melhor, quando estavam debilitados de lutar por seus direitos sociais. Segundo o Ministério da Saúde, mais de 80% da população brasileira, ou seja, 150 milhões de pessoas dependem deste serviço. Desta forma, podemos observar que a desigualdade social atinge a população brasileira não só de um ponto de vista econômico, mas também em situações corriqueiras. O atendimento de saúde é uma delas.

A constituição brasileira reconheceu a saúde como um direito de cidadania e instituiu esse sistema de saúde que precisa ser implementado. O Idec, Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor, elencou alguns dos principais direitos dos brasileiros com base na lei federal 8080/90. Desta forma, são direitos dos cidadãos: ter acesso ao conjunto de ações e serviços necessários para a promoção, a proteção e a recuperação da saúde; ter acesso gratuito aos medicamentos necessários para tratar a saúde; ter acesso a centrais que facilitem a internação hospitais; receber informações claras e concretas sobre o seu estado de saúde; detalhamentos dos possíveis efeitos colaterais de medicamentos, exames e tratamentos a que será submetido; receber as receitas com o nome genérico dos medicamentos prescritos, datilografadas, digitadas ou escritas com o nome e assinatura do profissional e número do registro. Lembrando que essas são apenas algumas das especificações da lei.

Mas porque não funciona na prática?

De acordo com a professora de Psicologia da Universidade de Passo Fundo, Dirce Tastch, o Brasil conta com uma diversa variedade de serviços que podem ser classificados como excelentes, bons e péssimos. A professora afirma que não é possível generalizar ou classificar o funcionamento do sistema e explica que, a questão deve ser observada no ponto de vista de como os gestores públicos investem na saúde. “Temos muitos exemplos de SUS que funciona, de programas de atenção em saúde premiados internacionalmente. A qualidade dos serviços está diretamente ligada à capacitação dos trabalhadores em saúde e dos gestores públicos cumprirem com as exigências constitucionais de atenção à saúde da população”, explica Dirce.

Julia, citada no início do texto, não teve uma boa experiência com o hospital público, mas pode buscar por recursos privados para tratar de sua infecção. No entanto, a maioria da população brasileira não conta com essa oportunidade e dificilmente a doença sendo ela grave ou não, poderá buscar por outra ajuda que não seja do Sistema Único de Saúde.  Patrícia e Dona Rosa, são exemplo disso, o medo de ficar no corredor do hospital ou os dias agonizando em casa, esperando a hora de sua cirurgia chegar, são relatos comuns quando entramos na sala de espera de um hospital público. Mas tudo isso pode e deve mudar, como afirma Dirce “ O SUS enquanto política pública de saúde é a melhor proposta de atenção em saúde existente. A questão é que depende do gestor local definir o que vai ou não investir. As pessoas podem adoecer e tem no SUS quase que o único recurso disponível”.

 

Eliziana Glitz e Thaise Ribeiro

 

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