Você sabe o que é o conhecimento? Já parou para pensar nesta palavra? Existem diferentes tipos de conhecimento e junto com ele há formas para quem quer adquiri-lo. Desde o princípio a Filosofia se preocupou com o “problema” conhecimento. Os primeiros filósofos da Grécia por exemplo, questionavam o mundo cosmos (homem e natureza) para tentar encontrar a verdade e um princípio único que abrangesse toda a realidade do ser. Já no Império Romano com a transformação do cristianismo em sua religião oficial e durante todo o período da Idade Média, grande parte das verdades estava sujeita a autoridade religiosa.
Porém, outras formas de conhecimento também coexistiram no mundo antigo e medieval, mas foi somente com o avanço da modernidade que a questão do conhecimento foi realmente sistematizada. Na entrevista abaixo, conversamos com o Professor da Universidade de Passo Fundo Otavio José Klein, para entender melhor o que é conhecimento, suas formas, e como ele pode ser construído. A entrevista foi realizada durante a VI Semana do Conhecimento realizada pela Universidade de Passo Fundo.

Otavio Jose Klein possui graduação em Filosofia, mestrados em Ciências da Religião e Comunicação Social, doutorado em Ciências da Comunicação pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos (2008) com estágio de doutoramento na Universidade Beira Interior (UBI) de Portugal (2006). Atualmente é professor titular da Universidade de Passo Fundo. Tem experiência de ensino na área de Comunicação, nas disciplinas de: metodologia da pesquisa; espistemologia da comunicação; história da comunicação; ética e legislação; É pesquisador em comunicação na linha de pesquisa de Processos e Práticas Culturais em Comunicação e Comunicação Regional. Tem desenvolvido pesquisas em Comunicação (comunitária, pública); Hábitos midiáticos; Comunicação e cidadania e Telejornalismo Regional; Mercado de Trabalho em Design e Midiatização da Sociedade (teoria e epistemologia).

foto: Taiane do Carmo

Entrevista:
1- O que é o conhecimento? Como ele surge?
Conhecer é um processo que ocorre na relação de um sujeito que busca conhecer com o objeto que se dá a conhecer. Isso ocorre de através de diferentes formas na História recente da humanidade: na arte, na filosofia, no senso comum, na religião e na ciência.
2- Quais são as ciências que estudam o conhecimento, e qual é a diferença de cada uma delas?
O conhecimento enquanto objeto de estudo é temática de muitas áreas do saber, entre elas, podemos citar a História do Conhecimento que nos ajuda a compreender como o ser humano se tornou capaz de produzir, armazenar e utilizar o conhecimento em diferentes fases de sua evolução. Têm também as disciplinas da Sociologia do Conhecimento, Psicologia do Conhecimento, Teoria do Conhecimento, Filosofia do Conhecimento, a Epistemologia, a Ontologia, etc… São muitos os aspectos do conhecimento estudados.
3- Como podemos chegar a conhecer?
Através das diferentes formas. Há pessoas que conhecem o mundo através da religião, outras conhecem através do senso comum, mas é possível também conhecer através da ciência, que surgiu com a criação do método científico no século XVII. Buscar conhecer algo, implica em uma escolha, ou seja, escolher o caminho para conhecer. Se eu escolho a ciência, aliás, como em todas as outras formas, devo ser iniciado nela para poder conhecer e também produzir conhecimento. Com a ciência sendo utilizada para produzir conhecimento e também conhecer a realidade, por causa de seu método, percebemos que o mundo avançou mais rapidamente nos últimos anos, quando comparado aos milhares de anos anteriores.
4- Porque precisamos conhecer? Qual é o impacto do conhecimento na sociedade?
O conhecimento é uma ferramenta que se mostrou muito poderosa para a humanidade. Com ele o ser humano já respondeu muitas perguntas e tantas outras ainda precisam ser respondidas.
Segundo Boaventura de Sousa Santos, existe uma profunda relação entre conhecimento e sociedade e para cada forma de conhecimento existe um tipo de sociedade. Quando uma religião dominante é assumida como a forma hegemônica de conhecimento em uma sociedade, o resultado vai ser a absolutização de verdades estabelecidas pelas autoridades religiosas e a consequência será uma sociedade de crentes e não de cidadãos. Uma sociedade de cidadãos é o que se espera a partir da ciência, que é o resultado do uso da razão humana (capacidade do ser humano) a partir de métodos para chegar a verdade. Porém, ainda é necessário lembrar que a ciência evoluiu e ainda evolui, porque ela própria é objeto do conhecimento humano. Desde o seu surgimento, a ciência deu saltos e fez rupturas com ela mesma. No início ela estava voltada apenas para as ciências exatas e da natureza (ciência moderna), depois da revolução industrial ela passou a incorporar as ciências humanas e sociais (ciência pós-moderna) e atualmente já temos o grande movimento da ciência da complexidade, na qual a nossa instituição está também envolvida. Símbolo deste envolvimento foi a cessão do título de doutor Honoris Causa para Edgar Morin, um de seus protagonistas.
5- Qual é o papel da universidade?
Uma universidade deve primar pelo conhecimento. Não somente o conhecimento já existente, que circula nas aulas e nas bibliotecas, mas também pela construção do conhecimento novo. Por isto existe a pesquisa como um dos pilares de uma universidade. Sem a produção do conhecimento não há universidade. Isto ajuda a entender a grande importância de Programas de Pós-Graduação (mestrados e doutorados) numa instituição universitária.
6- O que é o dogmatismo, Ceticismo e utilitarismo?
O surgimento da ciência causou muitas reações na sociedade que estava acostumada com outras formas de afirmar verdades. Alguns se apegaram a algumas verdades, absolutizando-as e fanatizando-se. Este tipo de atitude diante do conhecimento é conhecida como dogmatização ou fundamentalismo que existe em muitas áreas, tais como, religião, política, economia e também na ciência. Outros, que são os céticos, não vêem a possibilidade de um conhecimento que seja firme e seguro. Para eles o conhecimento universalizável não existe. Cada um tem o seu ponto de vista que passa a ser a sua verdade. Outros ainda têm uma atitude utilitarista do conhecimento. Estes consideram apenas os conhecimentos monetarizáveis, ou seja, que são úteis na sociedade de mercado, sendo que os demais não têm importância e não são buscados. Estas três atitudes negativas em relação ao conhecimento nos desafiam para uma proximidade maior com o conhecimento que pode, inclusive, nos ajudar a romper as grandes dificuldades pelas quais passa o nosso mundo.
7- Quais são os maiores desafios a serem enfrentados no Brasil, para quem busca o conhecimento, e qual sua dica para quem quer ter mais conhecimento?
Quando falamos em conhecimento e sua relação com a sociedade brasileira e os desafios que brotam desta relação emergem alguns desafios urgentes. O primeiro deles é a necessária tolerância diante de diferentes formas de conhecimento, especialmente com o conhecimento tradicional de povos em suas culturas específicas. Estas foram desprezadas pelas formas de conhecimento que prevaleceram no ocidente nos últimos séculos, primeiro pelo conhecimento religioso e depois também pelo conhecimento científico, que contribuíram com o tipo de sociedade que temos hoje, que ainda despreza o conhecimento tradicional e mantém a grande maioria das pessoas no obscurantismo. O segundo desafio é fazer com que o conhecimento contribua com a democracia em nossa sociedade. Neste sentido a ciência havia apontado para este caminho quando chamou a atenção, nos seus primórdios, de que todo o ser humano é capaz de autonomia a partir de sua capacidade racional, o que faria surgir uma sociedade igualitária. Infelizmente os absolutismos, fundamentalismos e fanatismos dificultam a concretização desta perspectiva. O terceiro desafio é fazer a todos perceber a importância do conhecimento na vida das pessoas. Em muito já se avançou, porém vemos crescer entre nós as visões de que não é o conhecimento que resolve, mas também, o que acontece na visão do poder político central, onde as políticas públicas de educação são as primeiras a serem sacrificadas em tempo de crise econômica.

Taiane do Carmo

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